segunda-feira, 19 de julho de 2010

Passione

O sul da Itália é cenário da novela Passione. Lá se espalha um tapume verdejante. De plantações e divagações. Onde mãos sujas de terra arrancam legumes, verduras, frutas. Em cada uma, uma raiz. E com a testa ensopada de suor, olhos franzidos, boca fechada, quase gemendo, o homem olha o céu como uma catedral reluzente. A abóbada é entremeada por nuvens, abaixo da luz que vem do zimbório e sua cúpula solar. Os campos à sua frente se abrem como fachada para o vento. As paredes são as montanhas. À noite, duas estrelas são o limite imaginário das torres ameiadas. Uma sequência de árvores se impõe como o átrio. A capela fica no leito. Um pastor observa o rebanho esparramado, que bebe a água fresca do rio. A água benta do rio.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Frase

Sentia vontade de desabafar com uma frase de gênio. Aquela que abarca um universo em cinco ou seis palavras. Aquela que resolve dilemas, abre novos campos de imaginação. Aquela que só os sábios sopram em golpes de inspiração. Aquela cheia de simplicidade a umedecer as cinzas inférteis da frustração. Aquela que levanta o espírito rumo a novas tentativas. Aquela que, em forma de consolo, ouvia de sua mãe quando criança. Aquela que embalava os ensinamentos de seu pai nas lições antes de dormir. Aquelas teorias em forma de balbucio de seu filho, quando este assiste a um desenho ou vê um buquê de flores. Aquelas opiniões de seu outro filho quando o Brasil não estava jogando bem na Copa. Todas estas, e mais aquelas, que ouviu, leu e que consegue se lembrar em forma de intuição. “Lembrar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração” , de Shakespeare, é daquelas que ilustram sua intenção. Sentia vontade de desabafar uma frase como aquelas que se acumulam amorfas dentro dele, e mais aquela que ele não consegue, ou melhor, não sabe dizer.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Estética

Rubem Fonseca já foi comissário de polícia. Sua função era semelhante à de um juiz de paz. Intuía com maestria a angústia dos que se envolviam na marginalidade e sabia acalmar ânimos e conflitos. Depois caminhou para a literatura. Pelo seu estilo preciso, e altamente verossímil, percebe-se que ele não mudou de ares. Continua sendo um juiz de paz, de si mesmo. Quando descreve, com invejável riqueza de detalhes, personagens complicados e relata a violência brutal com uma naturalidade banal, como se tomasse um copo d’água, não está necessariamente prestando um serviço à sociedade. Pode, pelo contrário, até alimentar, admitir erroneamente a sedução pela opressão. Atiça nos leitores, sempre vulneráveis à imponência do autor, este espectro mórbido, tão impulsionado pela mídia e tão aceito pela população.
Ele, porém, deve sair beneficiado. Parece que canaliza todo seu lado cruel, rude, selvagem, prestes a explodir, em suas criativas histórias. Seus textos são sua catarse interna. A mim assustam pela perfeição estética. Esta estrutura engana, como se nos atraísse para o abismo de um mundo vil. Sua linguagem direta conduz para um labirinto pornográfico que envolve nossa alma como se fôssemos crianças diante de um adulto bravo. E nestas situações covardes, os adultos têm sempre razão. Essa pelo menos é a impressão, muitas vezes falsa. Fico acuado ao sentir que o laureado Rubem Fonseca tem sempre razão. Tenho medo de Rubem Fonseca, um escritor bandido.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Retratos

O sol coroava a tarde fria nas montanhas de Águas de Lindóia. Enquanto a noite não chegava, no mesmo quadrante do tempo, ele passeava pelos pontos onde andou sua avó, décadas antes. Foi ao mesmo hotel no qual se hospedou então com a família. Vagou pela recepção, decorada com lustres imponentes, sofás e lembranças. Até ouviu, na sonoridade que ecoou do passado, seu pai conversando no restaurante, falando dos planos da viagem, negociando com a recepção. Era a mesma voz mansa a se perpetuar naquela atmosfera tão revigorante como as águas da região. E caminhou até a praça, que abrigava em seu interior um lago de águas calmas. Num dos bancos laterais, a avó fora retratada, numa dessas fotografias que se eternizam e se tornam símbolos de adoração familiar. O retrato trazia um olhar já cansado, sempre pacífico, a refletir um misto de conformismo e amor pela vida. As mãos, sobre as pernas cruzadas, pareciam repousar na saia de delicadas estampas. Com cabelos brancos, curtos e cuidadosamente penteados, ela emanava uma discreta alegria. Estava feliz, satisfeita por ver sua família unida lá, naquele passeio que embalava o fim de seus dias.
Ao retornar àquele local, ele fez questão de também ser retratado, com seu filho no colo, numa homenagem e símbolo de continuidade. A tarde parecia a mesma. O sol reluzia sobre as águas contidas do lago. Posicionou-se para a foto. O silêncio das vozes, do pai e da avó, foi substituído por uma brisa suave que o acariciou com o seu perfume. O menininho, ainda bebê, já dava sinais de impaciência, começava a balbuciar um choro. Percebeu-se então um pêndulo, a oscilar entre a inocência da infância, esta manhã ensolarada e impetuosa, e a sabedoria da velhice, sol errante que se desmancha no anoitecer. O novo retrato configuraria a longa jornada, integrada no corpo unificado das gerações. Por isso ficou satisfeito, como sua avó. E naquela praça, naquele dia, intuiu pela primeira vez o aroma do paraíso.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Retumbante

As olheiras escuras mostravam abatimento. A barba, estava por ser feita. Ele não conseguia mais esconder a calvície que se abria em seus cabelos encaracolados. Beirava os 50 anos e sequer tinha uma propriedade em seu nome. Quando dei três tapinhas em suas costas, dizendo-lhe até amanhã, percebi minhas mãos se aquecerem. Um calor emanava, pulsante. E atravessava a camisa de gola amassada por um dia de trabalho. Sempre fora idealista. Agora se sentia desgastado, oprimido em frente ao computador.
Os tapinhas ressoaram fundo, em um som oco que parecia um desabafo engasgado. Se eu pudesse transformar em frases aquela sonoridade que só os amigos sabem escutar, diria que seu corpo estava falando, em tom de lamento, aquilo que não conseguia comunicar em palavras. “Eu sou um homem bom, eu sou um homem bom”, foi o que ouvi.

Holanda

Fatos que se sucedem no tempo implacável. E que carregam nos seus rastros detalhes infindáveis, capazes de preencherem um livro se analisados com minúcias. Assim é a vida, assim é o futebol. A derrota do Brasil para a Holanda já é passado. Tornou-se passado assim que o juiz apitou o fim do jogo, levando as esperanças daqueles que acreditavam. É isso que dói, ter a precisa noção de que o tempo não volta atrás, que o rumo dos acontecimentos não pode ser corrigido. Tampouco lamentos conseguem reescrever a história.
Tudo aconteceu muito rápido. Antes da partida, naquela ansiedade, pensei na vitória, baseado no aprendizado das últimas derrotas. Tive a intuição de que a vivência, apenas a vivência, se imporia naquele gramado, uma espécie de savana desenfreada de jogadas e sonhos, para que tudo desse certo. Mesmo a experiência, porém, não é suficiente para nos tornarmos invulneráveis. Dunga e o nosso aguerrido time sentiram isso. Mais uma página foi virada na história das Copas.
Mas toda a determinação do grupo na sedutora África do Sul e a lição dolorosa de que os desejos às vezes teimam em não prevalecer, apesar de o dever cumprido, mostram mais uma vez que nem sempre a vitória é o mais importante. Já sinto falta das arrancadas imponentes do Lúcio, da insistência do Kaká, do olhar obcecado do Maicon, da força do Luís Fabiano, da seriedade do Robinho, que guardou seu jeito moleque nestas ocasiões em que o futebol é solene.
Já guardo com uma pontada de dor e saudade esta Copa do Mundo, para mim sempre um manancial em que navegam minhas esperanças, um campo por onde correm os meus amores, para além do meu tempo, neste livro que nada mais é do que a compilação das minhas emoções.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Lanchonete

A noite perfumada ao redor do pequeno edifício, onde ele fazia o curso, não escondia um ar melancólico trazido pelo vento. A região e os seus objetivos até que eram nobres. Esperava o início das aulas sentado na lanchonete moderna ou no barzinho de fast-food para ricos. Comia sanduíches vazios, caros, que não matavam sua fome. E quando começava a aula de escrita criativa, em salas luxuosas com sofás e almofadas, pouca coisa mudava. Havia certas madames com frases irônicas que provocavam gargalhadas. Advogados com um estilo blasé. Estudantes tentando mostrar a todo custo a própria intelectualidade. No geral buscavam esbanjar, ou arrotar, cultura de uma maneira impositiva. Até que demonstravam técnica na elaboração de textos, que, no fundo, não contavam verdades. Para ele, era como se continuasse sentado na lanchonete moderna ou no fast-food para ricos comendo os mesmos sanduíches vazios.