A história caminha em nuances que se assemelham à lenta transformação do dia em noite, e vice-versa. Assemelha-se à lenda de Sísifo, obrigado, por castigo, a rolar uma grande pedra morro acima para, a cada fim de jornada, vê-la retornar incoercível para o chão. Assim é a sucessão de fatos, um eterno roteiro de onde emergem novas ideias, muitas remodeladas, a reaparecerem rolantes pelos caminhos da humanidade.
Na Grécia Antiga, o ascetismo de Epicuro buscava e acreditava no homem ideal, livre de seus dramas, valorizando a amizade. Guerras se sucederam e fanaram aparentemente essas aspirações. Por estes hiatos, entretanto, a chama do bem sobreviveu com seu brilho fulvo. E já no Renascimento, a obra Paulo e Virgínia, foi um dos bastiões do retorno da crença na alma generosa do ser humano. Ilustrou os conceitos iluministas concebidos por Rousseau, na defesa do humanismo e da possibilidade de que a boa fé prevaleça sobre conflitos terrenos. Shakespeare também buscou desnudar a hipocrisia em suas obras dramáticas. No século XX, pelos anos 30, despontou o inglês Aldous Huxley, autor de livros que remetem à esperança, como A Ilha, descrevendo aspectos de uma sociedade ideal.
Utópica ou não, essa força construtiva nunca desaparece e, durante períodos desconstrutivistas, céticos e amargos, emerge para superar a ambição, o ódio e a inveja corrosiva. E, sobre o cenário enfumaçado de Sodomas e Gomorras arruinadas, esta energia vital ganha a forma de um anjo, a estender a mão aos que estão no chão, chamuscados e avariados, para que se levantem e sigam adiante, amadurecidos, arrependidos, tonificados pelo amor. Resta a nós, companheiros da era atual, em que o século XXI dobra sua primeira década melindrado pelo sensacionalismo, pelo terrorismo, pelo egoísmo tecnológico, uma alternativa: esperar que a pedra comece a rolar, aliviada, morro abaixo.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
terça-feira, 27 de julho de 2010
Mictório
O aluno fez pirraça com o colega. Chacoalhou-o enquanto urinava no mictório. “Vou dedar”, disse a vítima, com a camisa molhada. E foi ao diretor, na sala do andar abaixo. Todos os professores estavam reunidos quando o arteiro foi chamado. Esperava uma advertência, já ciente de que errara. Mas não. O homem, trombeteando voz grave, decretou, ao estilo da ditadura então vigente. “Tira a sua camisa agora e bota esta molhada”. O menino ficou constrangido, na frente de todos, enquanto se arrepiava com o gelado meloso em sua pele. “Você vai trazê-la limpa até quinta-feira”. O repressor poderia até achar que estava fazendo o certo. Mas para um educador, não é bom deixar mágoas. E desde então, até virar adulto, sempre que ele se lembra daquela figura autoritária, não é envolvido por um sentimento de confiança. Penetra por suas narinas o cheiro vaporoso do xixi.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Metamorfose
Há pouco tempo, os jogadores brasileiros que atuavam na Europa tinham a vantagem de incorporar à seleção a maturidade que adquiriram por lá. Chegavam equilibrados, até melhores tecnicamente. Isso mudou, após as frustrações de 2006 e 2010. No contexto novo, é bom que muitos tenham aspirado apenas os ares brasileiros, sem adquirir os vícios da rigidez tática, pela identidade do nosso futebol. Globalização em excesso faz mal.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Dionísio
Para ser artista, é preciso ter o lado direito do cérebro desenvolvido. Ele abre portas para a imaginação. As palavras navegam em rio fluente, soltas, solícitas a qualquer menção da mente que as comanda. É verdade que o comandante tem de ser um chefe com moral, estimulante, porque se elas não vislumbrarem sentido em suas existências, essas palavras, ninfas de espírito alado, voam para outras paragens, fugindo da lucidez amorosa de Apolo para se perder na loucura estéril de Dionísio, deus fragilizado por ser filho de uma mortal.
O pretenso artista cai fulminado no chão duro da razão. Desaba diante de suas mazelas não superadas, no universo aprisionante do fato concreto. Vê interrompido o canal que une suas ideias às emoções. Seu pensamento cartesiano se embriaga de solidão por campos sem fim. Ele se vê arruinado, isolado na margem esquerda cerebral, observando, do outro lado do rio, seu similar artístico desbotar como em uma pintura impressionista, até definhar por falta de inspiração. Então, em vez de músico, prosador ou poeta, ele se torna apenas jornalista.
O pretenso artista cai fulminado no chão duro da razão. Desaba diante de suas mazelas não superadas, no universo aprisionante do fato concreto. Vê interrompido o canal que une suas ideias às emoções. Seu pensamento cartesiano se embriaga de solidão por campos sem fim. Ele se vê arruinado, isolado na margem esquerda cerebral, observando, do outro lado do rio, seu similar artístico desbotar como em uma pintura impressionista, até definhar por falta de inspiração. Então, em vez de músico, prosador ou poeta, ele se torna apenas jornalista.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Sid
O menino assiste televisão, deitado no sofá, bebendo Nescau batido. Assiste I-Carly, Hannah Montana, as peripécias dos irmãos Drake e Josh. Mas é eclético. Desenhos também o satisfazem, a começar pela ingenuidade curiosa do Sid, o cientista, boneco animado com cabelos esquisitos. Sid quer conhecer tudo que o cerca e faz perguntas sempre intrigantes. Uma delas, qual a medida das coisas?
Atento, o garoto sabe sobre todos os personagens, entende as histórias e começa a conhecer um pouco da astúcia humana. Percebe quando há ironia e quando a ternura prevalece. Televisão não é leitura, seria absurdo falar o contrário. De qualquer forma, propicia uma integração com o mundo. À noite, em cima da estante, ela fica desligada, calada em um canto. Parece descansar para abrir suas janelas no dia seguinte. O menino dorme tranquilo. Seu semblante angelical transparece um sorriso franco. Ele está longe, pescando e mesclando as imagens que flutuam em sua mente febril. Nelas Sid se mistura ao seu pai no escritório, à sua mãe no supermercado, a ele jogando bola no parque ensolarado. Na tela dos seus sonhos acontecem as mais lindas aventuras. Quer desenho mais criativo?
Atento, o garoto sabe sobre todos os personagens, entende as histórias e começa a conhecer um pouco da astúcia humana. Percebe quando há ironia e quando a ternura prevalece. Televisão não é leitura, seria absurdo falar o contrário. De qualquer forma, propicia uma integração com o mundo. À noite, em cima da estante, ela fica desligada, calada em um canto. Parece descansar para abrir suas janelas no dia seguinte. O menino dorme tranquilo. Seu semblante angelical transparece um sorriso franco. Ele está longe, pescando e mesclando as imagens que flutuam em sua mente febril. Nelas Sid se mistura ao seu pai no escritório, à sua mãe no supermercado, a ele jogando bola no parque ensolarado. Na tela dos seus sonhos acontecem as mais lindas aventuras. Quer desenho mais criativo?
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Magnética
Nunca imaginara entrar em um aparelho de ressonância magnética. Seu coração batia acelerado, já na maca. Com o rosto preso a um protetor facial, olhou para trás e pensou em gritar de pânico. Conteve-se. Entrou no tubo, parecido a uma cápsula espacial imersa em uma sala branca. Temeu por sua claustrofobia. Mas foi se descobrindo mais forte do que ela. Os barulhos ensurdecedores não o venciam. Nem mesmo aquele de britadeira em alta potência bem ao seu ouvido. Ou aquele que parecia o de um homem fúnebre repetindo frases distorcidas, em inglês. “Go on, go on, go on...” Aos poucos, a ânsia em fugir dali deu espaço ao desejo de sair logo dali, mas vitorioso. Decidiu não se render a seus temores, atiçados pelo aparelho que bem poderia ser usado por torturadores nos regimes ditatoriais. E pensou: se venço esses sons concretos, por que não posso superar meus rugidos internos, fantasiosos? Foi como uma sessão de análise, mais dura.
Ao sair, satisfeito, parecia ter encerrado extenuante viagem, tonto e enjoado que ficou o resto da noite. No dia seguinte, no café do hospital, leu na bíblia todo o regozijo divino após ter criado o céu, a terra, os mares, os répteis, as aves, os peixes e os outros animais, sequência concluída com a moldagem do homem e da mulher. Também foram tempos de barulhos ensurdecedores: tremores, ruídos da terra se abrindo, chiados da água açoitando a pedra, o doloroso rompimento da luz com a escuridão. O criador mesmo sabia que mudanças doem. Pode até ter ficado satisfeito quando Adão e Eva cederam à tentação da serpente. Só assim puderam se multiplicar e criar ramificações. Chegou a dizer, “agora eles são como nós, conhecedores do bem e do mal...” E descansou no sétimo dia, santificando uma missão cumprida, a ressonância magnética inicial.
Ao sair, satisfeito, parecia ter encerrado extenuante viagem, tonto e enjoado que ficou o resto da noite. No dia seguinte, no café do hospital, leu na bíblia todo o regozijo divino após ter criado o céu, a terra, os mares, os répteis, as aves, os peixes e os outros animais, sequência concluída com a moldagem do homem e da mulher. Também foram tempos de barulhos ensurdecedores: tremores, ruídos da terra se abrindo, chiados da água açoitando a pedra, o doloroso rompimento da luz com a escuridão. O criador mesmo sabia que mudanças doem. Pode até ter ficado satisfeito quando Adão e Eva cederam à tentação da serpente. Só assim puderam se multiplicar e criar ramificações. Chegou a dizer, “agora eles são como nós, conhecedores do bem e do mal...” E descansou no sétimo dia, santificando uma missão cumprida, a ressonância magnética inicial.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Desapego
Escrevo com tanto amor, com tanto amor, que me dá vontade de pegar cada letra, limpar bem o seu corpinho, colocar o mais lindo vestidinho, pentear seus cabelos, lisos, dourados, quaisquer que sejam, abraçá-la se ela for sorriso, acolhê-la se lacrimejar triste, acariciar seu rosto formado por minhas vivências, largá-la para o mundo com aperto no coração, impelido ao desapego, articulando minhas últimas recomendações, quando ela olhar para trás, já na porta, para se despedir. “Vai com Deus, filha”.
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