quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Insônia
Pela madrugada ele se revirava na cama, sem conseguir dormir. Sua vida estava mudando. Sentia-se mais forte e isso gera responsabilidade. Cuidar dos filhos, ganhar dinheiro e conservar seu gosto pela liberdade. Precisava conciliar tudo isso nesta nova fase. Teria de intervir em um conflito familiar em que um dos filhos de seu antigo tio agia grosseiramente. Virou-se para um lado, para o outro. Sua esposa deve ter percebido. Os primeiros pássaros da manhã já cantarolavam. O canto fino atormentava, como um sinal de uma noite perdida. Sentiu medo de se levantar. Queria pedir ajuda, mas não havia mais ninguém.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Perfume
Os raios da manhã lascavam a fronde de uma árvore, como se esta estivesse sob o ataque de lanças de fogo. Recostado ao pé do tronco, um menino bebia água de côco. Desfrutava da sombra e dos perfumes refrescantes da mata verde. Levantou-se apenas à tarde, sentindo na face o brilho acolhedor em que se transformara o sol. Assim sou eu, filho. A fronde da árvore que te protege e te liberta pela trilha da vida na companhia de um beijo iluminado.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Realidade
Acabara de discutir com um alcoólatra. Foi na saída de um bar na Vila Madalena, já na noite funda, mergulhada no silêncio sem luar. Envolveu-lhe uma sensação de humilhação por ter proferido palavras raivosas, cuja origem até era legítima, mas que perderam seu brilho ao alimentarem tão inócuo diálogo. Não adianta se confrontar com um alcoólatra, ralhá-lo porque bebeu. Ofender-se com o que falou. Entrou em casa, deitou ainda trêmulo com a confusão. Sonhou com um antigo amigo, de escola. Estavam juntos, indo e vindo por uma série de salas, pertencentes a um clube recreativo. Conversavam com diretores, sócios, sentindo-se plenos e seguros. Em outra ocasião, ouvia sua esposa, em um saguão de hotel. Ela lhe falava com serenidade e tom conciliador, acalmando-o. Na sequência, vencia uma corrida de carros de passeio, pelo trânsito paulista, contra competidores que iam de ex-colegas até o piloto Felipe Massa. Os afoitos concorrentes batiam, seduzidos por mudanças repentinas de trajetória, por arrogância e ambição. Ele se manteve reto, com perícia, na pista da esquerda. Desviou-se só o necessário e se surpreendeu com a vitória. Chegou antes a um prédio com uma escadaria na entrada. Esperava no saguão quando os organizadores já iam dando a vitória para outro. Ele não permitiu a afronta, fruto do descaso alheio. Argumentou sem perda de tempo e finalmente conseguiu o reconhecimento, ainda que sem impedir os ares de desprezo. Não fazia mal, estava feliz. Conseguia enfim se comunicar e obter retorno. A trama foi uma paradoxal obra-prima de sua mente, numa fusão harmoniosa do inconsciente com a sensatez da consciência. Ajudou-o a se sentir aceito por si mesmo, suportar a rotina de realidades que não podem ser sonhadas por outros. Sonhos são resoluções individuais. No dia seguinte, ao acordar, soube por telefone que o alcoólatra tinha morrido atropelado.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Travessura
O garoto nunca mentia para a sua mãe. Com frequência ele aprontava na escola. Faltas leves, até criativas. E a cada anotação de um professor em sua agenda, era um desabafo de contrariedade. “Ah, não, vou ter de contar para minha mãe...” Era de sua índole admitir suas culpas, às vezes até exageradamente. A mãe, por outro lado, irritava-se com a série de estripulias do menino levado, mas honesto. Porém, sempre em seguida a uma reclamação particular, ela o defendia em público. Não permitia que o estereotipassem, como mãe, e também porque conhecia suas qualidades. Talvez ela intuísse alguma razão oculta, uma fraqueza enviesada na direção de uma necessidade de aparecer, justamente para não descobrirem uma dificuldade de relacionamento. Sentia-se, possivelmente, culpada por uma falha, por uma desatenção qualquer. Uma vez, após ele ter jogado da escola uma casca de mixirica no quintal do vizinho, junto com seus amigos, foi punido sozinho. Desta vez a mãe se cansara. Um pouco em função das dificuldades da rotina, que põe os nervos à flor da pele. Bateu-lhe firme, não com violência. O suficiente para deixá-lo magoado. Horas depois, ela foi ao seu quarto, onde permanecia deitado, no escuro, ouvindo um jogo do Corinthians no rádio da cabeceira. Inerte, ele apenas moveu o olhar para avistar o contorno de seu corpo, aureado na luz coada pela fresta da porta. Ela lhe pediu perdão. E perguntou se ainda a amava. Ele respondeu que sim, e muito. Sentimento que, junto com a gratidão, perdurará pelo resto de seus dias. Afinal, ele não poderia mentir para sua mãe.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Dimensões
A terceira dimensão chegou de forma definitiva ao cinema. Imagens inebriantes surgem na tela quando mais de um foco de luz se dissipa para convergir em uma única imagem em nossas retinas cobertas por uma lente especial. O espectador sente-se participando das cenas, impele-se a se colocar no lugar dos personagens. O maniqueísmo da visão em duas dimensões fica enfraquecido. O espectro do universo se amplia em forma de paisagens, cenas simultâneas, movimentos. Dá para se perceber os pássaros revoluteando em sincronia, no fundo de um campo em que os protagonistas interagem.
Pode-se dizer, sem generalizar, que escritores vêem em três dimensões e jornalistas, em duas. O outro lado, tão propagado em redações, pode no fundo ter vários outros lados incógnitos. É insuficiente, e cômodo, se ater a ele, geralmente uma resposta padronizada a um ataque. O futuro promete novos horizontes a desafiarem cada vez mais a capacidade humana de absorção do universo, com a possibilidade de nossos olhares captarem uma gama maior de pontos de vista. A tecnologia 4D surge com volúpia para incluir o tempo às três dimensões. É possível que venham no rastro a 5D, a 6D, até um dia enxergarmos o que hoje nos é invisível. Novas percepções revolucionariam a civilização, em uma situação similar ao momento em que a escuridão conheceu a luz, os mares, os céus, a vida animal, a modernidade, as novas tecnologias. Um ciclo pode estar se encerrando para o início de vários outros. Até chegarmos a algo como a sétima dimensão, a 7D. Sete dias, o intervalo que durou a criação do mundo. Número sete, letra D, de dias. De Deus.
Pode-se dizer, sem generalizar, que escritores vêem em três dimensões e jornalistas, em duas. O outro lado, tão propagado em redações, pode no fundo ter vários outros lados incógnitos. É insuficiente, e cômodo, se ater a ele, geralmente uma resposta padronizada a um ataque. O futuro promete novos horizontes a desafiarem cada vez mais a capacidade humana de absorção do universo, com a possibilidade de nossos olhares captarem uma gama maior de pontos de vista. A tecnologia 4D surge com volúpia para incluir o tempo às três dimensões. É possível que venham no rastro a 5D, a 6D, até um dia enxergarmos o que hoje nos é invisível. Novas percepções revolucionariam a civilização, em uma situação similar ao momento em que a escuridão conheceu a luz, os mares, os céus, a vida animal, a modernidade, as novas tecnologias. Um ciclo pode estar se encerrando para o início de vários outros. Até chegarmos a algo como a sétima dimensão, a 7D. Sete dias, o intervalo que durou a criação do mundo. Número sete, letra D, de dias. De Deus.
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Análise
O paciente, por um lado, necessitava reconstituir um vasto repertório de hábitos enraizados em sua mente, que o levavam à angústia, ao desamparo e ao medo do contato social. Mas ele não podia deixar escapar, nesta enxurrada, suas qualidades nobres. A sua rica sensibilidade era, justamente, quem o deixava vulnerável. Não queria perder este encanto, instrumento para as mais criativas divagações. Por isso tinha de evoluir sem mudar. Precisava se transformar.
Andarilhos
Encontraram-se novamente em Nova Iorque. Ele chegou naqueles táxis amarelos. Mal apertou o número 10 da botoneira e lá estava o velho amigo, abrindo-lhe as portas do pequeno edifício da rua 52, east side. Foi um tanto constrangedor, isso ficou perceptível no sorriso amarelo de ambos. Afinal, viam-se, antes da viagem, quase diariamente, e aquela familiaridade pareceu esquivar-se no reencontro. Dos olhares, no entanto, hauria uma alegria incandescente.
Logo recuperaram a afinidade. Não precisavam conversar para intuir o que sentiam. O hóspede, amparado pelo núcleo acolhedor que simbolizava aquele apartamento, desfrutou a cidade com prazer especial. Enquanto o companheiro trabalhava, ele andava pelas ruas repletas de todo o tipo de gente, admirando a peculiaridade de cada um. Passeou pela beleza das tardes douradas no parque. Entrou nos museus, visitou locais tradicionais, outros desconhecidos, procurou captar todos os detalhes daquela metrópole pungente.
E à noite, iam jantar em restaurantes, colocando a conversa em dia. Quando não havia o que falar, voltavam a pé por quarteirões, embebidos pelo luar, ouvindo músicas do Sting, imersos cada um em seus fones de ouvido. O diálogo, nessas ocasiões, era feito pelo ritmo dos passos, pelos vultos andarilhos dos dois, que se revezavam, distorcidos e efêmeros, nas paredes iluminadas, dando a confortável percepção da presença do outro.
Foi uma temporada intensa, passou rápido. Serviu para que ele se revigorasse ao fortalecer ainda mais aquele vínculo. Na volta, rumo ao aeroporto, após se despedir, olhou para trás e viu, da ponte, a cordilheira de prédios candentes. Sentiu uma enorme gratidão por aquela massa urbana imprevisível, construída à imagem e semelhança dos seus habitantes, os cidadãos do mundo. Pensou que deixara lá um pouco de si, naqueles momentos de pura amizade. Pensou no parceiro que ficara, mantendo a cidade com o calor de sua individualidade. O cenário, naqueles dias, pareceu ter se contagiado com aquela empatia mútua, que já não acalentava a necessidade fremente da presença física. Experiências deste tipo, boas ou más, devem ocorrer com todos os turistas e moradores de lá, porque são as relações humanas que constroem uma cidade. Se não fosse assim, e sem o seu melhor amigo, Nova Iorque não seria tão linda.
Logo recuperaram a afinidade. Não precisavam conversar para intuir o que sentiam. O hóspede, amparado pelo núcleo acolhedor que simbolizava aquele apartamento, desfrutou a cidade com prazer especial. Enquanto o companheiro trabalhava, ele andava pelas ruas repletas de todo o tipo de gente, admirando a peculiaridade de cada um. Passeou pela beleza das tardes douradas no parque. Entrou nos museus, visitou locais tradicionais, outros desconhecidos, procurou captar todos os detalhes daquela metrópole pungente.
E à noite, iam jantar em restaurantes, colocando a conversa em dia. Quando não havia o que falar, voltavam a pé por quarteirões, embebidos pelo luar, ouvindo músicas do Sting, imersos cada um em seus fones de ouvido. O diálogo, nessas ocasiões, era feito pelo ritmo dos passos, pelos vultos andarilhos dos dois, que se revezavam, distorcidos e efêmeros, nas paredes iluminadas, dando a confortável percepção da presença do outro.
Foi uma temporada intensa, passou rápido. Serviu para que ele se revigorasse ao fortalecer ainda mais aquele vínculo. Na volta, rumo ao aeroporto, após se despedir, olhou para trás e viu, da ponte, a cordilheira de prédios candentes. Sentiu uma enorme gratidão por aquela massa urbana imprevisível, construída à imagem e semelhança dos seus habitantes, os cidadãos do mundo. Pensou que deixara lá um pouco de si, naqueles momentos de pura amizade. Pensou no parceiro que ficara, mantendo a cidade com o calor de sua individualidade. O cenário, naqueles dias, pareceu ter se contagiado com aquela empatia mútua, que já não acalentava a necessidade fremente da presença física. Experiências deste tipo, boas ou más, devem ocorrer com todos os turistas e moradores de lá, porque são as relações humanas que constroem uma cidade. Se não fosse assim, e sem o seu melhor amigo, Nova Iorque não seria tão linda.
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