sexta-feira, 29 de abril de 2011
Olhar
Na porta da Abadia de Westminster, o príncipe William e sua esposa Kate, agora duquesa, se entreolham logo após se casarem. Um sorriso límpido está estampado em suas faces. Uma luz de prazer e satisfação emana de seus olhares. Mesmo com aqueles trajes tradicionais e o longo véu de noiva, estão desnudos pelo amor. Parecem isolados em uma redoma, unidos por um vínculo inquebrantável, surdo a toda a multidão que os ovaciona, a todos os rituais tradicionais da monarquia e a toda a pressão em torno do casal real. Um casamento é verdadeiramente real, quando prevalecem o afeto e o companheirismo sobre o mundo exterior e sobre certos padrões sociais. Do olhar inebriado dos noivos, emerge a essência humana, verdadeiramente nobre, despojada da formalidade do título, ligada à generosidade da alma. Esse mesmo olhar, terno, radiante de alegria, se repete nos rostos de qualquer um que se casa com o ser amado. Seja nas favelas do Rio, na periferia de Trípoli, no mais distante vilarejo da Amazônia. Um sorriso com os olhos cheios de esperança ultrapassa as muralhas da violência, das misérias urbanas, do universo fechado da realeza, dos mistérios e dos enigmas de cada um. Com sua força vital, permite que a humanidade siga em frente e continue sua caminhada pelo reinado da vida.
Valentões
Os valentões estão por todo o lugar. Nos pais que intimidam filhos, nos jornalistas que criticam sem compreensão, nos colegas que gozam dos ditos mais fracos. O bullying não é só escolar. É uma agressão social presente, muitas vezes sutilmente, no cotidiano. A escola é só um símbolo, importante, de uma das origens destas ações neuróticas e psicóticas. Tentamos intimidar os outros para não nos intimidarmos com os nossos fantasmas. Fantasmas que fazem “Bu...”. Buuuuuuuuuuu.....lllying.
sábado, 19 de março de 2011
Pedidos
De presente de aniversário, quero a dádiva de me descobrir cada vez mais, assumindo plenamente o papel de pai. E a força interior que esta conquista propicia. Quero também o amadurecimento suficiente para não ver uma fechada de carro, uma acusação grosseira ou a falta de generosidade como o fim do mundo. Quero achar graça de muita coisa que ainda temo: críticas descabidas, desabafos invasivos, ameaças veladas. Quero trocar a figura do para-raio pela imagem de um relâmpago que rompe a noite, cheio de si. E quero cair nos braços acolhedores desta noite, para dormir um sono tranquilo em suas nuvens acolchoadas. E acordar no outro dia sentindo a luminosidade do céu como um afago. Ao levantar, quero me olhar no espelho e ser reconhecido. Neste dia seguinte, então, me encontrarei pleno, com prazer de sorrir, com a esperança no porvir. E com um ano a mais de vida, o maior de todos os presentes que quero receber.
Alma
Evito falar de guerra, não gosto de falar de fome, finjo esquecer-me da miséria. Digiro estas ideias transformando-as em palavras bonitas, suaves, que exaltam o lado mais nobre da alma humana. Mas neste oceano fabricado por mim, rondam ainda os tubarões que amputam pernas de crianças, deixam meninos sem comer e atentam contra a dignidade das cidades. Hoje dei um prato de comida a uma menina de três anos. Não perguntei seu nome. Ela tinha os cabelos negros, um vestidinho rosa, dentinhos brancos e fazia da cena de sofrimento um motivo para se superar com brincadeiras e sorrisos de um jeito que só as crianças sabem fazer. Ela também parecia, como eu, não querer falar de mazelas, apenas brincar, brincar e comer, ao lado da mãe, na mesa do fundo do restaurante por quilo. Se divertia a cada novo componente: batatinha, ovinho, franguinho... Quando saí, ela me acenou dando tchau, com o mesmo sorriso e um olhar profundo de gratidão. Gratidão. Taí uma das palavras bonitas, suaves, que exaltam o lado mais nobre da alma humana.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Refrão
No berço meu filho adora ouvir What´s new pussycat?. Canta, achando graça, o refrão da música, dando uma cor especial à penumbra da noite. Uma cor de alegria, como se estivesse desenhando os contornos de seu mundo imaginário. Um mundo criativo, também real, pois nele ele se vê um adulto. E um dia o será. E eu me vejo nele, porque hoje já sou, mas também alimento minhas esperanças. Não tão criativas, mas ainda fontes de vida. Por isso é bom ouvir esta música, antiga, de 1965, que remonta a uma época de esplendor semelhante ao que se espalha pelo quarto. What´s new pussycat? foi um filme, cuja música, de mesmo nome, deu alma ao enredo. Seu autor é Burt Bacharach, que a fez junto com Hal David. Foi feita no passado como um presente para o futuro. A letra fala sobre novidades e exalta uma linda moça. “Qual a novidade, gatinha?”. Por enquanto fico satisfeito ao ouvir outra indagação, sentado na cadeira, enquanto o meu bebê, como ele não gosta de ser chamado, reluta em dormir. Ele me pergunta, sem palavras, apenas com os olhinhos tremeluzindo um brilho que faísca do berço: “Quais as novidades, papai?”
terça-feira, 15 de março de 2011
Simples
Para os professores de literatura e jornalismo que condenam os adjetivos, meu desabafo. Não posso falar que os olhos azuis daquela menina são lindos, retratam o céu em órbitas ondulantes, reluzentes, inebriantes. Nem dizer que o mundo caminha de uma maneira complicada, imprevisível, dissonante. Isso é muito triste, porque o segredo de uma paisagem simples são seus traços rebuscados de coloração precisa, de curvas milimétricas, de pessoas distantes, de ondas espumantes, de uma magia que toca o coração. A paisagem, assim como os conflitos e os fatos, não são prolixos. Nem o objetivo vive sem o subjetivo, por mais que muitos se iludam. A paisagem, os conflitos, os fatos, na verdade, superam as barreiras da concretude. Denotam estados de espírito, característica, qualidade. A paisagem, os conflitos, os fatos, na verdade, são adjetivos.
Bloqueios
Fico tentando encontrar palavras no silêncio, nas paisagens, nos textos que leio. E elas me fogem, ensaboadas e efêmeras, como um sopro que se enche de vida, e depois desvanece, gasta o ar, como se estivesse trancando a imaginação em um quarto escuro, jogando a chave fora. E no derradeiro movimento do pulmão contraído, em meio à frustração deste labirinto sem fim, sinto apenas uma leve golfada de ar superar meus lábios cerrados e tímidos, que também não encontram palavras, e se transformar em um suspiro de lamentação.
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