sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Luan

Um burocrata de uma Prefeitura criticou Luan Santana. No refeitório da repartição, destilava a velha filosofia destrutiva daqueles que se acham um nada e culpam o mundo por isso. “É a cultura de massa”, argumentam. Não separam o joio do trigo. Tudo que faz sucesso, para eles, é banal. Não percebem a própria inveja, enquanto vestem trajes simplórios e despojados de qualquer autoestima. A simplicidade é uma característica fundamental. A questão é que ela deve levar a algum lugar, não deixar a pessoa remoer, entre uma e outra colherada de sopa, o ódio ao vizinho de mesa durante a vida inteira. Luan Santana, Justin Bieber, Bruno Mars têm méritos sim. Fazer sucesso requer força interior e talento que motivam a inveja. Muitos jornalistas e atores da Globo também merecem igual reconhecimento. A cultura de massa, quando mal utilizada, é mesmo um fator alienante. Não é o caso desses artistas. Eles despertam algo no público. Cativam, muito mais do que com técnica ou afinação, por revelarem algo de si com poesia e impacto. A voz de Luan pode não ter o preparo adequado, mas talento é muito mais do que isso. Em uma de suas músicas, o jovem cantor diz, com seu timbre único e especial. “No seu olhar enxergo sua alma”. Por isso essas pessoas encantam multidões. Porque revelam a sua alma com o que fazem. Quem as contempla, capta, assimila e, em um fenômeno inexplicável, projeta sonhos, se infla de esperanças, se eleva espiritualmente. De certa maneira, o grande artista também revela a alma de seu público. E presta um serviço, não somente artístico, mas social e religioso. Fazer cada um dos fãs se sentir uma pessoa melhor.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Malandragem

Quando ouço alguém, em geral homem, bradar que a fidelidade a um clube é maior do que a fidelidade a uma mulher, desconfio do machista. Fico com a impressão de que ele tenta revelar a lealdade do torcedor e não percebe que está expondo com isso um desvio de caráter bem comum nos tempos de hoje: o de se gabar de ser malandro. Ele tenta fugir da sua realidade frágil, mas na verdade se aproxima dela sem perceber. O futebol é mesmo um espelho da sociedade. Às vezes invertido.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Medieval

Serei aqui advogado do diabo, só para utilizar um termo bem medieval. Unir o racionalismo científico à fé não é fácil. Requer uma abertura de espírito, para os espiritualistas, e de mente, para os racionalistas, que por si só já é um avanço para a humanidade. É uma forma de conciliar lados opostos. Lembrei-me do embate visceral do medievalista Léo Nafta com o progressista Ludovico Settembrini em A Montanha Mágica. Nafta, em sua violência verborrágica, não soube expressar de forma clara o lado iluminado da Idade Média. Apenas tripudiou o lado iluminista de Settembrini, até a sua própria autodestruição. Nafta suicidou-se no duelo final. Não quer dizer que ele estivesse totalmente errado. É comum nos tempos atuais se jogar o bebê junto com a água, como se diz o jargão popular. Por isso a Idade Média é tratada apenas como Idade das Trevas. Justo o período em que surgiu a escolástica para unir a ciência à religião. Representada por Santo Agostinho, no início, e São Tomás de Aquino, no fim, só por isso esta era já pode ser considerada iluminada. Depois vieram o antropocentrismo, o Renascimento e o Modernismo com suas cores frenéticas e certa arrogância questionadora. Que pregava uma ruptura de dogmas, mas negava a tentativa semelhante que a própria escolástica buscou realizar. Criou assim seus próprios dogmas, com ares de novidade. Esses modernos são muito presunçosos mesmo...Mas, calma, não vou me suicidar. Prefiro tentar a conciliação, da minha fé com a minha razão.

domingo, 21 de agosto de 2011

Párias

Deu um abraço afetuoso no menino e sentiu-se repelido. Ninguém olha para o padrasto. Ela nem sabia que ele era casado e agora não quer se separar da esposa. Ninguém olha para a amante. Desde jovem dedicou sua vida à religião, fez voto de castidade pelo bem e o chamam de retrógrado. Ninguém olha para o padre. O mendigo tem aparência tão repugnante que já é considerado um espantalho na cidade. Ninguém olha para o pobre. O pobre tem um pouco de padrasto, de amante e de padre. Mas todos nós também. Acontece que muitos de nós fingimos que nosso lado padrasto, amante e padre são figuras bem-sucedidas. Pobres coitados de nós.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Fantasmas

Fantasmas podem ser entidades sobrenaturais não-visíveis, esquecidas pelo mundo dos vivos. Somente de vez em quando são lembradas, gerando mais terror do que compaixão. Há pessoas que são como fantasmas para os outros. É como se não existissem, apenas flanam sua desmaterialização pelo mundo. Para esses outros, quando não aterrorizam, fantasmas são apenas fantasmas. “Deixem eles lá”, dizem. Há pessoas que dizem isso sobre outras pessoas. “Deixem elas lá”. Para tais pessoas, esses “fantasmas” não ouvem, não choram, não sentem. Elas só acreditam no que elas vêem. O outro é uma sombra, uma alucinação. Por isso elas não acreditam nos sentimentos. Os sentimentos são invisíveis. Por isso elas pensam que os sentimentos são fantasmas.

Sonhos

Sentaram na mesinha ao lado da janela. Nunca tinham tomado café juntos. Ele, atribulado pelo trabalho cheio de competitividade, que deixava sua rotina sem cor. Ela, ocupada produtora de moda, estilo moderno e independente. Tinha cabelos lisos, loiros, pele alva, olhos escuros e brilhantes, como uma noite luminosa. Por esbanjar simpatia, a moça logo despertou o interesse dele, um eterno romântico. Ele pode falar de coisas sobre sua vida, de suas ideias, sentindo-se leve e fascinado. Sentia-se flanar ao lado dela por entre as mesas, enquanto degustava o café sem perceber. Ficou tão livre e empolgado que não viu o tempo passar na lanchonete. Ela, de repente, olhou para o relógio. “Tenho de ir”, disse. Ele, como se tivesse despencado na terra, vindo de um lindo sonho, disfarçou. “Claro, também estou atrasado”. Lembrou-se naquele momento da frase de Pirandello, em que as mulheres, como os sonhos, nunca são como as imaginamos. E voltou para sua dura realidade cinzenta, inconformado. Sem deixar de questioná-la, em pensamento. “Por que em encontros assim tem de haver sempre a despedida?”

Babe

Hoje faz 32 anos que perdi minha vó materna. Ela morou na minha casa por anos, era doce, paciente e carinhosa. Eu ficava no seu quarto enquanto esperava minha mãe chegar da faculdade à noite. Sua companhia era adorável, ela transmitia tranquilidade, após ter vivido experiências difíceis de solidão, quando deixou a Polônia ainda jovem em um navio. Encontrou lá na minha casa um porto seguro, alegrando-se com a luz que brilhava nos olhos de seus netos, crianças com a vida pela frente. Em retribuição, dedicava seu amor sincero, que se perpetuou em mim. Hoje faz trinta e dois anos que não a vejo. Foi no dia que acabou a novela Pai Heroi. Com 32 anos, um homem já pode ser um pai heroi, o meu objetivo hoje, também em homenagem a ela.