sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Pimenta
Maliciosos contumazes costumam dar gargalhadas entre si. Vêem graça apimentada em palavras como encurralado, em frases como estar por trás, ou em qualquer coisa. São tão "criativos" que podem encurralar alguém na mais inesperada situação. No fim das armadilhas, afagam suas frustrações quando um dos seus se rende às suas virtudes verborrágicas e emenda, sem largar o copo de uísque: “seu malandrinho!” Se eu fosse irônico, poderia dizer "Ha, ha, ha..." Mas eu não sou.
Sinagoga
O menininho de dois anos e meio, cabelos curtos e lisos, olhos de jabuticaba, deu uma cambalhota no fundo da sinagoga. Era gostoso rolar naquele tapete macio. A senhora sentada na cadeira próxima olhou séria. O pai, na fileira ao lado, ficou apreensivo. Lá do púlpito, enquanto orava em frente à Torá, o rabino barbudo virou-se para a criança, que se preparava para novo rodopio. Ele sorriu com ternura. E disse amém.
Fogo
O jornalista que não bota a mão no fogo por ninguém passa a mensagem de que ele é uma ilha de moralidade em um oceano de perversão. O mais realista seria ele, antes de fazer tal afirmação, começar a não botar a mão no fogo por ele mesmo. Ou acreditar que ainda há gente honesta neste mundo.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Figurinha
Existe uma criança que sempre sobe na borda do sofá para me receber, quando chego do trabalho. Em pé diante da janela da sala, me acena pelo vidro, enquanto não entro na casa. Seu sorriso lindo e o olhar cheio de brilho me remetem a um personagem de fábula infantil. Adora figurinha, principalmente quando tira alguma brilhante do Campeonato Brasileiro. Algo brilha em seu interior, sinalizando a efervescência da vida pedindo passagem. Mais do que com perfeição, chuta a bola com alegria. Já começa a choramingar quando os pais vão para o trabalho. É apaixonado por balas, pedindo aos pulinhos: “uma na outra mão, outra na outra mão...” Até já sabe quem é o Montillo, falando este nome com biquinho no L. E, no fim do dia, adora escutar Paula Fernandes, exigindo que eu coloque suas músicas no CD. Depois de me fazer uma série de questionamentos, resistindo ao sono, finalmente consegue dormir. Eu arrumo seu cobertor, faço carinho em sua face lisa e encosto a porta rezando apenas para que, no outro dia, toda esta rotina comece outra vez, em forma de descoberta. Para ele e para mim.
Busca
Escrevi na busca do Google o nome de um conhecido que já morreu. Não era celebridade. Por isso seu nome não apareceu. Vi sim o nome de seus filhos e parentes. Abateu-me um sentimento vil. Buscar no Google alguém que não mais está entre nós. Foi como se eu estivesse profanando um túmulo. Percebi o quão mesquinha foi minha tentativa e como a nossa curiosidade, alimentada pelas polêmicas da imprensa, às vezes é insana. Como nos preocupamos em preencher nosso mundinho com informações inúteis. O homem que procurei foi alguém que viveu bem. Desfrutou de uma vida mundana e exalava um ar blasé daqueles que querem o melhor. Mas ele já se foi e isso lhe dá uma dimensão cósmica. Sua existência já transpassou a nossa internet, o nosso Google, as nossas aspirações provincianas. Percebi-o em outra dimensão, distante 18 anos desta esfera material. Vi sua passagem com admiração e afeto. Senti que sua vida foi importante por me deixar vê-lo desta maneira após sua morte, compreender que seu esforço em busca da felicidade não foi em vão. Hoje ele descansa. Descansa de nossa mediocridade. Dá um sorriso paciente quando observa nossa pressa infantil. Coloca a mão em nossa consciência quando teclamos bobagens. No momento em que a tela ficou em branco, ao tentar novamente encontrá-lo, desisti de minha procura macabra. Desliguei o computador, no entanto, ciente de que havia recebido todas as informações de que precisava.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Distância
Quando o menino deixou o Rio de Janeiro rumo a São Paulo, seus olhos eram castanhos claros. Ele era gordinho, tinha pintinhas na cara e cabelos também em tom castanho. Estava sempre sorrindo. Sua ironia era fina. Parecia feliz, mesmo tendo se mudado por causa da separação dos pais. Foi com a mãe e as irmãs para a selva de pedra, acinzentada. Bem recebido pelos colegas, até que se adaptou logo. Passou a ir pouco ao Rio. Seu pai, homossexual (o que acelerou a separação), continuou tendo boa vida por lá, morando em uma praia nobre. Vivia nos melhores restaurantes do Leblon, andava em bons carros e em alta velocidade. Parecia um personagem glamouroso de novela das oito. Mas estava longe do filhão. Queria mostrar a ele que tinha qualidades, que era um homem forte. Não apenas uma bicha, estereótipo muito utilizado naquele tempo. O filho, por sua vez, se orgulhava do pai do jeito que ele era. Às vezes lutava contra si para se convencer disso. Durante as brincadeiras no recreio, não demonstrava sua tristeza. Até que disfarçava bem. O fato é que, depois de um tempo, os olhos do garoto ficaram azuis. Da cor do mar e do céu límpido do Rio. Era uma forma de ele carregar, por onde quer que fosse, um pouco da cidade onde nasceu. E, junto com ela, o seu pai.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Verdade
O ginásio estava abarrotado. No palco, Geraldo Vandré discutia com a multidão em alarido, que o defendia. O público queria ver Pra não dizer que não falei das flores em primeiro lugar no Festival. Estava indignado com a vitória de Sabiá, de Tom e Chico. Vandré, iluminado, enfrentou a plateia efervecente. “Gente, Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem todo o nosso respeito.” Novo alarido. Vandré esperava, com paciência, a manifestação arrefecer. E não se intimidava. Dizia o que tinha a dizer, estava impregnado de verdades. “Estamos aqui para cantar. Quem deve julgar é o júri”. Novo frenesi de contestação. Vaias, assobios, gritos de revolta. “Gente”. Quando interrompido pelo barulho, Vandré novamente aguardava o momento certo. Então encerrou a balbúrdia com uma frase. “Gente, a vida não se resume a festivais”. E começou a cantar, do fundo da alma, em tom de dever cumprido. “Caminhando e cantando e seguindo a canção...” A juventude era consciente. O alarido, por isso, aumentou.
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