quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Revoltas
Fiquei contrariado com o que fizeram com Kadafi. Os rebeldes cometeram o mesmo erro pelo qual o ditador líbio era acusado. Vê-lo acossado, desarmado, assustado e depois morto não me fez bem, porque das imagens exalava uma atmosfera de vingança, de descontrole dos mais selvagens instintos. Por outro lado, a Primavera Árabe é uma demonstração de dignidade. Sair às ruas clamando por liberdade, ciente do risco de morrer atingido por balas tirânicas e covardes, é, acima de tudo, um ato de amor ao país e de firmeza de caráter, que une o Ocidente e o Oriente. O Ocupe Wall Street também traz esta mensagem. Igualmente direcionada a uma forma de poder insano. Neste caso, mudam apenas os carrascos. Em vez das balas, as cifras.
Cronista
Para ser um bom cronista, saber escrever não está em primeiro plano, vem depois. O mais importante é saber conversar.
Farol
Escrevo para quem me compreende, ilumino quem está em sintonia fina comigo e gosta de mim antes mesmo de me conhecer. Aqueles que não gostam de mim irão odiar meus textos, repudiarão a luz que tento projetar. Mas, de tão frágil, estou acostumado a levar pancadas. E, de tão carente, não me contento apenas com um afago. Nesta busca incessante pela plenitude, quando a pancada supera o afago, eu apago. E quando ocorre o contrário - o afago é mais forte do que a pancada - eu existo. Pelo menos por um tempo.
Partículas
Cientistas procuram o bóson de Higgs, que explicaria a formação da matéria. Sua massa ínfima poderia conter a origem do universo. Mas eu a intui antes da crença cético-religiosa de muitos pesquisadores. Foi quando meu pai morreu e, ao sair de casa na semana seguinte, a chuva se misturou às minhas lágrimas. Vi que o universo chorava comigo. Abarquei o mundo inteiro no clamor do meu sentimento, projetando-me nas florestas, nos mares, no olhar frio das pessoas, formando uma massa única, indivisível, que inseria minha alma nas movimentações do cosmos. E veio a primeira gota gelada. Ela caiu firme no meu pescoço. Ela era a partícula de Deus. Então caiu o dilúvio. Depois meus olhos se transformaram no céu. E, por entre nuvens úmidas, vi resplandecer, alaranjada e serena, a luz da minha bonança.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Triunfo
Puskas se revoltou contra o governo húngaro. Maradona sai por aí desancando autoridades, muitas vezes corretamente. Nenhum deles, no entanto, expressou suas opiniões contestadoras com tanta intuição como Sócrates. Ele contestava com a placidez e argúcia dos grandes filósofos. Era pacífico como Espinoza, humanista como Voltaire, racional como Descartes. Cético como Sartre, mas apaixonado como Bergson. Tal qual Rousseau, era um iluminista da bola. Quase um menino em seu olhar sincero, que alternava piadas geniais com um ar de tristeza. Sua visceralidade era lúdica. Exalava paz mesmo empunhando seriamente a bandeira das transformações. Não era inimigo de ninguém. É difícil alguém puro como ele despertar rancores.
Sócrates tinha mesmo algo similar a Garrincha, como comparou Juca Kfouri. Uma espécie de alma de passarinho. Sua inteligência e o fato de ser médico ajudaram a estruturar suas convicções e seu comportamento. Ele via no futebol a chance da solidariedade humana triunfar com beleza. Pensei em mil maneiras de lhe fazer uma homenagem. Pensei em palavras difíceis, tentando retratar a importância que ele teve em minha vida, principalmente na minha adolescência. Mas não seria suficiente falar do fascínio que despertava aquela figura esguia desfilando pelos gramados. Isso aconteceu com muita gente, seria retórica apenas. Cada sequência de movimentos espontâneos, originais, tocava na espontaneidade de quem os contemplava. Porém, o significado das jogadas imprevisíveis, cuja genialidade será cada vez mais evidenciada pelo tempo, ultrapassava a admiração estética, encantando por carregar um mistério, que hoje entendo melhor, ainda que não totalmente. O jogador Sócrates fascinava por não parecer apenas um jogador. Era também uma figura circense, o homem da perna de pau, o domador de seus próprios leões, o palhaço e o malabarista. Ou um astro de cinema. Até um maestro em traje de gala e, paradoxalmente, um humilde morador de rua, ao estilo de Chaplin. Suas passadas e seus toques de calcanhar eram mágicos. Materializavam seus pensamentos, sua arte, sua identidade, sua ética. Espelhavam o seu prazer de ver o jogo como uma simples pelada e não uma guerra. Buscavam soluções. Refletiam sua alma. Retratavam suas fraquezas. Em campo, ele se desnudava por de trás do uniforme. Sócrates era tímido porque não sabia se esconder. Nada mais contestador do que tamanha diferença, tão elegante. Outros grandes craques tinham uma maneira mais comum de tocar na bola: Pelé e Zico, por exemplo. Sócrates não. Jogava futebol como quem dança balé e bailava com a vida como se ela fosse um jogo diário, que poderia acabar a qualquer momento. Por isso, a homenagem que eu posso fazer a Sócrates é ousar afirmar que ele foi o maior jogador de futebol de todos os tempos. Foi o maior do futebol por ter sido muito maior do que o futebol. E único, como todos nós somos e às vezes não percebemos.
Sócrates tinha mesmo algo similar a Garrincha, como comparou Juca Kfouri. Uma espécie de alma de passarinho. Sua inteligência e o fato de ser médico ajudaram a estruturar suas convicções e seu comportamento. Ele via no futebol a chance da solidariedade humana triunfar com beleza. Pensei em mil maneiras de lhe fazer uma homenagem. Pensei em palavras difíceis, tentando retratar a importância que ele teve em minha vida, principalmente na minha adolescência. Mas não seria suficiente falar do fascínio que despertava aquela figura esguia desfilando pelos gramados. Isso aconteceu com muita gente, seria retórica apenas. Cada sequência de movimentos espontâneos, originais, tocava na espontaneidade de quem os contemplava. Porém, o significado das jogadas imprevisíveis, cuja genialidade será cada vez mais evidenciada pelo tempo, ultrapassava a admiração estética, encantando por carregar um mistério, que hoje entendo melhor, ainda que não totalmente. O jogador Sócrates fascinava por não parecer apenas um jogador. Era também uma figura circense, o homem da perna de pau, o domador de seus próprios leões, o palhaço e o malabarista. Ou um astro de cinema. Até um maestro em traje de gala e, paradoxalmente, um humilde morador de rua, ao estilo de Chaplin. Suas passadas e seus toques de calcanhar eram mágicos. Materializavam seus pensamentos, sua arte, sua identidade, sua ética. Espelhavam o seu prazer de ver o jogo como uma simples pelada e não uma guerra. Buscavam soluções. Refletiam sua alma. Retratavam suas fraquezas. Em campo, ele se desnudava por de trás do uniforme. Sócrates era tímido porque não sabia se esconder. Nada mais contestador do que tamanha diferença, tão elegante. Outros grandes craques tinham uma maneira mais comum de tocar na bola: Pelé e Zico, por exemplo. Sócrates não. Jogava futebol como quem dança balé e bailava com a vida como se ela fosse um jogo diário, que poderia acabar a qualquer momento. Por isso, a homenagem que eu posso fazer a Sócrates é ousar afirmar que ele foi o maior jogador de futebol de todos os tempos. Foi o maior do futebol por ter sido muito maior do que o futebol. E único, como todos nós somos e às vezes não percebemos.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Vento
O filósofo francês Henri Bergson defendia a intuição humana como fonte maior da sabedoria. Na sua visão, o tempo qualitativo, ligado ao espaço, é apenas uma referência numérica, já que o tempo quantitativo, mais verdadeiro, emerge de nossas vivências, das profundezas de nosso interior. Decifradas, estas turbulências internas abrem caminhos para a realização humana, como um farol a iluminar e delimitar nossos sonhos. Para Bergson, o nosso tempo não está ligado ao espaço. Está ligado à sua efêmera e intermitente passagem por nossa vida. Afaga-nos em momentos de alegria, rompe insolente e assustador nos momentos de tensão. Custa a passar na angústia. Passa tão lépido nas realizações que, lá de longe, nos acena já em forma de saudade antes mesmo de nos darmos conta. O tempo de Bergson tem o ritmo de nossas andanças. Corre como um menino delicado, suscetível aos nossos estados de espírito. Bergson nos diz que não é o espaço que movimenta o tempo. O tempo de Bergson pode se arrastar com um sopro de vida, se espalhar com um furacão de anseios. Suas mil facetas se desligam da ordem cronológica e se encontram como folhas ao vento na nossa busca do autoconhecimento.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Fórmulas
O medo da ideia de separação é maior do que o medo da separação. O medo da ideia da morte é maior do que o medo da morte. O medo da ideia do nascimento é maior do que o medo do nascimento. E a ideia da violência alimenta a própria violência. Na vida, nem sempre um mais um é igual a dois. Um mais um pode ser menos dois, pode ser solidão.
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