quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Embarque
Da sala de embarque do aeroporto, ele pode ver, pelo vidro, o emaranhado de prédios na sua cidade. Ele parecia estar de fora daquela correria do dia-a-dia. Sentia-se alheio aos movimentos urbanos, como se o aeroporto fosse um muro transparente de isolamento e contemplação. Avistou algo especial nesta cordilheira de concreto, iluminada pelo sol quente da manhã. Era a antena triangular, de um edifício vizinho ao do seu analista. Podia, agora, vê-la de outro ângulo, bem diferente do qual estava acostumado quando a via da garagem externa. A antena serviu como uma referência. Da cidade e de seus vários enfoques. Percebeu a análise como uma travessia feita de viagens interiores. Independentemente de onde estamos. Vivemos em uma sucessão de aeroportos imaginários. Em cada um, uma nova paisagem, um novo detalhe a serem observados por nós através do vidro de uma sala de embarque. Sempre de passagem na mão. E rumo a um destino incerto.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Gato
Parou à beira da praia, observando a paisagem. Viu à sua direita o morro Dois Irmãos. À esquerda o Arpoador. A beleza local era estonteante, gente correndo ao seu lado, sol forte, céu azul, brisa refrescante. Ilhas brotando de um horizonte sedutor. De repente, uma onda estourou em seus pés. Água geladíssima, de doer os ossos. Nunca gostou de mergulhar neste tipo de mar. Uma resposta se esboçou no ato quando veio à sua mente o famoso ditado. “Gato escaldado tem medo de água fria”. E qual água fria em sua vida ele tanto temia? Qual dor aguda tocou seus ossos tal qual aquela sensação polar? Um acúmulo delas, experiências cortantes aqui e ali. Mas ele não sabia ao certo. Nem queria saber naquele instante. Mal a resposta se esboçou, ela logo se diluiu na maresia. A ele só restou uma certeza, que continuaria a carregar. Naquela água ele não mergulharia, de jeito nenhum.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Festas
A babá tinha dois empregos. Na terça e na quinta ia na casa do Edu, um garoto magro, pele bronzeada e olhos azuis. Cara de menino dengoso, quieto e esperto. Na sexta cuidava de uma criança de três anos, dotada de uma beleza cativante. O menininho sabia até falar "paladoxo"... Ela praticamente o vira nascer. Um dia o pequeno, com a babá, encontrou o Edu no clube. O Edu se comportou com ética, não interferiu no trabalho dela. Foi brincar por outras bandas. Mas ficou uma relação entre o pequeno e o Edu. Depois brincaram juntos na biblioteca, sozinhos, tentando adivinhar as figuras dos livros. A moça, que se tornou um elo entre eles, já tinha ido embora. Fora viajar no período de festas. Dias depois, na lerdeza do início do ano, o pai do garoto pequeno teve de ir ao clube, quase sem ninguém. Viu, porém, o Edu chegar à lanchonete, com aquele mesmo jeito introspectivo e atento do dia em que brincou na biblioteca. O Edu estava lá, mas não estavam o seu filho e nem a moça. Nem os gritos cheios de alegria, do seu filho, e a voz orientadora, com sotaque nordestino, da moça, que costumavam ecoar pelas quadras e alamedas de lá. O ecoar, agora, era um ecoar latejante de ausência. Algo misturado a uma imagem invisível, mas presente. E num pequeno milagre, o semblante dos dois se refletiu nos olhos do Edu. Olhos tão azuis, como um céu que, em sua infinitude, naquele momento era preenchido de saudade e de silêncio.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Engano
O corrupto é acima de tudo um fraco. Comemora decisões da justiça favoráveis a ele. Justifica o cinismo de muitos magistrados, que argumentam julgar com a razão, mas que fazem parte de um complô hipócrita. Não há dúvida de que a corrupção de valores, éticos e financeiros, é o núcleo dos males que assolam o país. Neste pântano de lodo enganoso, o corrupto comete o auto-engano de se achar esperto. De considerar que apenas faz o que os outros fazem. Ele está, na verdade, escondendo a sua depressão. Negando sua condição de mortal. É alguém que, por mais que viva com conforto material, já desistiu de viver realmente. Rendeu-se diante das adversidades da realidade. Resolveu vendê-las, mas na verdade é quem está pagando o preço mais alto por isso. Ele é um fraco porque acredita que não é capaz de ser reconhecido e de enriquecer com o esforço de seu trabalho, com seu talento, com seus próprios méritos.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Gritos
O velhinho abandonado na clínica de idosos não parava de gritar do seu quarto, deitado de pijama no leito: “enfermeira, enfermeira, enfermeira....” Fiquei com pena dele, porque, vendo seu olhar cansado, suspeitei que um dia ele desistira de gritar: “filho, filho, filho...”
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Treino
Puskas era amigo de Bozsik. Budai era amigo de Hidegkuti, que era amigo de Kocsis que era amigo de Czibor, que era amigo de Grosics, que ajudou Puskas a ser amigo de Kocsis. Foi desta maneira que a seleção da Hungria não se tornou apenas um time de futebol. Era uma ciranda de amizade. Cada preparativo era mais do que um treino. Era uma reunião de turma.
Enganos
Jean–Jacques Rousseau uma vez escreveu que não haveria nada mais irracional do que um mundo feito de sábios. Se existe o gênio é preciso que haja um povo para ser instruído. Disse ele, no século XVIII, que o mal da humanidade não é a ignorância, mas o engano. Os maiores equívocos são fruto de pensamentos e atitudes daqueles que acham saber o que não sabem. Antes, Sócrates afirmara: “Só sei que nada sei”. Juntando as duas filosofias, podemos encontrar uma luz. Seria mesmo irracional um mundo apenas de sábios. Mas seria importante que todos os ignorantes e os que se enganam tivessem a vontade de aprender. Como o conhecimento é infinito, eles aprenderiam cada vez mais a saber que nada sabem. Mas também poderiam ensinar ao outro o que aprenderam. Com o tempo, a sociedade ficaria mais equilibrada, com o ser humano atuando em múltiplas funções, como se diz no futebol. Nesse carrossel de informações, ficaria mais claro que a ignorância é o limiar entre a sabedoria e o engano. Então o homem aprenderia ensinando. Ensinaria aprendendo. Enganar-se-ia menos. Ensinaria a verdadeira sabedoria aprendendo a ser ignorante.
Assinar:
Postagens (Atom)