sexta-feira, 9 de março de 2012

Aurélia

Lúcio Sulla aglutinou um exército de escravos e entrou em Roma tomando o poder. Saiu para a guerra contra o rei Mitrídates, isto por volta de 90 a.c, quando Mário e Cina entraram em Roma, massacraram os partidários de Sulla e tomaram o poder. Cina se tornou cônsul, para a fúria de Sulla. Quando Cina foi para a Grécia guerrear com Sulla, foi massacrado por seu próprio exército. Sulla retornou e massacrou seus opositores, aos milhares, aos milhões, aos berros. César quase foi um deles, não fosse a personalidade forte de sua mãe Aurélia, que enfrentou todos os perigos para conseguir o perdão do filho diante de Sulla. Roma Antiga foi marcada pela ganância, traição, assassinato, corrupção, egoísmo, perversão... Na aparência algo mudou, mas esta história ainda não acabou. E o amor de mãe também não.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Composição

Eu tinha um primo expansivo, cheio de ideias, inteligente, robusto, com olhos e lábios volumosos. Dirigia em alta velocidade, gostava de pular de paraquedas e de cantar as mulheres. Transbordava generosidade em sua alma aflita, de menino. Um dia ele me levou a uma matineé, na danceteria Tamatete. Fomos da Zona Norte ao Itaim-Bibi, com ele me contando sobre sua vida, sobre suas perspectivas. Eu, tímido e mais novo do que ele, só ouvia, pouco falava de mim. Falei pouco de mim para ele. Sempre em busca de me agradar, tentava em vão conversar sobre futebol comigo. Eu não sabia como responder, ficava sem graça por seu conhecimento na área ser menor que o meu. Ele morreu há alguns anos, aos 29 anos, asfixiado em seu quartinho, em uma casa em Poços de Caldas. Ocorreu um vazamento de gás enquanto dormia. Era tão sonhador e se foi sonhando. Certa vez, compôs uma música e, entusiasmado, mostrava para nós, contando que iria participar de um festival. Cantou tocando violão na sala de seu apartamento no Bom Retiro, entre móveis antigos, desejando a fama ou pelo menos o reconhecimento. Não se inscreveu no festival. Mas, agora, o inscrevo simbolicamente. Calo-me, como sempre fiz, para escrever os versos daquela música, na tentativa retroativa de realizar seu sonho. “Camões tem seus Lusíadas, Roberto, sua fé. E eu que só queria ter você como mulher...”

segunda-feira, 5 de março de 2012

Coragem

A obra de Amós Oz tem algo passivo e duro. Ele pede que o leitor a complemente. A angústia vem de roldão e o amor surge a conta gotas. Há um terror e uma amargura subliminares conduzindo cada enredo. Não há refresco. Como Stephen King, Amós não cede. Mas de uma maneira menos escancarada. Sua postura de adulto realista, porém, encobre os pedidos de uma criança carente. Ele quer que o leitor siga em frente, em seu lugar. E lhe diga. “Não, Oz (que significa coragem). A vida não é só sofrimento. Não é feita apenas de desencontros”. Ele bate o pé, se faz de desentendido, escreve outro trecho radicalmente triste, justamente porque não quer ser abandonado. Mas no fundo ele gosta quando o leitor continua desempenhando esta função paternal. “Oz, a ternura existe, acredite”. Ele ouve, sorri por dentro e continua se fazendo de difícil, talvez até transbordando de emoção. Mas, como bom israelense, ele não chora.

Mamãe

Quando eu era criança, minha mãe tinha razão em tudo. Venerava-a, adorava me aninhar em seu colo, muitas vezes torcendo para meu pai dar plantão e eu ir dormir ao lado dela na cama. Sentia-me protegido, muito mais do que em meu quarto escuro e propenso a visões assustadoras. Cresci. Então ela já não mais tinha razão em tudo. Ansiava por provar minha independência. Tornei-me pai e um dia concluí que meu amor por ela continuou intacto. Hoje, ligo diariamente para lhe dizer boa noite. Ela atende deitada naquele mesmo quarto. Sozinha. Percebo o movimento da vida quando desejo que meu pai estivesse lá com ela. Que plantão, que nada, volte para casa paiêêêê! Sou fruto de tudo isto. É por isso que preciso dizer boa noite todos os dias. Não só para ela, para meus filhos, para minha esposa, mas também para a minha infância. Rogo para que ela, de seu leito, tenha bons sonhos, com a canção de ninar que lhe canto e o leite com que a amamento. Uma gota de orgulho, outra de compaixão, outra de saudade. Infância minha, adocicada pelo tempo... Tenha bons sonhos. Para que você possa acordar de vez em quando em mim, revigorada.

Chaves

Tudo o que conversamos carrega uma mensagem por de trás das palavras. Um desejo real e oculto paira sob construções bem elaboradas, engraçadas, agressivas, diretas e aparentemente objetivas dos diálogos rotineiros. Só um espírito de outro mundo conseguiria decifrar este emaranhado de sentimentos e frases enredados. Ou talvez um psicanalista mais dedicado. Um dia perdi uma chave no deserto, em frente a uma casa no kibutz. Fiquei tateando a areia sem nunca encontrar o objeto. A chave carregava tudo o que eu queria dizer ao mundo e não disse. O povo judeu também caminhou 40 anos naquele mesmo deserto, tentando encontrar suas chaves. Nem a Torá o convenceu por completo de tê-la encontrado. Temos a nossa comunicação cifrada como a da bíblia, não podemos ser passivos e nos acomodarmos com chaves perdidas. Era para minha mãe ter filhos gêmeos. Mas eles morreram antes de nascer. Eu vim depois, como se fosse a chave, a solução compensatória. Mas depois que perdi minha chave no deserto ganhei a liberdade de não saber exatamente quem sou. Minha vida é tentar saber. Ninguém me ajuda, nem as montanhas imutáveis do deserto, nem as pessoas mutantes ao meu lado. Sigo em frente conformado e aliviado por ser a chave para meus infinitos encaixes, nesta busca que tem de ser eterna. Porque, afinal, não tenho cópia em nenhum dos meus bolsos vazios.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Mendigos

Um homem alto, barbudo, cabelos lisos, brancos e despenteados pedia esmola por entre os carros em uma rua em aclive. Ele andava amarrotado, vestido com uma camisa aberta e calça rasgada. O curioso é que conduzia um cachorro preto, de tamanho médio, numa correia. O olhar do cãozinho se identificava com o do dono. Era surrado, quase alienado e triste. Acompanhava-o orgulhoso e solidário, janela por janela. Se não fossem homem e cachorro, diria que eram gêmeos. O motorista acostumou-se a vê-los juntos. Até um dia em que se surpreendeu ao se deparar apenas com o cachorro, preso à correia, parado na praça ao lado. Ele parecia perdido, desesperado. Olhava para cada carro no farol fechado, com aquele choro fininho, como se perguntasse. “Você viu para onde ele foi?” O motorista não soube o que responder. Ficou em dúvida se jogava uma moedinha para o cão. Logo desistiu. Quis então sair do carro, pegar a correia e, junto com ele, ir pedir esmola de vidro em vidro. Seria uma maneira de consolar a solidão de ambos. Mas o farol abriu.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Serra

Subiu em uma elevação no mato para avistar as montanhas. Um ar úmido e perfumado de folhagem o inebriou. Seu rosto na fotografia estava tão radiante que era como se colhesse para si os raios de ouro do sol da tarde. Estava impregnado de leveza, flutuando não em seu corpo, mas na imensidão dos dorsos esverdeados das montanhas, verdadeiros paredões intercalados que emergiam ao fundo. Lá vivia a gente humilde de Paranapiacaba, os meninos e meninas que por lá ficaram e ficariam por dias e dias, observando a movimentação do dia até a noite estender suas cortinas escuras e estreladas. Até a escuridão e o silêncio se misturarem à névoa. Estavam quase isolados em seus sonhos, nestas paragens de céu gigantesco e casinhas antigas construídas em ladeiras de areia e pedra. Das montanhas, porém, também podiam avistar um futuro promissor. Uma das meninas parecia se misturar por inteiro àquele cenário rústico. Seus olhos volumosos e escuros, próximos um do outro, refletiam as cascatas escaldantes e a vegetação prenhe que borbulhava daquela terra. Menina que carregava a Vila em seu sorriso, tão límpido como a água que jorrava do ventre daquela serra.