Dias antes do casamento, o noivo recebeu uma saraivada de balas. Sentiu no corpo o desconforto agradável de ser atacado por convidados e pessoas presentes à sinagoga para acompanhar a cerimônia da leitura da Torá. O rabino, com um sorriso maroto, mirou o seu rosto e acertou uma bala bem na ponta do queixo. Até doeu, mas o noivo logo sorriu. Desembrulhou a bala e a chupou, sentindo o sabor de morango se espalhar pela boca. Entendeu a mensagem. Os que jogam atuam como os invejosos que tentam transformar os maus sentimentos em algo construtivo. Fazem o papel da realidade, transfigurada na bala, pura demonstração de que a vida é, ao mesmo tempo, dura e doce.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Palavra
Do teu corpo nasce a palavra. Ela reverbera em minha alma de várias maneiras. Uma palavra, mil sentidos. A palavra surge como um eco silencioso em uma cadeia de montanhas. A palavra é livre. Multiplica significados, sua identidade levanta vôos, de águia ou de colibri, se expande em um universo de dualidades, paradoxos, reflexões e sutilezas. Uma mesma palavra desperta lágrimas, provoca sorrisos, sugere, contempla, acaricia e fere. Depende de quem a ouve. Ou da intenção com que foi dita. O sussurro de cada uma delas é multiforme. Se dissemina como a refração da luz na água. Constrói um templo com peças de lego. Cada detalhe revela ou oculta um discurso. A palavra pode ser o fim do começo ou o começo do fim. Mas, no fundo, ela nunca termina.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Relação
No livro Razão e Sensibilidade, Jane Austen revelou como o pensamento tem toda a relação com o sentimento. A tristeza vem quando um tenta enganar o outro e, no fundo, nunca consegue.
Combinações
Deitei na grama do parque, me espalhei no tapete verde-musgo. Mistura de verde e marrom. Ao contemplar as alturas, vi o entardecer mesclar o vermelho do sol, o azul celeste e o branco das nuvens. Surgiu daí um lilás que desmaiava com o vento. Um menino no skate vai pular sobre uma barra de ferro. No momento do salto, desiste. Vi em seu olhar a sanidade, mistura de coragem e medo. Assim como a paixão que se mistura com o tempo vai se transformando em carinho. E a crítica, sem amor, vira crueldade. A ponto de urrar de raiva e estragar tudo, podemos utilizar uma pitada de vergonha para transformar a fúria em prudência. Esta fórmula, vista de outra maneira, pode ainda significar submissão. A tempestade desaba acinzentada. Para que a primavera seja rosada. O rubro estampa um rosto tímido. E a brancura revela quem se assustou. A essência humana vem da terra ocre. Emana do firmamento gris. Emerge do sêmen cor de areia. Liberdade que vive aprisionada pela mistura das cores e das emoções. Pelas tonalidades de cada instante. A regulagem de um sentimento gera outro sentimento. Não há vida sem a beleza e a tortura da combinação. Nada temos a oferecer além da química dos afetos e a matemática dos sentimentos. Na ausência de cor reina o luto.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Ciclos
A agente de aeroporto atende o cliente. Ela tem olhar sanguíneo e cara de raiva. Costuma responder mal, retrucar, não informar. Uma coisa nefasta é o autoritarismo de tempos atrás. Outra, ou no fim das contas a mesma, é a perda do respeito nos tempos atuais. Tornou-se hábito destratar o cliente. Jogador derruba técnico sem parcimônia. Aluno desanca professor. Professor ironiza os pais. Instituições perdem a força de referência. O marketing acena com mil possibilidades em um país que não pode ter ilusão. A violência busca alimentos na miséria e na desigualdade. Um homem, no meio da multidão, grita por serenidade. Ninguém o escuta. Todos andam ensimesmados, turbinados por seus i-pods, com passos apressados, numa marcha febril e sem destino, que os impede de olhar para os lados. Ele tenta respirar fundo. Pensa. “Não basta contermos a nossa raiva. É preciso também saber conter a raiva dos outros e não se inflamar”. Pega a mala e chama um taxi. Coitado, vai para o aeroporto, ser atendido pela agente.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Vazio
Escurece na praia. As ondas se tornam riscas brancas em movimento. O cheiro do mar se intensifica. Os navios no horizonte se transformam em pirilampos. A areia esfria, ganha o frescor da noite. A luz das estrelas e o brilho da lua se tornam referências. Emanam. Misturam-se à maresia e ao marulhar. O cenário aguarda o dia que virá, ensolarado, com o alarido das crianças e os guarda-sóis coloridos. E o sorveteiro, e o homem da queijadinha gritando um slogan para cativar os clientes. Como nos meus tempos de criança em Santos, com meus pais e meu tio. E tem ainda o barulho das raquetes batendo bola no frescobol. Estou na cidade, distante, imaginando as cenas. Lá estão minha esposa e meus filhos. Entro no apartamento vazio. Sinto-me só, envolvido no silêncio. Então escrevo este texto, sem nenhuma inspiração.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Escribas
Uns escrevem para demonstrar inteligência. Outros para desferir amargura. Existem os que escrevem com a presunção de ensinar. E os que buscam contar uma história para exibir suas qualidades descritivas e imaginativas. Textos agressivos e intolerantes nascem dos que precisam destilar desabafos venenosos. São poucos os que escrevem apenas em busca de uma verdade ou simplesmente para revelar a própria alma. Mas por mais que os escribas se iludam, ninguém é Deus. O único que consegue escrever certo, por linhas tortas.
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