segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Repetições

Mandei algumas perguntas a Amós Oz  por e-mail. Numa delas, citei a frase de Nelson Rodrigues, “eu não existiria sem as minhas repetições”. Perguntei ao escritor israelense se ele existiria sem as suas repetições. Esperei, esperei por alguma resposta. Enquanto isso, me lembrava de passagens de seus livros. Em De amor e trevas, ele conta a história de seu pai, um erudito cheio de ilusões, mas que nunca conseguiu a cátedra de titular da Universidade Hebraica de Jerusalém. Desde menino, Oz vivenciou esta busca frenética, jamais alcançada, como parte também de sua história. O drama de seu pai o tocou e o intrigou.“Ninguém ligou para as setenta e sete sabedorias de meu pai”, revelou na obra, com um misto de realismo e compaixão. O próprio escritor, porém, fez algo parecido. Nunca me respondeu. Nem deu bola para as “setenta e sete sabedorias” das minhas perguntas. Foi sua forma de me dizer que ele também não existiria sem as suas repetições.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Escuro

Eu me acho o maioral. Eu me acho. Eu me acho e não me encontro.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Bocas

O menininho de três anos resiste à tentativa da tia de lhe dar um pedaço de carne. Ela aproxima o garfo e ele, sentado próximo da mesa, reage. “Não vai entrar porque isto é o Boca”, em referência ao time argentino. “O Boca não faz gol”. A tia, então, troca a carne por um pedaço de bolo de morango. Nova tentativa, desta vez plenamente aceita. “O garfo não era o Boca?”, pergunta. “Era, mas foi gol contra”, responde a criança.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Velhos

A pele enrugada, os cabelos brancos e o corpo desgastado pelo tempo não escondem o brilho do olhar, que continua o mesmo. A não ser que tenha se tornado mais opaco pela falta de atenção. Poucos ouvem o que os idosos têm a dizer. Eles não estão na moda. Seus anseios, seus pensamentos, suas recordações não são pautas tão interessantes. Até quando fazem sucesso são motivos de desconfiança, ou de gozação. Muitas pessoas temem o esquecimento que por vezes envolve uma memória envelhecida. Como se isto simbolizasse o mergulho em uma caverna escura que um dia todos habitarão. Mas velhice não é escuridão. No filme "E se vivêssemos todos juntos?", a busca de um grupo de velhos por acolhimento é o tema central. Eles conseguem se inserir de uma maneira aberta e criativa em um mundo no qual um cuida do outro, ressaltando o significado de amizade. A trama mostra que até mesmo o termo velho não pode ser entendido apenas por seu significado pejorativo. Velho tem a ver com dignidade, com vivência, com sabedoria, ainda que a mente não se lembre de mais nada de concreto. Escutar alguém velho, angustiado, é o primeiro passo para ajudá-lo. O coração dele se encherá de alegria. A gratidão não precisará vir por palavras, para atender apenas rompantes vaidosos da juventude. A velhice dos outros é uma grande chance para o ser humano aprender sobre si mesmo, no presente e no futuro. E entender, finalmente, que aquele que ama não faz favor.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Quixotescos

O mundo anda cada vez mais quixotesco. Move-se moinhos de vento para a defesa das causas próprias. Culpa-se o outro por tudo: pelo próprio fracasso, pela tristeza que não vai embora, pelas dúvidas, pela falta de perspectivas. Isso, no fundo, é desespero. Não fosse pelo desespero as pessoas não feririam a ética, não chutariam a moral, não deturpariam as leis em busca de justificativas. Sem dúvida elas prefeririam ter coragem de encarar de frente a realidade, de assumir a honestidade, de caminhar com a verdade. Rousseau já dizia que o homem é um bom selvagem. Mas o Palmeiras, pobre Palmeiras, tenta se convencer, a si e aos outros, de que tem o direito de fazer gol com a mão. Não vai conseguir, para o seu próprio bem.

Interações

Muita gente vai a um centro político, religioso, comunitário ou social e tenta demonstrar para os outros a adoração que sente pelo líder. O ambiente se torna competitivo e pesado. Idolatria tem a ver com fanatismo. As raízes são as mesmas. As crenças e convicções vêm de fora para dentro. Fé, religiosidade e admiração genuína têm outras origens. São sentimentos que interagem com o ambiente, o fazem acolhedor, transitam tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro das pessoas. Neste momento, elas ficam próximas da divindade.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Adormecidos

Calor no calçadão. Dia de campanha, militantes de bandeira azul próximos aos de bandeira branca. Andam, entregando panfletos, conversando em grupos. Então um de branco discute com um de azul. Outros chegam, confusão iminente. Gritos e ameaças de briga. “Ninguém rela a mão em mim não”, berra um. Outro reage: “Mano, fica na tua”. Não percebem que um homem dorme embaixo de um banco, no centro da via pública. Tem uma ferida no olho, barbas por fazer, camisa amarrotada e calça apertada. De tão perto, quase pisam nele. E a gritaria não para. Estão em campanha política. Mas ninguém pensa em levar o homem para cuidar da ferida. Querem é ganhar disputas, na urna, no calçadão. Eleição para eles é como um jogo. De interesses. De sobrevivência. Querem emprego, querem comer para não se transformar naquele pedaço de carne adormecido. Um coloca uma placa de seu candidato bem ao lado do moço. Como se ele fosse um poste tombado. A gritaria vai se dispersando junto com o entardecer. O mendigo já nem liga mais para isso. Sabe que nem em campanha olham para ele.Vira-se de lado, com a cabeça sobre um punhado de jornal. Os barulhos são apenas esparsos. Uma brecada, uma gargalhada vinda de um bar distante. O ritmo batido do salto de uma prostituta maquiada. Sua companhia agora são as luzes da cidade e um ou outro cachorro que vagueia pelos becos. O mendigo se sente aliviado. Este é o seu verdadeiro mundo. Agora enfim, no silêncio e na solidão, ele pode dormir tranquilo.