Está chegando a hora. No domingo (27) a partir das 16h o coração do torcedor corintiano irá bater mais forte. Será a última vez que seu grito irá ressoar pelas arquibancadas do Pacaembu, estádio que, desde os anos 40, quando foi inaugurado, se tornou a casa do Timão. O jogo de despedida, antes da estreia do Corinthians no Itaquerão, será contra o Flamengo, pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro. Foram muitos momentos marcantes que irão se eternizar na memória dos corintianos. Momentos de alegria, de tristeza, gritos de campeão e lágrimas de frustração, brigas, reclamações e muitas, muitas juras de amor ecoaram pelas alamedas do estádio, desde o Tobogã às cadeiras cobertas. E o que dizer daqueles torcedores que ficavam no alambrado, comendo sanduíche e reverberando contra o juiz, jogadores e o banco de reservas, com as mãos entrelaçadas na grades e a mente aprisionada por cada lance, cada gesto que ocorria lá dentro? Pacaembu por onde desfilaram Sócrates e sua leveza aristocrática. Neto e sua explosão, Marcelinho e seu estilo elétrico, Luizinho e seus malabarismos surpreendentes, que mais pareciam de uma criança a desfilar sua arte no templo sagrado de sua imaginação. Pacaembu que testemunhou várias épocas, de democracia, de ditadura, de desemprego e de esperança, que se revezavam no inconsciente do corintiano e de repente se apagavam por completo, se transformando em pura alegria a cada grito de gol.
Wladimir, nos anos 70 e 80, foi outro jogador que simbolizou esta ligação intensa entre clube e estádio, na verdade entre clube e a cidade. Porque por entre os arranha-céus que piscavam nas noites estreladas de quarta-feira, aquelas luzes silenciosas nada mais eram do que a cidade acolhendo uma equipe, interagindo com uma nação, de braços abertos, à sua imagem e semelhança. Quanta quartas, quantos domingos, quantos jogos ficarão para trás nesta despedida formal...Foram, no total 1683 partidas, com 962 vitórias, 395 empates e 326 derrotas. Neste palco, foram 3304 urros de gol da torcida, como o do gol de Paulo Borges na quebra do tabu contra o Santos. Explosões que estremeciam as redondezas e só emudeciam lá no céu, bem distante, onde um astronauta seria capaz de ver o planeta como um pontinho. E saber onde estaria o Pacaembu, pela energia que dele emanava em cada jogo do Corinthians. A dor do gol sofrido se repetiu por 1921 vezes. Mas não são os números o mais importante neste momento. Não são os números que irão retratar a emoção de cada momento vivido pelo corintiano neste estádio. Nem as palpitações da alma que emanavam por de trás do semblante sofrido, suado, extenuado por participar das partidas sem entrar em campo. Jogar junto apenas com a voz e a emoção. Apenas evocando os Deuses do Futebol. A isso se chama torcer. E nenhum estádio conhece tão profundamente um torcedor como o Pacaembu conhece o corintiano. É num momento como esse, de despedida, talvez um até logo, que o futebol se torna realmente grandioso. É quando o clamor se mistura à eternidade, a história é revivida em um instante, mostrando que, para o torcedor corintiano, o tempo é apenas algo subjetivo.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Luciano
Não foi Luciano do Valle que ficou sem a Copa do Mundo de 2014. Foi a Copa do Mundo de 2014 que ficou sem Luciano do Valle. Essa que é a verdade, como ele gostava de dizer.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Tantos
Apenas uma frase. Apenas uma ideia. Mas o que ele falava carregava tanta emoção concentrada, tanta coragem, tanta verdade interior, tanto desejo de revelar conflitos humanos, e depois elucidá-los, tanta curiosidade por tudo, tanto estudo, tanta reflexão, tanta estranheza, tanta necessidade de comunicar algo profundo, tanta busca, tanta procura, tanta intenção de integração, tanta vontade de ser compreendido, tanta solidão... que os outros não entendiam nada. Tantos vazios.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Viaduto
A mulher jovem dorme, no colchão à beira de um gramado na rua. Lá embaixo, atrás dela, a avenida flui em seu trânsito indiferente. De moleton velho e camiseta azul, ela está um pouco contorcida. Estampa acima dos lábios uma ferida seca. O rosto sujo não esconde a tranquilidade do sono. Parece viajar em outro mundo, menos indigno, menos imundo. Seus cabelos claros e lisos não escondem a oleosidade. Um pouco à sua frente, mais à esquerda, um homem também dorme profundamente. Ele, porém, está na calçada, esticado no concreto. O que sonha aquela figura empobrecida, que exala uma feição embriagada, rodeada de sacos de arroz, garrafas de refrigerante vazias, sacos de plástico molhados e papéis de embrulho amassados? As pombas aproveitadoras exploram as migalhas de pão que se espalham ao lado do casal. O que posso fazer por vocês no egoísmo dos meus problemas mesquinhos? No meu mundo pequeno, talvez imundo também, começo a me irritar no carro, sobre a rua em aclive, na entrada do viaduto. O cara da frente, afinal, não anda. Olho para o casal e penso então que posso fazer algo por eles, a menos de três metros do meu lado. Tão longe e tão perto de mim. Como uns dos outros neste mundo. Resolvo ser o único a poupá-los de barulho, ou de um incômodo que os acorde. E mesmo que o farol feche sem que eu passe, não buzino.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Evolução
Chegou um momento em que ele não mais temia se afastar do que sempre chamou de amigos. Foi quando os defeitos pesaram mais do que as qualidades, que ele já não fazia questão de ver. Ele, que sempre foi um crítico dos que só viam a própria família, sentiu-se impelido a ser assim também. Mas de uma maneira mais afetuosa. Sem o ímpeto egoísta que o perturbava. E que só agora ele se dava conta de que não tinha a responsabilidade de corrigir. Ele, finalmente, evoluiu.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Sustentabilidade
Sustentabilidade é um tema mais do que atual. Mas acompanha
o universo desde o seu início.
Nas conversas em geral o termo se relaciona aos aspectos ambiental, econômico e
social do planeta. Para que haja sustentabilidade nesta biosfera é preciso, porém,
haver uma outra sustentabilidade. Diz o Wikipedia que sustentabilidade é a habilidade de sustentar ou suportar
uma ou mais condições, exibida por algo ou alguém. Isso significa, no nosso dia a dia, suportar frustrações,
manter o equilíbrio diante de adversidades, respeitar a ética no jogo pelo
poder, controlar o lado primitivo e egoísta que descamba para a corrupção e a
indiferença. Também é não terminar um casamento porque um gosta de pizza e o
outro de hambúrguer. Saber construir relações sólidas com as pessoas é outro
item fundamental. As situações de sustentabilidade emocional são inúmeras, até
infinitas. Estão em todo o lugar, não há como fugir. Como diz Renato Russo, o caminho é um só. É o de se empenhar para sustentar uma promessa, uma amizade, um objetivo. Aprender com os tropeços a sutentar uma família. E por que não, o sucesso? E a suportar as próprias limitações. No repertório entram ainda a reciclagem da inveja e da mesquinhez, transformando-as em material orgânico que favoreça a vida. Cada um sabe o seu próprio grau de sustentabilidade. Sócrates, que sustentou até o fim a sua convicção, diria: conhece-te a ti mesmo e verás se no teu corpo pulsa ou não um coração mineral. As pessoas confiáveis são sustentáveis. Já acordam emanando uma energia limpa e renovável. A maior das sustentabilidades está no sol que desperta a vida, nos mananciais que refrescam a alma, nas cavernas de onde ecoam as respostas mais profundas. Tudo isso, é claro, dentro de cada um.
quarta-feira, 12 de março de 2014
Reprise
A novela Água Viva passa em reprise na TV. Remexe no curso da vida dele, restaurando sonhos que ondularam rumo ao mar. Deitado no sofá, o moço de meia idade olha para a noite e vê a cordilheira retilínea de prédios, iluminada por luzes que parecem acenar do passado. Seu universo de outrora se move por trás de todas as cenas. Pelos diálogos, pelas lágrimas e pela vista do Rio dos anos 80 ele vê projetados, por trás ou por dentro das telas, todos os gestos e sentimentos que vinham dele naquele tempo. As músicas de fundo dão um toque especial. Se fundem à imagens refletidas na porta de vidro da sacada. Se misturam com a noite, com a cordilheira, com aquela época tão distante e tão presente nele. Edyr caminha pela praia melancólico, ao som de Styx. Quem era aquele personagem? Cláudio Cavalcanti e sua ternura canalizada para a trama? Apenas um professor abandonado? Um homem esmagado pelos conflito entre humanismo e materialismo? A premonição do que ele, telespectador em sua sala escura, seria hoje? Ou o encanto inconsciente da sua própria infância, representado na tela? Intuía estas perguntas com placidez, como se todas as respostas fossem um uivo de solidão, como se todas elas fossem as belezas imperceptíveis da vida, apenas travestidas de dramas. Uma sinfonia de feixes de luz se mistura ao espelho da noite e refrata pelo vidro da porta corrediça diretamente em seu coração. O moço então respira o fresco orvalho da saudade, dança internamente com os personagens que também eram ele, a ressurgirem como espíritos, mesclando realidade e imaginação, evoluindo por ondas agitadas rumo à calmaria. Este momento é uma viagem que o conforta. Sente sua vida como uma reprise que se renova. Uma novela que tece os fios de sua alma e urde sua identidade. Sua memória é uma prece que se move pela brisa da esperança, rumo ao sono, à consciência leve, tal qual um navio carregado que se aproxima do porto para descansar de suas jornadas, acalentado pela névoa rósea de cada amanhecer.
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