terça-feira, 11 de agosto de 2015

Valsa

Nem mesmo dentro do parque a sensação de vazio urbano deixou de acompanhá-lo. Não era porque corriam, trotavam, andavam, de shorts, camisetas e tênis, com aspectos mais leves, que as pessoas lhes transmitiam uma abertura maior à amplitude da vida.
Isso era algo que tinha de vir de dentro dele. E de cada um. E quando acontece, tudo muda. Inclusive o jeito de olharmos as pessoas. E, ao mesmo tempo, o jeito de as pessoas nos olharem. Prova disso foi quando, enquanto corria, vislumbrou algo novo, além da ilusão de poder e da felicidade encomendada.
Acabara de percorrer o primeiro trecho do parque e se deparou com a vista de um imenso lago e dos prédios ao fundo formando um horizonte urbano. Ouvia uma música doce, estimulante que acendia sua imaginação. O sol luzia com vigor e seu brilho acariciava a superfície da água. A mistura dava um movimento cintilante à cena.
Sobre a água, cisnes negros, brancos e cinzentos deslizavam tranquilos, passando uns pelos outros em movimentos de balé harmônico. Um espetáculo colorido definiu um novo aspecto à cidade, como se ela fosse apenas um complemento do que ele via naquele lago.
Agora sim a essência da vida havia se apresentado em seu mais nobre traje, ainda que de forma silenciosa para ele. Ainda que por causa do impulso da serotonina e da melodia agradável que ouvia no i-pod.
Sentiu no momento o pulsar de uma alegria, o núcleo dos desejos contemporâneos reunidos naquelas águas plácidas, cercadas de um agito abafado e de buzinadas tão distantes que mais pareciam o choro tímido de uma criança.
Teve ele a impressão de estar percorrendo um tapete cintilante como as águas. Os outros já não lhe pareciam emburrados e fúteis. Viraram cisnes elegantes, educados, doces e solidários, percorrendo caminhos semelhantes, mas sem atropelos.
Emergiu em sua visão um outro ritmo para essa rotina frenética que esquenta o asfalto, feita de pessoas suadas, enfeitadas e emburradas, fria apenas na aparência. Rotina medrosa, desconfiada, que no fundo esconde a nossa carência.
Mas no contorno das águas, rodeadas de árvores, São Paulo estava se transformando diante dele. A insanidade deu lugar à suavidade. As buzinadas já não incomodavam. Nem panelaços. O que importava era que, passo a passo, sentiu-se unido a todos em um caminho único, nesta corrida sem fim.
Uma nova cidade se apresentou diante de seus olhos perplexos, enquanto seu corpo se movia quase automaticamente. Linda como uma noiva, sem violências, sem xingamentos, sem truques. Sem argumentos pelo proveito próprio. Com flores explodindo nas plantas. Repletas de árvores que davam aconchego às passadas ritmadas de cada um. Harmônica, como uma valsa de Tchaikóvsky. Brilhante, como um Lago dos Cisnes.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Ignorância

Todo o conhecimento humano pouco vale se não houver conhecimento sobre o humano.

Presença

Deus está menos presente no ritual de um religioso do que em um coração puro.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Pertencimento

Casa, carro, ações na bolsa, dinheiro no banco. Tudo o que um homem tem neste mundo é emprestado. A única coisa que lhe pertence é a sua própria história.

Sabedoria

Um bom jornalista é aquele que vai além dos fatos.

Competência

Um bom jornalista é aquele faz uma boa matéria sobre um assunto que ele não conhece.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Prazer

Uma reunião de taxistas em frente a uma garagem aberta chamou minha atenção naquela tarde ensolarada. A rua, normalmente tranquila, ficou mais movimentada, com um certo congestionamento que logo se desfazia quando os motoristas deixavam o local.

Estavam lá provavelmente para renovar algum certificado. E enquanto esperavam, aglomerados, iam colocando o papo em dia.  Fui passando de carro, lentamente, quando vi de relance dois deles conversando sobre algo e logo se despedindo.

Um ia entrar no pátio, o outro ia seguir para o batente. Era um contato amistoso, afetuoso, um vínculo que se mostrava de longa data naquela relação de trabalho.

Encostei rente à guia rebaixada, só para observar os dois senhores. Semelhantes. Simples. Cabelos grisalhos, óculos clássicos e camisas sociais de manga curta. Tinham seus próprios interesses, seus pensamentos, sua filosofia embebida pelo convívio popular. Mas, mais do que tudo, não me conheciam.

Nem sabiam da minha existência. Viviam completamente independentes daquilo que eu fazia, do modo como eu agia, do que me fazia alegre ou triste.

Então me veio uma sensação inédita de minha insignificância no mundo. Como eles, bilhões de pessoas viviam ao largo da minha presença. E aquela breve conversa dos dois amigos taxistas simbolizou esta situação, um tanto dolorida.

Me veio a certeza de que meus sonhos são tão grandes, mas não os alcançavam. De que a ponta de meus valores éticos nem roçava nas suas ideias. Eles existiam completamente alheios a todas as minhas convicções, sem conhecerem o meu jeito de falar, sem admirarem as minhas palavras, sem interesse no meu passado, sem expectativa no meu futuro.

Viviam na total ignorância a meu respeito, nem imaginando se entendo ou não de futebol, de política, de manifestação, sem saberem do meu amor paternal, nem dos textos que escrevo. E sem lamentarem a minha ausência.

Imaginei que poderia aparecer na frente deles, falar algo, fazer alguma brincadeira, para quebrar esta distância para sempre. Nunca mais ficariam sem nunca terem me visto. Por isso, por dignidade, fui. Enquanto caminhava, quase desisti, esperando uma reação medieval tão comum.

Mas continuei, na tentativa, ainda que descrente, de diminuir pelo menos um tantiquinho assim a minha inexistência.

Ao me verem, porém, os dois estamparam um sorriso universal de acolhimento e, por que não dizer, de reconhecimento. E falaram três ou quatro frases cordiais dirigidas, na convenção fraternal de um encontro.

Como representantes da entidade, me disseram: fique à vontade, procura alguém?  Respondi, elogiando a união da classe. Fiz minha voz chegar a eles para sempre e me despedi, com o velho aperto de mão.

Na volta ao carro, driblando o trânsito, senti que carregava algo transformador. Era uma vontade de repetir a cena com cada um dos bilhões habitantes deste planeta, buscando o gesto simples da integração, um pouco difícil de se ver hoje em dia.

Veio um desejo de cumprimentar a todos, do Nepal ao Havaí, como uma missão de Forrest Gump dos apertos de mão.

Meu objetivo tinha ido além. Atirei em uma árvore, colhi frutos em outra, unificando reinos, vencendo a tal voluptosidade medieval do Game of Thrones do nosso dia-a-dia.

Percebi que, na verdade, de alguma maneira, todos nós nos conhecemos. Mesmo sem, na imensa maioria das vezes, nunca termos sido apresentados um ao outro.