sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Maledicência

Falar mal de alguém pelas costas é uma forma, ainda que indireta, de se fazer bullying.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Soldado

Senti-me um palestino sob suspeita. O segurança da escola era um israelense bastante seguro de suas convicções. Como são tantos formados em um clima de desconfiança e sob uma armadura de certezas e praticidade. Isso é assim, aquilo é assado...O olhar duro sempre me perseguia no momento em que eu buscava o meu filho no portão. Talvez se irritava com meu estilo um pouco desajeitado, com alguns questionamentos ingênuos, que podem significar um desvio na conduta rígida em que ele foi moldado. Ele gostava de encontrar uma acusação sutil para mostrar sua razão, baseada em convicções que pareciam límpidas em sua mente. Era, no fundo, um conflito conceitual. Acusava-me de demorar para entrar com o meu menino no carro. E eu, esbaforido, via aquele homem de blusão solto, calça larga e tênis táticos, de borracha, se aproximar, com o rádio na mão. Enquanto isso, buscava quebrar recordes mundiais nessa modalidade, colocava rapidamente a criança,  jogava a mochila,  fechava a porta com precisão, dava a partida e...vinha ele, antes de eu acelerar, dizer que eu estava demorando, que a fila tinha de andar. Sem um pingo de reconhecimento. Uma vez, busquei uma trégua, falando sobre definições religiosas, mas ele, como sempre, foi duro. Com olhar de aço, confirmando o estilo militar dos cabelos raspados nas laterais, tentou esvaziar o que eu falava. E disse: “eu já sabia disso, no exército os soldados costumam brindar dessa maneira”. Não me dava moleza. Via-se guardião da verdade humana, de forma simplista. Imaginei que em algumas vezes soldados israelenses, no direito de Israel de se proteger, podem tratar assim alguns palestinos, antevendo neles a desordem e, com esse conceito, sentindo-se com o dever de expulsar, de rechaçar, de dizer que sabiam como os outros eram e por isso agiam dessa maneira. Até que, outro dia, quando deixei o carro para ir ao banheiro no hall da escola, o flagrei na volta em frente ao meu carro. O horário da saída, por alguns minutos, ainda não havia chegado. Era permitido estar ali estacionado. Mas ele já formara sua sentença. Imaginou que eu deixara o veículo lá, subversivo, sem dar a mínima para a fila que se formava atrás. Mil afirmações se multiplicavam em sua cabeça, enquanto “secava” o carro, me recriminando por eu estar longe. Sem perceber que eu voltara, com o meu pequeno. Bem ao seu lado, bem antes do tempo. Observando-o, só esperando ele sair para que eu pudesse entrar. Foi doloroso constatar sua surpresa ao me ver. Um sorriso amarelo se desenhou por trás daquele rosto outrora imperturbável. Ele corou. Um pouco, mas corou. Senti compaixão por aquele rubor. Quem era ele? Com quem morava? Sobre o que conversava? O que teria perdido por aí na vida? Quem guardava no porta-retratos de sua cabeceira? Pensei que ele poderia amar a noite e se lembrar de algo triste com as chicotadas dos raios de sol. Ou o contrário. Emergiu a fragilidade das dúvidas que ele tanto buscava ofuscar em seu método pragmático. Intuí a cultura de quem tem medo de ser atacado. E precisa se mostrar imperturbável. Descobri que, por mais treinado, ele poderia ter pânico, que sentia frio, que sentia fome. Que sentia um vazio em vários momentos. E que não encontrava técnica para resolver isso. Pela primeira vez, o peguei desarmado. Senti-me um palestino sob suspeita, que escapa por pouco. No justo momento em que se antecipa a uma abordagem belicosa. E fiquei satisfeito. Fosse mesmo eu um palestino, e o soldado me olhasse revelando sua alma,  teria encontrado a chave que resolveria tudo. Em vez de guerrear com ele, eu lhe daria o meu abraço.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Caminhada

Traição. Mesquinhez. Falta de educação. Egoísmo. O vencedor é aquele que não se abala com os absurdos do dia-a-dia. Sem, no entanto, aderir a eles.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Blindados

Enquanto eu dirigia, ouvia uma música no rádio quando um movimento brusco me deteve. Brequei para não ser esmagado, na lateral, por aquela massa de aço gigantesca, que passou como se nada tivesse acontecido.
Tive a mesma sensação de um marinheiro, em uma humilde embarcação, no momento antes dela ser abalroada por uma baleia em disparada.
Mas a sina e o susto continuaram a me perseguir. Criaturas assim aparecem à minha frente nos momentos mais inesperados.
Atravessei a rua, após se certificar-me de que o farol de pedestres estava aberto, quando, de repente, outro objeto metálico gigantesco quase me atropela, ao deixar a vaga em que estava estacionado.
Lá no alto do volante, vi Noé em sua arca. E acima dos mortais que se afogavam no asfalto, nem menção a qualquer pedido de desculpas. Nem um ressoante “tan-tan” da buzina, como um navio que apita na noite silenciosa dando sinal de vida e humanismo. O piloto da nave espacial continuou enfurnado em sua cabine blindada.
A definição de utilitário para o SUV, do inglês, "Sport Utility Vehicle", tem sido distorcida nestes tempos de modismos, em que a tentativa de aparentar força e poder ditam regras sociais.
Em vez de ser usado para levar famílias numerosas, de maneira plácida e educada, o meio de transporte se tornou símbolo de ostentação, com um aspecto de grandiosidade em que fica impossível esconder o desejo de ensejar superioridade.
Não é raro sair destes tanques de luxo, nos estacionamentos, apenas uma jovem de aspecto frágil, com roupas da moda e cabelos lisos, deixando atônitos os manobristas. A expectativa deles era ver, por de trás do vidro escuro com Insulfilm, sair alguém com aparência bem mais agressiva, talvez três ou quatro brutamontes que mal conseguiriam preencher o espaço do veículo.
Claro que não falo de todos que utilizam esses carrões pelas ruas esburacadas das capitais brasileiras. Mas falo de muitos.
Quantas não são as vítimas que já se sentiram agredidas por uma luz possante vinda na pista da esquerda, prometendo estraçalhar quem não sair da frente? Muitas vezes parecem blindados de guerra. A maioria inclusive deriva destes jipes.
E é dentro da guerra urbana que eles servem, como instrumentos de um conflito humano estacionado na ilusão da onipotência. Na ânsia em se mostrar forte, grande, vitorioso. Estes veículos combatem mais do que trafegam, obcecados por impor alguma mensagem de grandeza. Querem a todo custo provar que o porto seguro está lá em cima, na cabine. O ronco porém é menor do que dores que transitam escondidas.
Motorista e carro parecem uma coisa só. Os contornos poderosos do aço, a tração nas quatro rodas, as longas fileiras de banco, a possibilidade de andar em terreno on e off-road são partes integrantes de uma carcaça dura e de uma alma frágil.
Ó, benditas camionetes que nos conduzem por essa embriaguez material! Os danos de seus impactos sobre os outros são duplos: destroem mais, na forma de colisão e, aos mais inseguros, de opressão. Além de, espaçosos, prejudicarem ainda mais um trânsito em tempos de ciclovias. Em vez do cuidado, a ameaça em cada fechada.
O puro conforto e o prazer em dirigir batem de frente com a falta de conforto emocional. O labirinto de ruas e de angústia se frustra a cada acelerada potente.
Repito que não me refiro a todos. Há os que dirigem enraizados em motivos profundos: um desejo do falecido pai, uma realização verdadeira ou a consciência da ostentação, mas sem o objetivo de jogar na cara a superioridade sobre os que estão “lá embaixo”. São os que vão além da explicação “a vida é minha eu faço o que quero”. De qualquer maneira, sei que haverá oposição, buzinaço, panelaço ou o que quer que seja. E se alguém que dirige esses turbos se ofendeu, só peço uma coisa: calma! Eu lhe dou passagem.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Amor

Tentar amar já é amar.

Aluno

Na mesma rua, à noite, parou em frente ao muro da escola. Voltava sozinho de uma compra no shopping. Momento tranquilo. Fim de domingo, praticamente a única oportunidade de sentir uma cidade mais calma e vazia nos dias atuais.
Ouvia uma velha música dos anos 70, fazendo relembrar passagens de quando estava na escola.
Com seu filho, revive aquela época em que os pais, em frente a um portão semelhante, aguardavam as crianças saírem em alarido frenético, enquanto o sorveteiro era cercado por uma legião ávida por doces.
Hoje não tem sorveteiro. Mas ainda tem porteiro e a mesma febre infantil em busca de novidades.
As crianças saem em disparada, no pátio da escola, brincando de roda, rodando as malas, tropeçando, ouvindo recomendações de cuidado.
Correm de um lado para o outro enquanto o segurança, sim, hoje é necessário, chama uma a uma pelo microfone, assim que chega um responsável para buscá-la.
Em frente àquele portão, no cenário escuro, ele revivia tudo aquilo em sua mente. A lembrança da voz no microfone vinha metálica, parecia ressoar pelos contornos da noite nublada, carregada de mistério.
A árvore dentro da escola balançava com a brisa refrescante, como se acenasse para ele avisando que estava lá, de folga, guardiã à espera da gritaria do dia seguinte.
Os acordes da música o faziam viajar naquele palco conhecido, agora adormecido e vazio. Na frente da porta sempre repleta, o silêncio causou-lhe um misto de estranheza e encanto.
Foi tomado por uma sensação que o levava a vivenciar aquele dia-a-dia agitado. No papel de espectador de si mesmo.
Assistia a um replay de sua rotina, como uma partida de futebol reprisada no final do dia, quando detalhes podem ser melhor percebidos.
O farol da esquina abriu. E desfez o devaneio. Precisava acordar cedo para, dali a poucas horas, voltar ao mesmo local, trazendo o seu filho e retomando o ciclo da correria, no relógio do mundo, na panela que ferve e depois se assenta.
Sentiu-se reconfortado com a experiência e iria utilizá-la quando não pudesse segurar as horas e permanecer se alimentando eternamente daquele frenesi, o mesmo de seus dias de colégio.
Acabara de ganhar um presente: a escola à noite. Em sua nova fase de aluno. Onde, sempre que quisesse, iria para refletir. Para recordar. Para sentir o alarido, compensando o tempo que escorria por suas mãos e que ele não podia segurar.  Foi embora enquanto a árvore, lá do fundo da escuridão, ainda balançava com o vento. Continuava lhe dizendo até amanhã.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Caminhos

Siga.
Prossiga.
Invente.
Reflita.
Escute.
Experimente.
Esqueça o homem que é a sua sombra.
Ele mente.