Surge um jovem de calça rasgada, olhar amarrotado
Perambula na rua, descamisado
Na calçada agacha e repousa sentado
Na mureta do prédio apoia o corpo cansado
Em plena manhã gente passa ao seu lado
Indiferente, irritada, está acostumado
Ele não liga nem se faz de rogado
O que importa se o bairro é de endinheirado?
A cracolândia tá longe, ônibus tava lotado
Barba por fazer sem banho tomado
Perdeu o sentido, vê o futuro manchado
Tristeza acende a dor do passado
Pai e mãe o largaram abandonado
Desligou-se do mundo, ficou meio pirado
Já vê que com a morte tem encontro marcado
Agora ou depois, caminho traçado
Só sobrou o bagulho que comprou fiado
É isso que o faz ficar concentrado
Atormentado, ensimesmado, descabelado, chapado, mamado
Obcecado, acha inútil o atarefado
Esqueceu que um dia foi apaixonado
Pela moça da esquina, um sonho encantado
Esqueceu-se de tudo, de que foi amado
O sonho deixou seu coração rasgado
Aprisionado, sufocado, atarantado, azarado, fissurado
As pessoas, a vida, é tudo furado
Não espera mais nada, está isolado
Tira do bolso o papel amassado
Na mão o embrulho de erva fechado
Mostra perícia de alguém preparado
Nem percebe o dia ensolarado
O sol dentro dele está ofuscado
Ele enrola em silêncio o seu baseado
Dá um trago, um pigarro, peito congestionado
Entediado, explorado, desesperado, desmiolado esse descamisado
Do sorriso abafado
Do grito calado
De plano mutilado
Acabado, apagado, vagabundo condecorado
No tempo parado, já não sabe se é
Coitado ou culpado
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
sábado, 26 de dezembro de 2015
Surfe
A notícia sobre a morte da Rita Lee chocou o menino naquela manhã em Santos. Soube no apartamento, antes de ir para a praia com os pais e os tios. Estava aprendendo a surfar sobre a velha prancha gigante de isopor, que ganhara na semana anterior.Temeu que a notícia o deixasse abalado a ponto de não conseguir se concentrar na estreia. Ele adorava a cantora ousada, cujas músicas foram a trilha de sua rotina de férias.A prancha era rosada e ampla, quase do tamanho de uma oficial. Seu interesse em se colocar de pé sobre ela se deveu a dois motivos: primeiro, porque ele estava cansado de sair do mar com a pele toda irritada por causa do atrito de seu corpo com a superfície, em breves experiências anteriores.Depois, era a forma com que ele via aqueles jovens espertos, de cabelos longos, peles douradas, bermudões e frases descoladas, trocando o você por tu, se equilibrarem em pedaços de acrílico para superar o mar.Ele ficava espantado ao ver as silhuetas, à distância, funcionarem como sombras divinas de pequenos reis do mar se destacando na linha do horizonte. Tinha a certeza de que se equilibrar na água era como se equilibrar na vida. E saber, com calma, paciência e auto-controle, não se afogar nas ondulações do dia-a-dia.Já na praia, quando ele caminhava pelos guarda-sóis em direção ao mar, recebeu um estímulo enquanto pensava na triste notícia. Um homem, pra agradar-lhe, disse: "Ô garoto, o mar tá bom, você vai fazer a festa..." Era fim de ano e a música "a festa é sua, hoje a festa é nossa", que ele ouvia em sua TV Philco preto e branco, à beira da cama, ficou em sua mente. Ele se sentiu orgulhoso, incluído. Correndo com ela na mão, pensou: "ser surfista é isso". Aventurou-se, mesmo que não tivesse ninguém para ajudá-lo, nem ensiná-lo. Tentava, tentava, até desistir e voltar para a barraca, para desabafar suas mágoas na delícia de uma queijadinha. E no sonho de um dia conseguir fazer a festa...Somente vários dias depois, soube que a notícia da morte da cantora era falsa. Já tinha trocado o surfe pelo jogo de bola. Talvez descrente de que pudesse se manter de pé no mar. Rendido ao boato de que não poderia se segurar diante das incertezas, das inseguranças, das mentiras alheias. O que ele não sabia, porém, é que as braçadas iniciais já haviam sido dadas. Foram as primeiras aulas de como se deve surfar a cada dia sobre os boatos da vida, tão espalhados em um mundo frenético de indiferença e de aparências nas redes sociais. Hoje eles são ainda mais rápidos. Por isso virou um surfista dos bons. Mesmo sem nunca mais ter subido em uma prancha.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Tratamento
Um primeiro diz: "bagunceiro é você!". E age: Tum, poh!!!. Outro desabafa: "você é um banana e não é guarda da urna!" E ouve a resposta do colega: "banana é você, banana é você!" Hoje é tudo você, você, você! Não se usa nem mais Vossa Excelência para xingar. Esses deputados estão mesmo muito mal-educados...
Modernidade
O moderno vive em renascimento, para se tornar pós-moderno e depois renascer, contemporâneo.
Maledicência
Falar mal de alguém pelas costas é uma forma, ainda que indireta, de se fazer bullying.
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Soldado
Senti-me um palestino sob suspeita. O segurança da escola era um israelense bastante seguro de suas convicções. Como são tantos formados em um clima de desconfiança e sob uma armadura de certezas e praticidade. Isso é assim, aquilo é assado...O olhar duro sempre me perseguia no momento em que eu buscava o meu filho no portão. Talvez se irritava com meu estilo um pouco desajeitado, com alguns questionamentos ingênuos, que podem significar um desvio na conduta rígida em que ele foi moldado. Ele gostava de encontrar uma acusação sutil para mostrar sua razão, baseada em convicções que pareciam límpidas em sua mente. Era, no fundo, um conflito conceitual. Acusava-me de demorar para entrar com o meu menino no carro. E eu, esbaforido, via aquele homem de blusão solto, calça larga e tênis táticos, de borracha, se aproximar, com o rádio na mão. Enquanto isso, buscava quebrar recordes mundiais nessa modalidade, colocava rapidamente a criança, jogava a mochila, fechava a porta com precisão, dava a partida e...vinha ele, antes de eu acelerar, dizer que eu estava demorando, que a fila tinha de andar. Sem um pingo de reconhecimento. Uma vez, busquei uma trégua, falando sobre definições religiosas, mas ele, como sempre, foi duro. Com olhar de aço, confirmando o estilo militar dos cabelos raspados nas laterais, tentou esvaziar o que eu falava. E disse: “eu já sabia disso, no exército os soldados costumam brindar dessa maneira”. Não me dava moleza. Via-se guardião da verdade humana, de forma simplista. Imaginei que em algumas vezes soldados israelenses, no direito de Israel de se proteger, podem tratar assim alguns palestinos, antevendo neles a desordem e, com esse conceito, sentindo-se com o dever de expulsar, de rechaçar, de dizer que sabiam como os outros eram e por isso agiam dessa maneira. Até que, outro dia, quando deixei o carro para ir ao banheiro no hall da escola, o flagrei na volta em frente ao meu carro. O horário da saída, por alguns minutos, ainda não havia chegado. Era permitido estar ali estacionado. Mas ele já formara sua sentença. Imaginou que eu deixara o veículo lá, subversivo, sem dar a mínima para a fila que se formava atrás. Mil afirmações se multiplicavam em sua cabeça, enquanto “secava” o carro, me recriminando por eu estar longe. Sem perceber que eu voltara, com o meu pequeno. Bem ao seu lado, bem antes do tempo. Observando-o, só esperando ele sair para que eu pudesse entrar. Foi doloroso constatar sua surpresa ao me ver. Um sorriso amarelo se desenhou por trás daquele rosto outrora imperturbável. Ele corou. Um pouco, mas corou. Senti compaixão por aquele rubor. Quem era ele? Com quem morava? Sobre o que conversava? O que teria perdido por aí na vida? Quem guardava no porta-retratos de sua cabeceira? Pensei que ele poderia amar a noite e se lembrar de algo triste com as chicotadas dos raios de sol. Ou o contrário. Emergiu a fragilidade das dúvidas que ele tanto buscava ofuscar em seu método pragmático. Intuí a cultura de quem tem medo de ser atacado. E precisa se mostrar imperturbável. Descobri que, por mais treinado, ele poderia ter pânico, que sentia frio, que sentia fome. Que sentia um vazio em vários momentos. E que não encontrava técnica para resolver isso. Pela primeira vez, o peguei desarmado. Senti-me um palestino sob suspeita, que escapa por pouco. No justo momento em que se antecipa a uma abordagem belicosa. E fiquei satisfeito. Fosse mesmo eu um palestino, e o soldado me olhasse revelando sua alma, teria encontrado a chave que resolveria tudo. Em vez de guerrear com ele, eu lhe daria o meu abraço.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Caminhada
Traição. Mesquinhez. Falta de educação. Egoísmo. O vencedor é aquele que não se abala com os absurdos do dia-a-dia. Sem, no entanto, aderir a eles.
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