segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Desarmadas
Duas moças conversavam na mesa da doceira. Roupas modernas elegantes, se diferenciavam não só pela tinta loira de uma em relação ao castanho escuro dos cabelos longos da outra. Debatiam, com classe, sobre ideologias e sistemas de governo. Entre um ecláir e um café, a loira defendia arduamente o socialismo. Dizia que não há outra maneira de encontrar a justiça social, sem descambar para o individualismo faminto que o dinheiro atiça. A outra, em tom educado, não teve como bradar as vantagens da engrenagem monetarista apenas pelo lucro para não parecer desumano. Mas defendeu seu regime - não de ecláir - afirmando que o capitalismo é o ideal se tiver pagamento de impostos, produção, igualdade, emprego, inclusão, educação e saúde a toda a população. E logo em seguida, como se antecipando a uma verdade inabalável, completou. "Sem corrupção, sem corrupção. E sem ganância pelo poder". Manteve uma fala completamente desarmada, respeitando a opinião da amiga. E se protegendo de uma acusação de se render ao poder financeiro em detrimento da justiça social, um tanto constrangida com o teor humanitário da interlocutora. Somente esse desarme já é algo que o socialismo tem de bom.
Palavras
Para ele palavras falam e calam
Em um bosque encantado
Em uma caverna sem luz
Resvalam
Se falam, são um quadro impressionista
Van Gogh em seu retrato na solidão
Olhar impressionista, estático, introspecção
Precisa forma de expressão
Quando as palavras, mesmo poucas,atingem essa dimensão
Mas as que calam, consentem em esconder
Aquilo que não aparece, mas que tem poder
Se ele faz poesia dizem que só é poeta
Se sair do script vira pateta
O sábio da moda é como um profeta
Não erra, não chora e não reclama
Olha eu entrando no rótulo que a palavra inflama
Se escreve prosa
É todo prosa
Se falha, mergulha num obituário
Esquecem o que ele fez, não pagam o seu salário
Como um zagueiro que errou
Tem de ir à igreja confessar que pecou
Dizem a ele que parece cansado
Parece mesmo, mas muito mais contrariado
Imagem pouco fecunda
De uma emoção um tanto profunda
Que não se resume ao que aparenta
Nem à avareza que enfrenta
Ele anda contra o vento
Mundo de frases sem sentimento
Palavras que chocam, tocam, evocam
Verdades que muitos deslocam e trocam
Pela festa no apê
O gosto do patê
A negociação, o acúmulo
A ilusão do infinito
Entre a vida e o túmulo
Pífias conversas de botequim
Longo desfile da manequim
As formas e farsas
Das piadas sem graça
Tudo passa, a vida, o canto
A loucura e o acalanto
Ficam marcas de instantes
Sugerem um mundo intrigante
Na música de Louis Armstrong
Nos ossos do vietcong
Na noite que envolve a cidade
No silêncio, na eternidade
Palavras anseiam por segurança
Vagam em becos de esperança
Aos mistérios, homens se rendem e clamam
Órfãos de resposta, se cansam
De esperar por um sentido
Daquilo que as palavras não alcançam
Em um bosque encantado
Em uma caverna sem luz
Resvalam
Se falam, são um quadro impressionista
Van Gogh em seu retrato na solidão
Olhar impressionista, estático, introspecção
Precisa forma de expressão
Quando as palavras, mesmo poucas,atingem essa dimensão
Mas as que calam, consentem em esconder
Aquilo que não aparece, mas que tem poder
Se ele faz poesia dizem que só é poeta
Se sair do script vira pateta
O sábio da moda é como um profeta
Não erra, não chora e não reclama
Olha eu entrando no rótulo que a palavra inflama
Se escreve prosa
É todo prosa
Se falha, mergulha num obituário
Esquecem o que ele fez, não pagam o seu salário
Como um zagueiro que errou
Tem de ir à igreja confessar que pecou
Dizem a ele que parece cansado
Parece mesmo, mas muito mais contrariado
Imagem pouco fecunda
De uma emoção um tanto profunda
Que não se resume ao que aparenta
Nem à avareza que enfrenta
Ele anda contra o vento
Mundo de frases sem sentimento
Palavras que chocam, tocam, evocam
Verdades que muitos deslocam e trocam
Pela festa no apê
O gosto do patê
A negociação, o acúmulo
A ilusão do infinito
Entre a vida e o túmulo
Pífias conversas de botequim
Longo desfile da manequim
As formas e farsas
Das piadas sem graça
Tudo passa, a vida, o canto
A loucura e o acalanto
Ficam marcas de instantes
Sugerem um mundo intrigante
Na música de Louis Armstrong
Nos ossos do vietcong
Na noite que envolve a cidade
No silêncio, na eternidade
Palavras anseiam por segurança
Vagam em becos de esperança
Aos mistérios, homens se rendem e clamam
Órfãos de resposta, se cansam
De esperar por um sentido
Daquilo que as palavras não alcançam
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
Alguém
Surge um jovem de calça rasgada, olhar amarrotado
Perambula na rua, descamisado
Na calçada agacha e repousa sentado
Na mureta do prédio apoia o corpo cansado
Em plena manhã gente passa ao seu lado
Indiferente, irritada, está acostumado
Ele não liga nem se faz de rogado
O que importa se o bairro é de endinheirado?
A cracolândia tá longe, ônibus tava lotado
Barba por fazer sem banho tomado
Perdeu o sentido, vê o futuro manchado
Tristeza acende a dor do passado
Pai e mãe o largaram abandonado
Desligou-se do mundo, ficou meio pirado
Já vê que com a morte tem encontro marcado
Agora ou depois, caminho traçado
Só sobrou o bagulho que comprou fiado
É isso que o faz ficar concentrado
Atormentado, ensimesmado, descabelado, chapado, mamado
Obcecado, acha inútil o atarefado
Esqueceu que um dia foi apaixonado
Pela moça da esquina, um sonho encantado
Esqueceu-se de tudo, de que foi amado
O sonho deixou seu coração rasgado
Aprisionado, sufocado, atarantado, azarado, fissurado
As pessoas, a vida, é tudo furado
Não espera mais nada, está isolado
Tira do bolso o papel amassado
Na mão o embrulho de erva fechado
Mostra perícia de alguém preparado
Nem percebe o dia ensolarado
O sol dentro dele está ofuscado
Ele enrola em silêncio o seu baseado
Dá um trago, um pigarro, peito congestionado
Entediado, explorado, desesperado, desmiolado esse descamisado
Do sorriso abafado
Do grito calado
De plano mutilado
Acabado, apagado, vagabundo condecorado
No tempo parado, já não sabe se é
Coitado ou culpado
Perambula na rua, descamisado
Na calçada agacha e repousa sentado
Na mureta do prédio apoia o corpo cansado
Em plena manhã gente passa ao seu lado
Indiferente, irritada, está acostumado
Ele não liga nem se faz de rogado
O que importa se o bairro é de endinheirado?
A cracolândia tá longe, ônibus tava lotado
Barba por fazer sem banho tomado
Perdeu o sentido, vê o futuro manchado
Tristeza acende a dor do passado
Pai e mãe o largaram abandonado
Desligou-se do mundo, ficou meio pirado
Já vê que com a morte tem encontro marcado
Agora ou depois, caminho traçado
Só sobrou o bagulho que comprou fiado
É isso que o faz ficar concentrado
Atormentado, ensimesmado, descabelado, chapado, mamado
Obcecado, acha inútil o atarefado
Esqueceu que um dia foi apaixonado
Pela moça da esquina, um sonho encantado
Esqueceu-se de tudo, de que foi amado
O sonho deixou seu coração rasgado
Aprisionado, sufocado, atarantado, azarado, fissurado
As pessoas, a vida, é tudo furado
Não espera mais nada, está isolado
Tira do bolso o papel amassado
Na mão o embrulho de erva fechado
Mostra perícia de alguém preparado
Nem percebe o dia ensolarado
O sol dentro dele está ofuscado
Ele enrola em silêncio o seu baseado
Dá um trago, um pigarro, peito congestionado
Entediado, explorado, desesperado, desmiolado esse descamisado
Do sorriso abafado
Do grito calado
De plano mutilado
Acabado, apagado, vagabundo condecorado
No tempo parado, já não sabe se é
Coitado ou culpado
sábado, 26 de dezembro de 2015
Surfe
A notícia sobre a morte da Rita Lee chocou o menino naquela manhã em Santos. Soube no apartamento, antes de ir para a praia com os pais e os tios. Estava aprendendo a surfar sobre a velha prancha gigante de isopor, que ganhara na semana anterior.Temeu que a notícia o deixasse abalado a ponto de não conseguir se concentrar na estreia. Ele adorava a cantora ousada, cujas músicas foram a trilha de sua rotina de férias.A prancha era rosada e ampla, quase do tamanho de uma oficial. Seu interesse em se colocar de pé sobre ela se deveu a dois motivos: primeiro, porque ele estava cansado de sair do mar com a pele toda irritada por causa do atrito de seu corpo com a superfície, em breves experiências anteriores.Depois, era a forma com que ele via aqueles jovens espertos, de cabelos longos, peles douradas, bermudões e frases descoladas, trocando o você por tu, se equilibrarem em pedaços de acrílico para superar o mar.Ele ficava espantado ao ver as silhuetas, à distância, funcionarem como sombras divinas de pequenos reis do mar se destacando na linha do horizonte. Tinha a certeza de que se equilibrar na água era como se equilibrar na vida. E saber, com calma, paciência e auto-controle, não se afogar nas ondulações do dia-a-dia.Já na praia, quando ele caminhava pelos guarda-sóis em direção ao mar, recebeu um estímulo enquanto pensava na triste notícia. Um homem, pra agradar-lhe, disse: "Ô garoto, o mar tá bom, você vai fazer a festa..." Era fim de ano e a música "a festa é sua, hoje a festa é nossa", que ele ouvia em sua TV Philco preto e branco, à beira da cama, ficou em sua mente. Ele se sentiu orgulhoso, incluído. Correndo com ela na mão, pensou: "ser surfista é isso". Aventurou-se, mesmo que não tivesse ninguém para ajudá-lo, nem ensiná-lo. Tentava, tentava, até desistir e voltar para a barraca, para desabafar suas mágoas na delícia de uma queijadinha. E no sonho de um dia conseguir fazer a festa...Somente vários dias depois, soube que a notícia da morte da cantora era falsa. Já tinha trocado o surfe pelo jogo de bola. Talvez descrente de que pudesse se manter de pé no mar. Rendido ao boato de que não poderia se segurar diante das incertezas, das inseguranças, das mentiras alheias. O que ele não sabia, porém, é que as braçadas iniciais já haviam sido dadas. Foram as primeiras aulas de como se deve surfar a cada dia sobre os boatos da vida, tão espalhados em um mundo frenético de indiferença e de aparências nas redes sociais. Hoje eles são ainda mais rápidos. Por isso virou um surfista dos bons. Mesmo sem nunca mais ter subido em uma prancha.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Tratamento
Um primeiro diz: "bagunceiro é você!". E age: Tum, poh!!!. Outro desabafa: "você é um banana e não é guarda da urna!" E ouve a resposta do colega: "banana é você, banana é você!" Hoje é tudo você, você, você! Não se usa nem mais Vossa Excelência para xingar. Esses deputados estão mesmo muito mal-educados...
Modernidade
O moderno vive em renascimento, para se tornar pós-moderno e depois renascer, contemporâneo.
Maledicência
Falar mal de alguém pelas costas é uma forma, ainda que indireta, de se fazer bullying.
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