quinta-feira, 14 de abril de 2016

Amigo

Eis que o vejo andando lentamente
Naquela mesma esquina da cidade
Onde tomávamos cerveja na juventude
Olhando as moças circularem livremente

Falávamos da vida, dos perigos e esperanças
Você mostrava no olhar a sua criança
Em busca de compreensão para tanta aflição
Sem muito tempo para ouvir em suas andanças

E eu bebia meus goles de idealismo
Também menino um sonho acalentava
De um dia ver toda aquela gente
Acordar do pesadelo do egoísmo

Então nós nos perdemos no caminho
Seguindo o mesmo empirismo do destino
E na trilha do passado ao presente
Entendi que o ser sempre anda sozinho

Você está velho e percorre a mesma esquina
De sandália, camisa solta e pele flácida
Passos lentos sem sair da nossa origem
E um olhar cavo que ainda se fascina

Lá de longe o observo no velho bar
Velhos gestos e me lembro como hoje
Não converso, não o chamo, só percebo
Sua insistência sempre pronto a indagar

Como fazer para conseguir sempre vencer
Como jogar sem nunca se decepcionar
Eu o amava, meu amigo, pelo que você era
E também pelo que deveria, e poderia, ser

domingo, 3 de abril de 2016

Melodias

Ela sempre vinha lhe sussurrar bom dia
Com sono na cama, do rádio-relógio ouvia
Espalhar-se pela casa o segredo da melodia
Que o fazia pensar em tudo que queria
E ter a impressão de que tudo podia
Instantes de encanto, na manhã que se abria
Pelo acúmulo das épocas, lembranças trazia
A caminho da escola, a cidade reluzia
Fosse I Want to Break Free ou a Gal da Bahia
Quando corre agora, as vozes vêm em mente
A trilha do que passou e de tudo à sua frente
A canção do passado na emoção do presente
Tudo volta em um sopro, reaparece de repente
Ele corre pela rua, olha o céu onipotente
Um mistério infinito, um ouvinte e bom amigo
Quadrante de onde revê o menino atrás de abrigo
Envolvido por acordes, sonhando com algo antigo
A se acalmar no ipod, cantando apenas consigo
No som de Journey e de Asia, liberdade sem perigo
Deitado na cama ouvia, da sala um som soberano
A mãe conversava com a noite dedilhando ao piano
E vem Play de Game Tonight, ele sabe onde ir
Entra em cena o escudo que não o deixa se ferir
Em True era herói de cinema, valorizado a intuir
Sua força retraída, convencendo-o a sair
Em busca do que queria, do direito de existir
Até a namorada sonhada ele podia seduzir
Flashbacks que ele sabe de cor, Don't you love me any more
E ele corre no tempo, na manhã de suave vento
Folhas caem ao relento e navegam no cimento
O hoje também envolve, Every Breaking Wave é sentimento
Vislumbra do sofá as estrelas, entra em cada apartamento
Percorre os rastros do mundo, pelas luzes do firmamento
Boa voz, bons ouvidos, bons fluidos, o divino e o perfeito
Na memória e na esperança, que não morrem nem no leito
Enquanto estiver em seu peito, o enleio terá efeito
De libertá-lo por campos e prados, de sentir-se o eleito
Onde quer que possa estar na hora em que partir
Será novamente o menino querendo se exibir
Estará vivo, feliz e pulsante, na teimosia em resistir
Se tiver o ar pra respirar e uma música para ouvir

segunda-feira, 21 de março de 2016

Ganho

Quando menino, o seu ideal era provar a si mesmo que toda gente era boa. Adulto, ele já se satisfaz com a conclusão de que pelo menos nem toda a gente é má.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Aceno

Respiro o ar da cidade
Na quarta-feira sobre o viaduto
Lá embaixo os carros passam
Eu olho as árvores, um luxo
O sol resplandece nos prédios
Como meu amor em mim
De manhã se despediu
Com perfume de jasmim
E o aroma ficou no meu corpo
Enquanto vago por meu destino
Será isso um desatino?
Lembrar já é sopro divino
Um vento que vem do horizonte
Lá na serra da Cantareira
Por trás da fumaça cinzenta
Vejo rios e uma cachoeira
Vou andando pelo mundo
Esqueci quem me despreza
No semblante de quem passa
Um desejo, uma reza
O farol fecha, dou um tempo
Ouço a brecada, um momento
Crianças filhas de mendigos
Brincam em busca de um alento
Na balbúrdia um sentimento
No coração uma mensagem
Do amor que me acena
E me faz seguir viagem

terça-feira, 8 de março de 2016

Imagem

De novo, o metrô. A linha verde estava esvaziada. De pé, sentia o conforto do ar condicionado e seu sopro polar. O vagão em trânsito estava isolado do calor que torrava a cidade. Era como se viajássemos em um simulador, pelo tempo e pelo espaço. Vejo então meu reflexo surgir no vidro da porta automática. Passeio em velocidade, diante da imagem olhando em minha direção. O túnel escuro dá contornos verdadeiros àquela forma que se movimenta do lado de fora. Também com o braço direito erguido, a segurar a barra de ferro. Penso que estou diante de minha alma, sorrindo um sorriso irônico. Ouço por telepatia a pergunta: quem é você? Em transmutação quântica, ela chega aos meus ouvidos: quem sou eu? Até que estou bem. Penteado, cara limpa, bermuda esportiva e camisa moderna. Revigorado com a corrida pelas ruas da Bela Vista, olhando o sol se espraiar por entre nuvens e edifícios. Um retrato próprio nesta data: 7 de março de 2016. Seguro uma mochila que vai balançando durante o diálogo silencioso. Paraíso, Ana Rosa, Chácara Klabin...Permanecemos nos encarando, em olhares de amor conflituoso, até a chegada à estação. A porta se abre. Eu saio. Em busca de respostas. Para dentro de mim mesmo.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Espectros

Na velhice a gente é espectro do que a gente foi. Na infância a gente é espectro do que a gente vai ser. De espectro em espectro, a gente é.

Pedestre

Corre, corre, lá vem o carro
Corre, corre, sem parar
Corre, corre, ele vem de longe
Corre, corre, a acelerar
Corre, corre, você tá na faixa
Corre, corre, sem tropeçar
Corre, corre, não vá atrapalhar
Corre, corre, ele vai te atropelar