Registro em poucas palavras que Sidney Sheldon e Robert Sherwood tinham muito em comum. Viveram em um mesmo momento suas visões idealistas e construtivas do mundo. Um mundo difícil, corroído pela guerra, pela vaidade hollywoodiana, humana. Eles souberam superar isso com leveza, inteligência e amor pela vida. Sheldon foi um roteirista criativo, tendo, constantemente, que reinventar histórias e se reinventar diante das adversidades. Sherwood também era roteirista e, por conta de suas obras, foi parar na Casa Branca para escrever os discursos de Roosevelt. Escreveu com maestria e humildade a obra-prima Roosevelt & Hopkins, que abordou toda uma época, revelou vínculo de confiança do poder, se aprofundou em uma amizade, colocando-se acima da política. Antes de ganhar o Pulitzer pelo livro, Sherwood ganhou o Oscar em 1947, com o roteiro de Os melhores anos de nossas vidas. Sheldon ganhou o Oscar em 1948, com O Solteirão Cobiçado. Ambos, coincidência ou não, foram figurantes no filme Os três xarás, do qual Sheldon foi roteirista. Pareciam apenas se satisfazer em realizar seus trabalhos como protagonistas longe das telas. Em sua autobiografia, Sheldon cita vários colegas e amigos: Cary Grant; Ladislas Bush-Fekete; Bob Roberts; Louis Calhern; Groucho Marx...Esqueceu-se de Sherwood. Talvez não o conhecesse bem. Talvez ambos não tivessem noção daquilo que os ligava de maneira tão forte, daquela união tácita formada por convicções, ideais e obras. Entretanto, eram companheiros de era, esse tipo de amigo não-declarado que ajuda com sua empatia, com a energia da própria presença. Talvez, porque pareciam ser íntimos um do outro – o que não seria estranho. Fica o registro deste roteiro de uma história sem falas, que ganharia o Oscar do cinema-mudo num filme que poderia muito bem se chamar Sheldon & Sherwood.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Erudição
Desconfio de análises cheias de informações presunçosas; contraio os lábios e franzo a testa quando leio articulistas impondo suas palavras, mostrando o que consideram erudição, falando com intimidade da sociedade egípcia, do destino líbio, do futuro da humanidade. Depois, eles terminam a exposição de seus conhecimentos dizendo mais ou menos o seguinte: “Esta é a verdade”. E eu viro a página.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Scriar
Um escritor não deveria nunca ter infecção hospitalar. Já que isso não acontece, devido à petulância dos micróbios, que pelo menos eles fiquem sabendo que seu poder é limitado. Conseguem penetrar nos pulmões, como em divertido salto em túneis de vento; correr livremente pelos trilhos das artérias e até alojar-se nas fendas da meninge. Não podem, no entanto, destruir o poder criativo que emana daquele corpo, volátil, mas concreto em seu conteúdo vivo, de onde cidades são povoadas, campos são visitados, figuras emblemáticas interagem em um mundo imaginário tão próximo mas também tão inalcançável. Mesmo que atinjam seu cérebro, é inútil tentar destruir as reações neurológicas que criam histórias de amor e drama, que inventam sorrisos, matam vilões, constróem heróis. Sua pele está abatida, mas ainda é suave. Seu olhar mantém o jeito tímido de criança indefesa. O brilho cintilante permanece puro e intenso. No leito, a boca semi-aberta indica dificuldade de respiração. Mas todo o seu passado, todas as palavras silenciosas exalam intactas daqueles movimentos ofegantes. No seu coração fragilizado, ainda pulsam com força os pensamentos, os ideais, os sentimentos. E do ar que silva tíbio de seus lábios, a emoção emana acumulando-se em um tufão. Então se vê que a infecção foi derrotada. Não destruiu o mais importante. Então o escritor se torna quase divino, ressurge nas nuvens como um imortal. E deixa como legado a ideia de que ele é um ser asséptico. De que o amor é asséptico.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Faces
O que está por trás das palavras ditas ou escritas? Provavelmente é o mesmo que está por de trás de um clique no computador. Derridá, Barthes e Foucault, pela semiótica e epistemologia, desvendam um mundo desconhecido das análises gramatical e sintática de um discurso. Freud faz o mesmo ao trabalhar com os mistérios do inconsciente. E o Facebook? Esta rede social que ganhou força na Internet traz em si aspectos sociais e humanos que podem revelar muita coisa. Ou permanecer apenas como uma superficial rede de contatos, para aqueles que não conseguem mergulhar no desconhecido, se afastando das idéias padronizadas. Então, o mural de cada página se torna algo monótono, pela dificuldade de se decifrar as reais intenções de frases banais e corriqueiras. Outro dia, uma situação emblemática aconteceu. Um membro judeu recebeu dois pedidos de inclusão em sua página. Um era de um ex-chefe, não-judeu, de caráter aberto, mas pretensioso. Outro era de um judeu ortodoxo, que, mesmo antes de se tornar religioso, primava por um aspecto segregacionista em suas frases, sorrisos e gestos. Engraçada essa característica do Facebook. Pode-se colocar lado a lado, virtualmente, pessoas que fazem parte de uma vida, mas que nem se conhecem. O requisitado, que já foi recusado por outros conhecidos em outros pedidos de amizade virtual, titubeou em aceitar as solicitações. E decidiu por não colocá-los no rol de amigos. Mostrou nessa atitude ainda não estar amadurecido para superar certas mágoas. Do-ex chefe, pela pretensão e arrogância. Do colega judeu, por sentir-se permanentemente avaliado. Percebeu que neste espectro entrou muita coisa de sua história, relacionada aos caminhos de sua religião, de sua comunidade, de sua mente e de sua emoção. Cada pedido de amizade e cada rosto estampado nesse portal comunitário, no fundo, dizem respeito a vários sentimentos que passeiam por nosso interior. Um clique comunica muito do que sentimos e às vezes não percebemos. Uma pessoa que imaginamos não ter afinidade no dia-a-dia pode revelar mil características ao solicitar sua amizade na Internet: timidez, pressões da vida que a deixam acabrunhada, ou qualquer outra nuance, que esconde um desejo de contato ou até uma admiração. Diante desta riqueza de detalhes, quem souber utilizar bem esse instrumento, terá uma amostra de seus próprios conflitos e contradições existenciais. O Facebook, então, deixará de ser o livro das faces, dos rostos, da aparência apenas social e se tornará um livro das almas, um retrato do que somos para nós e para o mundo real.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Escravidão
Um ex-marido pode lembrar-se com carinho do sorriso da ex-esposa, naqueles tempos em que só sabiam brigar. Um ex-jogador ganha ares de humildade, supera rivalidades, não quer ser esquecido pelo furacão do tempo. Um ex-funcionário olha para o ex-chefe, homem ainda carrancudo, e não se arrepende de ter saído da empresa. O termo ex é sinônimo de sabedoria. Vem de eghs, fora, no indo-europeu. E de fora das situações, a visão é mais ampla. O coração pulsa mais puro. O olhar é mais acolhedor. Uma lágrima se permite emergir. A natureza, porém, foi sábia. Tirou do vocábulo o alcance ilimitado. Há situações em que a sabedoria tem de correr no presente. Há momentos em que o ex se perde no tempo, tornando-se escravo do passado e do futuro. E nos tornando escravos da realidade. É o rosto que nos persegue no espelho, a verdade impregnada em nossa consciência. Vem tão de dentro que nem a morte é a fuga. Nela, até podemos ser ex-vivos. Mas não existe ex-filho, ex-pai, ex-mãe. Dessa responsabilidade não podemos sentir saudades. O gesto de compreensão tem de ser quase imediato. A exigência é grande, quase divina, mas não há escape porque jamais seremos nossas sombras, nossas ilusões ou descaminhos. Tampouco seremos ex- nós mesmos.
Contradições
Os bajuladores te cansam. Os invejosos te boicotam. Os omissos te abandonam. Os admiradores te aplaudem. Os companheiros te acompanham. Os sinceros te orientam. E os amigos? Te cansam, te boicotam, te abandonam, te aplaudem, te acompanham, te orientam.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Natal
Levantou-se do divã e se despediu do psicanalista com algo que nunca havia falado nos anos de análise. “Feliz Natal”. Era antevéspera deste importante feriado. Mas não foi só por isso que ele soltou a frase. Haviam descoberto coisas importantes. É como se uma nova criança nascesse por um sopro de luz do céu, trazendo novos paradigmas de Salvador. A sala se tornou um presépio. O divã, uma manjedoura. O psicanalista, com seu cajado e o bigode branco, era um misto de profeta, anunciador de uma era, e de pastor, em sua humildade de observador pronto para servir. O nascimento de alguém, um ser frágil e dependente, é um ato que remete mesmo a um cenário de humildade. Como um estábulo simples, mas caloroso, símbolo que resiste à ganância e perversidade humanas através do suplicante balido do carneiro, do olhar dengoso de uma ovelha e do choro vital de uma criança. Impulsionado por novas possibilidades, ele deixou a sala rumo ao século XXI, mecanizado, tecnológico, urbanizado. Desceria por um elevador moderno. No frenesi da rua cheia de carros, não sabia se encontraria reis magos inebriados pela luz da estrela que anunciou este nascimento. Nem se deles receberia presentes, como incenso, ouro e mirra. Ele só queria proteger suas retinas da claridade insensata do mundo. Precisava de um alívio para sua indignação. Chegara o momento de enxergar algo por de trás dos gestos competitivos e insanos das pessoas. Um pouco de paz na terra e homens de boa vontade.
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