quinta-feira, 5 de maio de 2011
Juramento
Há muitos médicos que mancham a pureza da roupa branca. A moda para eles é a ambição, os compromissos, os negócios que fazem com a profissão. Sentem-se incomodados quando um paciente adentra no corredor do hospital, aflito. Os consideram inoportunos e hipocondríacos. Quando estes pacientes telefonam em horário inapropriado, então, nem se fala. “Agora estou em um compromisso social”, disse um deles, desligando na cara da esposa de um senhor com câncer. Do juramento de Hipócrates e na tradição de Asclépio, emana a necessidade da compreensão da essência humana acima de tudo. A doença, ou a ameaça dela, afinal, pode fazer fortalezas humanas sucumbirem diante da dor. Ao médico cabe acolher os vulneráveis, os colocando acima até de seus interesses pessoais, da pressa cotidiana, das dificuldades da profissão. O chavão “já não há mais médicos como antigamente” está cada vez mais adequado aos tempos atuais. Meu pai era médico. Ele não era assim. Atendia com humildade. Cometia deslizes, mas, introspectivo que era, remoía-se em remorsos diante do mais ínfimo erro e tentava aprender com ele. Como se seus deslizes fossem seus pacientes. Ele era um médico de família, função rara hoje em dia, principalmente de famílias pobres. Meu pai era um verdadeiro médico. Um médico compreensivo, humano, tolerante com a dor alheia. Ele ouvia atentamente as queixas, franzia o cenho de tanta concentração. Não ficou rico com isso. Mas partiu com honra, sem macular a roupa branca. Meu pai era um médico dos bons. Ele era um médico paciente.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Natureza
O Barcelona marca como uma neblina densa no campo; toca a bola como uma brisa intermitente e ataca como as rajadas de um furacão. Mostra que o futebol em sua plenitude também é uma força da natureza.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Entardecer
Fim de tarde na praia deserta. Ele brincava com o menino e sentiu a imagem de ambos se envolver no cenário paradisíaco. Ao fundo, um horizonte laranja, temperado por nuvens rosas e um toque azul do céu. À sua frente, o olhar da criança, de pele clarinha e olhos pretos, que corria de lá para cá, à beira-mar, chutando uma bolinha colorida, feita de borracha pesada. E o verde da mata que circundava a areia bege dava uma coloração final à cena.
Ele contemplava tudo como se observasse um quadro de Monet, em que as cores impressionistas mesclavam-se e se transformavam em sonho. Ao mesmo tempo, participava da brincadeira. Dizia para o garotinho sorridente. “Olha para a bola”. E ele às vezes acertava um chute certeiro para o alto, com sua canhotinha lisa, atingindo uma altura invejável para seus pouco mais de dois anos. Num dos chutes, a bola caiu no mar, sob o segredo das ondas brancas. A criança então criou uma história. “A bolinha ficou no mar, os peixes estão brincando com ela”. Mesmo assim, insistiu em procurá-la, insatisfeito com a perda e curioso em relação aos mistérios que o oceano propicia. Onde fora parar aquela bolinha? O homem pediu que ele voltasse à areia. Estava ficando um tanto fundo. O menino, contrariado, não obedeceu. E para evitar maiores riscos, ele teve de entrar na água, de tênis, sem deixar de dar uma leve reprimenda na criança. Alçou seu corpo no colo e ouviu a voz fininha em harmonia com o som da maresia. “Os peixes estão com ela”. Lembrou-se que a bolinha tinha traços coloridos, com as mesmas cores que os cercavam: verde, rosa, laranja, azul e bege: mata, nuvem, horizonte, céu e areia. Não era coincidência. Era como a energia nuclear. Carregada de intensidade concentrada, a bolinha tinha muito dos dois, pai e filho. Ela ficou por lá, pequeno núcleo de cores, marcada de amor, alegria, esperança e força vital. Como um poema colorido. Como um quadro impressionista ou a página de uma história qualquer. No fundo do mar, para todo o sempre, ficou um pedaço daquela tarde.
Ele contemplava tudo como se observasse um quadro de Monet, em que as cores impressionistas mesclavam-se e se transformavam em sonho. Ao mesmo tempo, participava da brincadeira. Dizia para o garotinho sorridente. “Olha para a bola”. E ele às vezes acertava um chute certeiro para o alto, com sua canhotinha lisa, atingindo uma altura invejável para seus pouco mais de dois anos. Num dos chutes, a bola caiu no mar, sob o segredo das ondas brancas. A criança então criou uma história. “A bolinha ficou no mar, os peixes estão brincando com ela”. Mesmo assim, insistiu em procurá-la, insatisfeito com a perda e curioso em relação aos mistérios que o oceano propicia. Onde fora parar aquela bolinha? O homem pediu que ele voltasse à areia. Estava ficando um tanto fundo. O menino, contrariado, não obedeceu. E para evitar maiores riscos, ele teve de entrar na água, de tênis, sem deixar de dar uma leve reprimenda na criança. Alçou seu corpo no colo e ouviu a voz fininha em harmonia com o som da maresia. “Os peixes estão com ela”. Lembrou-se que a bolinha tinha traços coloridos, com as mesmas cores que os cercavam: verde, rosa, laranja, azul e bege: mata, nuvem, horizonte, céu e areia. Não era coincidência. Era como a energia nuclear. Carregada de intensidade concentrada, a bolinha tinha muito dos dois, pai e filho. Ela ficou por lá, pequeno núcleo de cores, marcada de amor, alegria, esperança e força vital. Como um poema colorido. Como um quadro impressionista ou a página de uma história qualquer. No fundo do mar, para todo o sempre, ficou um pedaço daquela tarde.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Apaixonados
Discussões infantis sobre lances interpretativos. Acusações baratas de ambos os lados. Torcedores que quase agridem um sósia do árbitro do jogo. Clima de guerra e mentalidade tribal transitam facilmente entre o Real Madrid e o Barcelona, dois clubes tidos como os mais requintados, verdadeiros modelos a serem seguidos, numa demonstração de que apenas glamour aparente não é suficiente, tampouco as receitas de cerca de 300 milhões de euros anuais das duas agremiações. Algo longe das cifras está sendo demonstrado neste ninho de maledicências. É o lado nocivo do futebol nos últimos tempos, em que os ânimos e os números afloram enquanto os participantes do espetáculo se tornam gladiadores na luta pela sobrevivência, envolvidos pela torturante necessidade de ganhar ou ganhar. Isso não é apenas paixão, termo utilizado por muitos como desculpa para justificar as misérias humanas no futebol. Isso é algo muito pior que a paixão, no meu entender, um sentimento nobre e generoso, apesar de intenso. Um escritor certa vez disse, com sabedoria, que futebol é elegância. Mas não a elegância no vestir, no design dos uniformes, na suntuosidade da sala de troféus, na manutenção do patrimônio, nos investimentos astronômicos. Entendi como outro tipo de elegância. Aquela em que ganhar ou perder faz apenas parte de um jogo, aquela em que o adversário não simboliza um inimigo, mas um companheiro respeitável, ponte e estímulo para a própria superação rumo à vitória e humildade diante da derrota. Sou romântico. A paixão é romântica.
Labirinto
Ele não gaguejava como canhotos que foram obrigados a se tornar destros, mas mesmo assim sentia uma faca no pescoço ao falar com os outros. Não fora violentado no passado, mas vivia um mundo de horrores no presente. Sofrera espécies de violências brancas, fragmentadas, involuntárias e silenciosas. Seu mundo então se tornou fragmentado. Tinha aspectos de esquizofrênico sem que seu quadro revelasse isso. Era neurótico, mas aparentava normalidade. Suas mazelas eram subjetivas para o mundo das aparências, mas reais para ele. Não tinha diagnóstico. Apenas buscava uma saída.
Olhar
Na porta da Abadia de Westminster, o príncipe William e sua esposa Kate, agora duquesa, se entreolham logo após se casarem. Um sorriso límpido está estampado em suas faces. Uma luz de prazer e satisfação emana de seus olhares. Mesmo com aqueles trajes tradicionais e o longo véu de noiva, estão desnudos pelo amor. Parecem isolados em uma redoma, unidos por um vínculo inquebrantável, surdo a toda a multidão que os ovaciona, a todos os rituais tradicionais da monarquia e a toda a pressão em torno do casal real. Um casamento é verdadeiramente real, quando prevalecem o afeto e o companheirismo sobre o mundo exterior e sobre certos padrões sociais. Do olhar inebriado dos noivos, emerge a essência humana, verdadeiramente nobre, despojada da formalidade do título, ligada à generosidade da alma. Esse mesmo olhar, terno, radiante de alegria, se repete nos rostos de qualquer um que se casa com o ser amado. Seja nas favelas do Rio, na periferia de Trípoli, no mais distante vilarejo da Amazônia. Um sorriso com os olhos cheios de esperança ultrapassa as muralhas da violência, das misérias urbanas, do universo fechado da realeza, dos mistérios e dos enigmas de cada um. Com sua força vital, permite que a humanidade siga em frente e continue sua caminhada pelo reinado da vida.
Valentões
Os valentões estão por todo o lugar. Nos pais que intimidam filhos, nos jornalistas que criticam sem compreensão, nos colegas que gozam dos ditos mais fracos. O bullying não é só escolar. É uma agressão social presente, muitas vezes sutilmente, no cotidiano. A escola é só um símbolo, importante, de uma das origens destas ações neuróticas e psicóticas. Tentamos intimidar os outros para não nos intimidarmos com os nossos fantasmas. Fantasmas que fazem “Bu...”. Buuuuuuuuuuu.....lllying.
Assinar:
Postagens (Atom)