sexta-feira, 16 de março de 2012
Consultório
Era um consultório simples, um conjugado com divisórias de Eucatex, de cor marrom clara, e carpete fino, um pouco áspero. Nas paredes, trabalhos de crianças, alguns feitos por ele, estavam emoldurados: uma flor composta de papel alumínio colado, uma árvore com lascas de lenha grudada no papel e outras figuras disformes vindas da imaginação infantil. Foi como se tudo tivesse se apagado para ele, até que, enquanto esperava a hora de ir embora do trabalho, uma palavra, vinda do entardecer, pela janela, soprou na sua mente, misturando-se com a brisa: consultório. Como se seus dedos tocassem em um interruptor interno, então, as luzes do local se acenderam dentro dele. Ele pode até sentir coisas que há muito tempo não sentia: o som do telefone tijolão (número 643944), a risada da secretária Lúcia, simpática e brincalhona, as pontas flexíveis do estetoscópio antigo, o couro preto da mala, um fusquinha atravessando o farol da Tabapuã na década de 70 e, por fim, a voz suave do pai atendendo alguém lá dentro, atencioso, depois abrindo a porta, se despedindo do paciente simples, esperando ele ir embora, depois entrando no corredor, tendo dificuldade para encontrar a chave, achando-a finalmente, trancando a porta com seu jeito todo atrapalhado e, antes de pegar o elevador, ter de voltar porque tinha se esquecido de apagar a luz, como se nunca quisesse deixar no escuro aquele consultório.
quinta-feira, 15 de março de 2012
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O amor existe muito antes do ser humano. Está na luz do sol que fortalece as plantas, na fertilização do solo, na chuva que refresca a terra, na borboleta que rodopia no ar em busca da pálpebra de uma flor, na abelha que faz o mel e no filhote que se aninha ao calor da mãe, seja ela texugo, alce ou urso. O amor passeia pelo movimento da natureza, se avoluma no vento, em evoluções que sopram a vida. Muitos não aceitam a tese de que seríamos filhos de Deus. Mas não há como negar que somos filhos do amor.
terça-feira, 13 de março de 2012
Doze
No dia 12 de março, havia 83 anos, seus avós se casaram no Brasil. Viajaram lá da Europa para se conhecerem aqui, em Porto Alegre. Sua tia mais velha, filha deles, já enfraquecida, balbuciou, com ternura e lamentação, que isto não mais precisava ser comemorado, já que ambos não mais estavam por aqui, tudo era silêncio. Ele, dirigindo o carro, pensou em mil coisas. Na possibilidade da vida após a morte, na estupidez do caminhão que atravessou uma poça em velocidade, nos prédios duros ao redor, nos cabelos brancos e suaves da sua tia, no esquecimento. Se tudo aquilo estava ali, diante dele, seus avós também estavam. Ele tocou o rosto envelhecido e doce daquela senhora. Sem palavras, agradeceu a ela pelo ceticismo, que no fundo pedia um sinal de vida. Ela entendeu e retribuiu, também sem nada dizer. Apenas com um sorriso se esboçando lento. Como uma luz que vem lá do núcleo da memória, trazendo pessoas antigas, que cantam uma música suave, nos fazendo relembrar e sorrir, como se eles revivessem apenas com a nossa vontade de lhes dizer parabéns.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Acusações
É fácil, amparado por uma multidão, ficar acusando o rei de estar nu. De cima de um palanque, um jornalista grita para uma massa aflita por justiça e honestidade, quando nem ela sabe direito o que é isso. “O rei está nu”, dispara, para uma ovação em tom de torcida de futebol. “Éhhhhh!!!”, soa quase como um gozo ensandecido. Ninguém, porém, grita que a multidão está nua. Também o jornalista não gritaria para um rei que estivesse nu, mas que fosse reverenciado por um povo propenso a fingir que a nudez não existe. O jornalista acaba confundindo-se com a multidão e só grita o que ela quer ouvir. Ele apenas pensa ser um Émile Zola, que escreveu um artigo corajoso, "J´Accuse"(“Eu acuso”), em 1898, apontando que o governo francês estava nu, quando a grande maioria defendia a injusta punição ao capitão Dreyfus, judeu. Zola se expôs ao atacar o antissemitismo em uma sociedade basicamente antissemita. No Brasil dos escândalos, porém, todos acusam para se livrar de suas culpas. “O inferno são os outros”, como dizia Sartre. E o jornalista que pensa ser Zola se engana, porque ele não apenas acusa. Ele só acusa.
Aurélia
Lúcio Sulla aglutinou um exército de escravos e entrou em Roma tomando o poder. Saiu para a guerra contra o rei Mitrídates, isto por volta de 90 a.c, quando Mário e Cina entraram em Roma, massacraram os partidários de Sulla e tomaram o poder. Cina se tornou cônsul, para a fúria de Sulla. Quando Cina foi para a Grécia guerrear com Sulla, foi massacrado por seu próprio exército. Sulla retornou e massacrou seus opositores, aos milhares, aos milhões, aos berros. César quase foi um deles, não fosse a personalidade forte de sua mãe Aurélia, que enfrentou todos os perigos para conseguir o perdão do filho diante de Sulla. Roma Antiga foi marcada pela ganância, traição, assassinato, corrupção, egoísmo, perversão... Na aparência algo mudou, mas esta história ainda não acabou. E o amor de mãe também não.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Composição
Eu tinha um primo expansivo, cheio de ideias, inteligente, robusto, com olhos e lábios volumosos. Dirigia em alta velocidade, gostava de pular de paraquedas e de cantar as mulheres. Transbordava generosidade em sua alma aflita, de menino. Um dia ele me levou a uma matineé, na danceteria Tamatete. Fomos da Zona Norte ao Itaim-Bibi, com ele me contando sobre sua vida, sobre suas perspectivas. Eu, tímido e mais novo do que ele, só ouvia, pouco falava de mim. Falei pouco de mim para ele. Sempre em busca de me agradar, tentava em vão conversar sobre futebol comigo. Eu não sabia como responder, ficava sem graça por seu conhecimento na área ser menor que o meu. Ele morreu há alguns anos, aos 29 anos, asfixiado em seu quartinho, em uma casa em Poços de Caldas. Ocorreu um vazamento de gás enquanto dormia. Era tão sonhador e se foi sonhando. Certa vez, compôs uma música e, entusiasmado, mostrava para nós, contando que iria participar de um festival. Cantou tocando violão na sala de seu apartamento no Bom Retiro, entre móveis antigos, desejando a fama ou pelo menos o reconhecimento. Não se inscreveu no festival. Mas, agora, o inscrevo simbolicamente. Calo-me, como sempre fiz, para escrever os versos daquela música, na tentativa retroativa de realizar seu sonho. “Camões tem seus Lusíadas, Roberto, sua fé. E eu que só queria ter você como mulher...”
segunda-feira, 5 de março de 2012
Coragem
A obra de Amós Oz tem algo passivo e duro. Ele pede que o leitor a complemente. A angústia vem de roldão e o amor surge a conta gotas. Há um terror e uma amargura subliminares conduzindo cada enredo. Não há refresco. Como Stephen King, Amós não cede. Mas de uma maneira menos escancarada. Sua postura de adulto realista, porém, encobre os pedidos de uma criança carente. Ele quer que o leitor siga em frente, em seu lugar. E lhe diga. “Não, Oz (que significa coragem). A vida não é só sofrimento. Não é feita apenas de desencontros”. Ele bate o pé, se faz de desentendido, escreve outro trecho radicalmente triste, justamente porque não quer ser abandonado. Mas no fundo ele gosta quando o leitor continua desempenhando esta função paternal. “Oz, a ternura existe, acredite”. Ele ouve, sorri por dentro e continua se fazendo de difícil, talvez até transbordando de emoção. Mas, como bom israelense, ele não chora.
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