quinta-feira, 30 de junho de 2016

Mutantes Dois

Tudo muda nesta vida,
O botão que vira flor
O choro que cessa cansado
O desprezo que vira clamor
A noite polvilhada de estrelas
Que acorda com o sol na janela
A tentar com atraso entretê-las
A boneca que já não tem graça
O luto se tornando lembrança
Dizendo como o tempo passa
A barba da outrora criança
O fim de semana que chega
A bela morena que dança
O título um dia impossível
A amizade levada com o vento
O homem frio e insensível
O brega antes de ser novidade
A espera que nunca termina
A ânsia da mocidade
A dor do fim de um romance
O sonho do sono no leito
Acenando com outra chance
O instante já sendo o futuro
Ajudando a curar a ferida
Do outro lado de um muro
O sibilar de uma chicotada
A fórmula do esquecimento
No longo trajeto na estrada
A palavra que é penetrante
Procurando no vago universo
O sorriso em um semblante
O silêncio de uma praça vazia
A insistência do milionário
Que nunca se satisfazia
Um arco-íris no horizonte
Unindo lados opostos
Fazendo do céu uma ponte
O rufar de um longínquo tambor
Na selva de pedra do mundo
Pedindo um pouco de amor
Tudo muda nesta vida
Uma multidão enfurecida
Máscaras que escondem rostos
O homem e sua medida
Tudo muda nesta vida
Somente uma coisa não
É o correr do tempo profundo
Soprando o carinho do mestre
Pelo menino a driblar o mundo
Nas mudanças da eternidade
Tudo que aconteceu, você verá
O que aconteceu, aconteceu
E para sempre acontecerá

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Imutável

Tudo muda nesta vida. A única coisa que não muda é o que aconteceu, você verá. O que aconteceu, aconteceu. E sempre acontecerá.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Dupla

Na escola, um dos momentos mais reconfortantes era o recreio. Ouvir o sinal e correr pelas escadas amplas do antigo prédio do Colégio Bialik simbolizava um alívio da pressão de estudar, do peso da responsabilidade. Bem que a professora Marlene um dia comentou com minha mãe, quando me viu aproveitar o último restinho do jogo na quadra coberta, lá nos fundos: "Nessa idade, um minuto vale ouro". Sempre encarei desta maneira. A espera ansiosa pelo fim da aula longa se transformava em um universo de oportunidades no instante do minuto livre, que me ensinava ainda mais do que algumas orientações dos professores. E me levava a crescer um tantinho por meio dos meus sonhos. Naqueles recreios libertos de um olhar adulto, me deparava com minhas observações infantis. Nelas, escondendo minha timidez em piadinhas com os colegas, sempre tive um certo medo do Décio e do Fabinho. Além da questão deles serem mais velhos, jogavam muito bem futebol. E quando digo jogavam bem, não é a frase vulgar dita a qualquer menino mais habilidoso. Eles para mim pareciam abençoados por uma força maior, que os movimentava em malabarismos dentro das quatro linhas. O Fabinho era um ano mais velho do que eu. E o Décio, dois. Intimidava-me o ar um tanto convencido que eles passavam, confundindo-o com minha própria insegurança de não me dar conta de que eu podia, de alguma maneira, fazer o que eles faziam. Uma vez, no campinho do jardim do Leco, primo do Décio, dei uns dois cortes nele, me senti um pouco capaz e logo sumi. Ele não. Ironizando adversidades, Décio se impunha com sua canhota mirabolante. Era algo inato. Seus movimentos com a esquerda fluíam e culminavam com um chute certeiro, que só ele sabia dar: seco, seguro, geométrico. Sua categoria já era um prolongamento do corpo. Já se misturava ao rosto de menino, um tanto magro e sardento, com cabelos levemente longos. Ele até andava um pouco na ponta dos pés para expressar sua altivez. O Fabinho, então, era pura habilidade. Jogava como se brincasse consigo mesmo, em um diálogo com sua inspiração. Desenterrava dribles incríveis com uma segurança que nem parecia ser de criança. E dessa conversa rápida, silenciosa, extraía jogadas que emergiam surpreendentes de seu íntimo, em nuances de ilusão de ótica ou truque de magia. Ele driblava nossos olhares marcando gols impressionantes pelo clube A Hebraica, com quem jogava também com o Décio e, lá, completava o trio com o ótimo ala Celsinho, hoje coordenador da equipe de futsal em que meu filho joga. Se dizem que Messi deixa a bola grudada no pé, Fabinho já fazia isso. Piadista e explosivo, se impunha diante dos fixos, como ágil pivô, barganhando com seu corpo robusto, de estatura média, e transformando a cara de menino, com olhinhos escuros, no rosto de um pequeno desbravador. Os lábios grossos, pele morena e o cabelo curto, com franjas, completavam a imagem que tanto respeito despertava nos adversários. Aquele físico tão único, conhecido em todo o meio do futsal, escondia segredos da bola, fazendo-a atender seus pedidos repentinos sem que precisasse dizer uma palavra. Passei a infância observando Décio e Fabinho jogarem, nos muros protetores da escola e dentro da muralha que ficavam minhas fragilidades. Vivia sentado na tribuna de honra de minha admiração muda. Que guardava cada lance, para sempre. Era como se eles atuassem por mim, demonstrassem, com suas personalidades fortes e seus estilos únicos, aquilo que eu gostaria - e até podia - de fazer, mas não fazia. Hoje, como futebolista frustrado, eu me reputo um Paulo Henrique Ganso que não deu certo. Um talentoso que só descobriu o talento quando teve tempo de se lembrar. Não digo que eu seria como o Décio ou o Fabinho, mas poderia fazer da minha maneira algo tão bom quanto o que eles fizeram com a deles. Eles também, vai saber o porquê, não se tornaram jogadores. Se não me tornei, aprimorei o meu amor pelo jogo com a ajuda involuntária dos dois. Aquelas jogadas do Décio e do Fabinho carregavam o encanto de uma época. Craques consagrados, como Zico ou Sócrates, não costumavam virar de letra uma bola para o outro lado da quadra como o Fabinho fez um dia. E nem Rivellino dominava sempre com a técnica e batia todas com tanta arte como o Décio fazia. Éder era fichinha perto dele. Tal qual na frase de Aldous Huxley, tudo isso me abria as portas da percepção. Ajudou-me a desenvolver minha criatividade, baseada na importância do instante, na plástica de um único toque, no detalhe que compõe a saga de uma partida, de uma vida. Na gota de talento que alimenta o orgulho e perdura pelo infinito. Assim, sempre me ative ao lance fabuloso que não percebo outros perceberem. Um toque de costas despretensioso, no meio de campo, por cima do corpo, para mim amplia horizontes. Muitos podem até achar que o jogador fez péssima partida, eu não. Por isso, em cada drible, em cada cruzamento preciso, cada tentativa ousada, minha paixão à flor da pele não admite que falem que o brasileiro já não cria. Cresci com essas vivências incrustadas, admirando o belo, retratado na ação daquelas duas figuras fundamentais da minha infância. Certamente, se mantêm entre as melhores recordações daqueles tempos, cheios de incertezas e temores. Nossa diferença de idade, inclusive, já não pesa tanto e serve para diluir o medo. Percebi essa cumplicidade quando vi uma foto do Décio, atualmente, dominando uma bola com a coxa. O Facebook também tem coisas boas. No homem já perto dos 50, me veio à mente aquele garoto, que não virou profissional - passou a trabalhar com eles como empresário - com o mesmo zelo pela técnica. Os dois foram para outras áreas porque também tinham outras habilidades. Se o deslumbramento tomou outros caminhos, estes não foram capazes de apagar tudo aquilo. Aliás, nada é. O mundo gira, as coisas passam, mas o inato nunca deixará de se manifestar, seja em um olhar, seja em uma pelada que rega a saudade, seja simplesmente na recordação diante de uma quadra de futsal. A parte invejosa do mundo é incapaz de jogar na lama todos os diamantes mais valiosos. Muitos sobram, sempre. Tornei-me um lapidador destes diamantes, não levando tão a sério as críticas amargas a este ou aquele bom jogador; a fúria contra o bom homem que cometeu uma gafe; a surdez diante de um poema profundo ou a cegueira que não vê o brilho fulgurante da intuição. Tento apenas compreender quando se esquecem do mais valioso da seresta. Na feiúra de uma cidade, a beleza do pôr do sol também emerge de seus arranha-céus. E se o cantor de restaurante cantar com arte e leveza, aplaudo, tentando compensar a sua solidão. Aqueles dois meninos fazem parte desse legado. Sei que os que só acusam ou se calam não tiveram o meu privilégio. Eles não viram Décio e Fabinho.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Despedidas

Há um momento em que as lágrimas viram sal
O mesmo da despedida do que um dia foi um casal
Dois homens conversam numa banca de jornal
Uma conversa que passa, um bate papo banal
Há situações em que tudo se resume a um instante
Um jogo cheio de história, o sorriso da amante
Na rotina de lapidar cada detalhe é determinante
Reluz e se vai etéreo, como o brilho do diamante
Ninguém consegue no mundo dizer tudo o que pensa
Acumula um monte de frases, falar não compensa
Ninguém consegue controlar aquilo que diz o tempo
É como se um menino tentasse agarrar o vento
A lua no sereno vê de cima todos os lados
Na luz prateada explodem bilhões de sonhos dourados
Que aparecem e se despedem, nas ruas e nos prados
Em todo o tipo de encontro, ao acaso e os marcados
Depois, talvez nunca mais se verão
Nem na primavera, nem no verão
E verão que a primavera dos desejos
É a mais bela solidão
No querer estar ao lado
Na vontade de falar sem poder
Na amizade que brota em olhares
Mas precisa se esconder
Querer abraçar, falar, tocar,
E nem conseguir conversar
Compromissos e conveniências
Cada um navega em seu mar
Mas uma coisa fica
E permite continuar
Para sempre insistindo
No silêncio que é amar
Em todos os dias
Entre todas as pessoas
O braço que abraça lá longe
A fala que alcança o infinito
As mãos que acariciam sem toque
Os olhos que enxergam por dentro
A memória que nunca se traduz
A continuidade de cada cumprimento
Após cada afastamento
Em todo o tempo
Em cada momento
Se chama sentimento

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Separações

Como o mundo nasceu no olhar infinito do instante, a cidade evolui no vazio espaço que vem no rastro de cada encontro desfeito. Assim, um homem se derrama em beijos na amada até que ele se veja horas depois olhando pelo vão da janela a lua inebriada de sabedoria. Solitário em suas lembranças. Procurando no ar os últimos vestígios do perfume que ainda permanece no quarto já adormecido. A lua é lúcida. Reflete em sua luz prateada os pensamentos dourados que evoluem com a brisa. Mergulhada na loucura permanente de testemunhar os fatos. Ela, a única que se pendura no céu da história para acolher a desilusão das cenas que não se repetem e insistem em negar ao homem a cada dia o sonho da eternidade. O que é a eternidade, meu rei? Ela se inspira nas florestas longínquas da infância, esta sim que nunca se acaba, se multiplicando em infindáveis oportunidades do que poderia ter sido. Ou nos mares distantes que nos levam de nós mesmos, fingindo nos carregar por viagens inesquecíveis que, no entanto, são roubadas pelos detalhes de uma maré que não permite a queda do barco no buraco sem fim do horizonte. O que é o sublime, meu pai? Ele se inspira no desejo de buscar um tesouro para além dos arco-íris, refastelando-se no som de uma sinfonia de Beethoven, surdo aos apelos da realidade que, traiçoeira, sempre busca estragar os quadros impressionistas da pureza tão procurada. O que é o amor, meu amor? Ele é a minha presença na ausência de Drummond, na ausência de um sentido maior do que ele, o caminho para tornar a insanidade menos dramática e mais amistosa, fazendo dos mares turbulentos que ela traz o próprio alimento de seus delírios legítimos. A amizade, o que é a amizade, amigo? Ela é uma criança que se mantém criança mesmo quando os adultos adulteram a sua lembrança. Nisto ela permanece intacta, apesar de esquecida nestes tempo sem lembranças, de lambanças, de lamaçais que destroem a colheita e a suavidade da manhã. Quando a gente deixa de ver alguém, sabe que não pode ser diferente. Um trabalha lá, outro cá. Um segue a trilha do campo, outro vai para o rancho. Parentes de cidades diferentes se conhecem em uma tarde ao acaso e se despedem como se rotineiro fossem os encontros. Depois, talvez nunca mais se verão. Nem na primavera, nem no verão. E verão que a primavera de seus anseios, do desejo de estar ao lado, da vontade de falar sem ter intimidade, da amizade que brota em olhares esparsos entre a gente, nos ônibus e nas estações, são apenas um sopro. Cada um na sua: o eterno, o sublime, o amor e a amizade andam de mãos dadas apenas às vezes. Despedem-se para se reverem sabe-se lá quando, na graça da vida sem graça feita de pessoas e os seus compromissos. Dirigem cada um deles, em separado, longe da ficção. Como todos nós nascemos, desgrudados. O que nos liga, apenas, é o ser e saber. Saber como está a pessoa lá longe, sem poder nada fazer. Querer abraçar, falar, tocar, mas não conseguir, por causa da distância e do descompasso. Nos une ansiar por conversar sem superar a timidez das convenções. Sem dizer olá e já solfejar o adeus, mantendo o interesse aquecido pela palavra não dita. Ninguém fica amigo de uma hora para a outra, apesar de nascermos irmãos. Resta, em silêncio, apenas torcer pelo bem do outro. Em meio a passadas objetivas que buscam vencer as horas, inutilmente. Enquanto isso... todos os dias, entre todas as pessoas, o braço que abraça lá longe, a fala que alcança o inalcançável, as mãos que acariciam sem toque, os olhos que não desgrudam do invisível, até o fim do mundo, a memória que nunca se traduz, a continuidade do cumprimento após o afastamento, o despertar de cada esquecimento, em cada momento, se chama sentimento.

Ele

De tanto buscar o reconhecimento nos outros, ele já não se reconhecia mais.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Democratas

Hoje na banca ouvi uma conversa entre dois empresários. Um deles, de camisa social moderna, careca, óculos redondinhos, falava com um ar magnânimo, passando a impressão de que era um democrata querendo o bem do Brasil.
Analisava em tom de sobriedade o discurso do Meirelles e ponderou em estilo solene sobre a possibilidade de perda de direitos trabalhistas, de forma "equilibrada" para os empresários conseguirem levar esta nação à frente.
O ar magnânimo deste senhor era emblemático. Era o ar da "democracia que me interessa." Na "democracia que me interessa" o outro não existe. Vá ele se colocar no lugar do trabalhador que está ameaçado de perder seus direitos e que geralmente tem muito mais dificuldades do que os empresários.
Essa é a tal democracia que o Brasil construiu. Essa democracia é aquela que funciona bem nos jogos de futebol, quando o torcedor não fala nada ao ver o juiz roubar para o seu time. E urra por seus ditos direitos quando vê o juiz marcar uma falta correta contra o seu time.
Se a sua equipe vencer, ele até terá condições de demonstrar a magnanimidade conveniente e dizer a um torcedor adversário "fica para outra". Mas se perder...E se perder na outra...
Voltando ao tal empresário, fiquei com vontade de lhe dizer as rimas que tinha feito em um texto que escrevi para o R7, com o sufixo "ismo". Poderia desferir uma série de palavras que se encaixam, como nazismo, fascismo, bairrismo, oportunismo...
Mas preferi, em forma de escrita, desabafar agora com rimas em "ão", que aí vão sobre a nossa situação, ao estilo de intervenção. Percebi em última instância um aspecto tão nítido que estamos vivendo e que surgiu na minha consciência de forma clara.
É a situação de um cinismo que tenta esconder que houve um saque. Os magnânimos são saqueadores, é isso! Roubam como gângsteres na Nova York do século 19, na base da lei do xerife. Ou na Inglaterra pobre e opressiva das crianças sofridas de Charles Dickens. Roubam como empresários que sonegam nos escaninhos da madrugada para exaltarem uma falsa moralidade à luz do dia. E são tantos. E fazem isso há tanto tempo. E se dizem tão democratas...
Mas vamos ao que interessa, a rima em "ão". Houve um roubo da eleição, da lei uma usurpação, um saque à Constituição, um assalto à população, que perdeu a percepção. Houve o fim da investigação, o término da delação. E um momento sem ação. Antes, no Brasil havia corrupção. Hoje, o Brasil é a corrupção.