sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Kibutz

Até hoje imagens do kibutz Givat Brenner voltam em flashes à minha mente. A primeira delas é a de um longo gramado à frente de uma sequência de casas, onde fiquei com minha família, em minha primeira viagem internacional. O ano era 1976.
A casa, na verdade, era um quarto com banheiro acoplado. Dormi ao lado de minha mãe, enquanto meu pai ficou no quarto vizinho. O travesseiro era macio, a cama aconchegante, em uma atmosfera nova e bucólica que a vida comunitária me transmitia.
Até hoje não entendi ao certo o que houve quando, no dia seguinte, a fronha estava manchada de vermelho, em função de um sangramento em meu nariz. Possivelmente, a pressão da novidade, em uma terra estrangeira, foi determinante.
Havia um aroma especial adocicado de querosene, usado nos lampiões que iluminavam a noite cercada de mata e de cricrilar dos grilos. O tio Abrahão Gontow, figura imponente que mudara para Israel três anos antes, chegou a dirigir um trator para eu ver como era.
Meu tio trabalhava em uma fábrica de alumínio e me deu uma peça decorativa, parecida com uma âncora cheia de detalhes. Outra era mais pesada e volumosa. Eram espécies de obras de arte que brotavam daquele material, me fascinando.
Em uma das noites, sob o sereno, ao lado de minha prima Denise, vimos seu irmão, o Mauro, andar misteriosamente pela trilha que levava ao heder ohel (refeitório). Com a gola do casaco levantada, ele passou sem falar nada, como se quisesse se disfarçar.
Conheci então um pouco mais do espírito israelense, um tanto duro e enigmático, que ele começava a assimilar, após chegar ao país com oito anos de idade.
Havia também um quê de jeito gaúcho, pois eles eram de Porto Alegre. Aliás, por defenderem fronteiras, gaúchos e israelenses têm um modo direto, objetivo e às vezes duro de ver a vida.
Meu tio que o diga quando se ofendeu, ao entrar na casa de seu primo, após este ironizar a chegada de minha vó, que viajava conosco.
"Primo, trouxe minha mãe para ver você." A resposta foi curta e grossa: ”E eu com isso?"
Eu já estava na sala, contemplando os castiçais, o conforto do sofá, os enfeites das paredes, decifrando um pouco mais de um lar em Israel, quando o tio, ofendido, disse para irmos embora.
"Ninguém fala assim com minha mãe", bradou, em seu estilo gaúcho e temperamental. Surpreso, o primo dele tentou argumentar. Disse que era brincadeira (devia estar meio irritado no momento). Mas, não admitindo que seu comentário foi infeliz, ainda retrucou, teimoso, sem pedir desculpas: "Se tu quer então, não posso fazer nada ..."
Minha vó, com sua sabedoria doce e tranquila, saiu sem reclamar, serena, tentando conter o ímpeto do meu tio. E chegou a me dizer, sem nenhuma tristeza: "Fique tranquilo, os encontros superam os desencontros".
Ela sabia. Outras pessoas, afinal, foram muito mais calorosas com ela naqueles dias. Testemunhei quando ela reviu uma de suas irmãs, que foi visitá-la no kibutz, 48 anos após se separarem. Minha vó veio para o Brasil ainda antes da Segunda Guerra e depois nunca mais tinha visto seus familiares poloneses.
Até o momento do reencontro, o qual presenciei. Ficaram se abraçando por longos minutos no entardecer, com os cabelos embranquecidos mas a alma renovada, naquele mesmo gramado em frente às casas.
Soube depois que Givat Brenner foi fundado justamente por poloneses. Além de alemães e lituanos, com o trabalho de Enzo Sereni. Ele morreria nos anos 40, após integrar missão de paraquedistas, invadindo a Itália para se arriscar e salvar vidas judaicas na Europa. Golda Meir, então proeminente figura da Agência Judaica, como uma mãe, o aconselhou a não ir.
Esse Givat Brenner, fundado por um idealista, é o mesmo Givat Brenner dos meus 7 anos: um palco de aprendizado. Lá aprendi que o sofrimento de um povo, de uma família, de uma mulher, na dor e na distância, nos ensina a lidar com os desencontros mesquinhos do dia a dia. E a valorizar muito mais os verdadeiros encontros. Estes sim, superando o tempo e a distância, são para sempre. Tanto que, ainda hoje, a novidade soa para o adulto tão surpreendente quanto soou para o menino: "Caramba, 48 anos!"

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A casa

Chegava da escola com a irmã e logo se apresentava para mim uma série de alternativas, assim que o carro subia a rampinha e atravessava o portão aberto de ferro. Almoçar, fazer lição, brincar com o cachorrinho Bidu... Eram opções que se misturavam às esperanças e angústias da meninice, enfronhada na realidade das tarefas, da proteção e da sensação de eternidade.

Almoçava na cozinha, entre a sala de entrada e a lavanderia. Era um local até que pequeno, mas eu achava imenso, como uma companheira de anos e sua disposição histórica: a mesa, a pia, o fogão ao lado da janela e a geladeira a qual, à tarde, quando resolvia colocar o pijama já depois do almoço, abria buscando sempre uma novidade.

Descrever é difícil. Só quem viveu sabe o que era tudo aquilo, cada detalhe dos objetos, a gordura do gradil do fogão, o barulhinho que fazia ao abrir a tampa do forno...O cheiro da sala após faxina, o tirar a roupa do varal antes da chuva, o prazer de matar a sede no copo legal, a segurança em ver os móveis sempre lá, como referências. O entardecer misturando-se com a proximidade do jantar e com os programas rotineiros da televisão, embalando as expectativas do dia seguinte.

Na sala, gostava de ficar sentado no chão, em cima do velho tapete verde e apoiado na mesinha com um tampo de vidro, assistindo TV, comendo hambúrguer e arroz Uncle Beans, sempre deixando a porta envidraçada, de ferro branco, entreaberta, para respirar o ar perfumado que vinha do jardim da frente.

Do jardim se misturavam uma flora abençoada de palmeiras e outras árvores, além de um imenso pinheiro, plantado desde que chegamos, em 1970, bem perto do portão. Eram tempos em que não havia tanto risco e mantinha a segurança deixando a grade, também corrediça, trancada.

Cansei de fazer paredão no muro lateral do jardim, chutando a bola e aprendendo a dominá-la. As marcas da bola, alías, foram responsáveis também por várias mudanças de cor da casa, que já foi rosa, branca e bege, mas, acompanhando também as minhas mudanças, mantinha a mesma essência.

Esbaldei-me  de brincar com os vizinhos Carlos Fernando, Dermany e Andrea Kottel, sempre vindo me chamar tocando a campainha estridente situada no início do muro. Um dia, quando não pude ir, ouvi uma crítica e logo respondi que preferia ficar lá dentro, respirando o ar puro das árvores.

Naquele momento, estava ao lado da babe, minha avó que sempre apoiava o que eu dizia. Todo dia ia me despedir dela, deitada lá no quarto de cima, com janela para o jardim, e ouvia de seus lábios ternos que um dia eu seria presidente. Eu descia as escadas, para ir à escola, mais confiante e feliz.

No meio da tarde, era comum também o Zadig e o Júnior, vizinhos nascidos na Bahia, passarem em casa após as aulas na Estadual, deixarem as malas lá na grama e ficarem a tarde jogando bola comigo até dizerem: ih, estamos atrasados, temos que voltar para casa...

Daquela sala, na TV Philco com zoom (que substituiu uma Philps 26 polegadas),  vi novelas históricas e me transportava, fazendo dali o palco de meus devaneios: O Profeta, Pai Herói, Brilhante, Baila Comigo, A Gata Comeu...

Mais velho, antes de sair daquela casa, aos 30 anos, assisti no videocassete filmes lendários, adentrando na madrugada, sempre sentado no chão, acompanhado de A felicidade não se compra, O homem que sabia demais, Intriga internacional...


Acordava todo dia às 6h50, pela mãe, após tomar um copo de café com leite, ao som de Trabuco e do programa do José Paulo de Andrade, Jornal da Bandeirantes Gente, no aparelho de som da sala. Saíamos às 7h10, sempre apressados, para tentarmos chegar às 7h25 na escola, levados pelo pai, no Fusca verde azeitona, na Variant vermelha ou na Brasília oliva, conforme a época.

Contemplava também a paisagem da janela do meu quarto, que dava para a areazinha (a “arinha”) de serviço. Minha cama ficava entre a da irmã, sobre um carpete avermelhado, e o  armário branco que, quando embutido lá, foi uma revolução de alegria. Tão grande quanto a que senti quando ganhei a bicicleta com marcha, em 1981.

No armário, guardava o telejogo, o projetor e os slides, com histórias como a do Leão Cantor, e o carrinho branco de controle remoto. Do quarto, via o prédio da Bandeira Paulista e as árvores do quintal do Osvaldo irem se desenvolvendo, em conversa com a cidade, entrelaçadas na própria memória que se construía a cada dia. Tinha a impressão de que, daquela vista, meus sonhos alcançavam o mundo todo. E dia, quem sabe, poderiam se realizar.

Não foram raras as vezes em que subi na laje, do telhado da frente, acima da garagem (que depois se tornou um depósito) e ficava contemplando a tarde, sentindo o aconchego de estar em um lugar isolado e ao mesmo tempo seguro. Nem sabia que, no fundo, fomentava o meu futuro de lembranças, no movimento daquelas nuvens.

Meu futuro, daquela casa, se construiu por vivências. Resumidas em imagens: a prateleira de vidro onde ficavam os copos; o bufê onde se guardava doces, bebidas e documentos; a mesinha onde ficava o telefone cinza claro; a porta da cozinha que parecia um chocolate; o fundo da escada onde se guardava partituras; o piano onde a mãe dedilhava acordes; o quadro de leões pontilhados que ela tão bem pintou; os retratos dos avós; a escada com um quadro meio impressionista de um pastor.

A sala foi envelhecendo e, mesmo assim, mantendo a paisagem campestre de um quadro do avô; a imagem de Carlos Gomes em outra tela dele; os amigos do Bialik passando a tarde brincando; meus tios e primos sempre enchendo a casa de alegria nos aniversários e festas; os papeis de parede muitas vezes trocados; o não lembrar das vivências acumuladas; algumas discussões; o pai chegando no fim da tarde com a doçura de seu olhar; a babe assistindo TV de sua poltrona, com seu poncho de lã e seu jeito angelical.

Vejo ainda com alívio a mãe chegando à noite da faculdade; os abraços que se abstraíram pelos hábito dos dias; as tantas moças que lá trabalharam, como a Nivalda, a Do Carmo, a Zefa; o Bidu fugindo e voltando; a busca de refúgio no antigo quartinho atrás da lavanderia; os barulhos de copos da cozinha; as histórias grandiosas inventadas com a irmã; as preocupações que já não existem; a primeira vez que a cadelinha Princess entrou lá, um fox paulistinha preto, ornado com pelos brancos e beges no peito e nas patinhas. Ela chegou em 1982, comprada do Pet (ainda não se chamava assim) do homem da Pedroso, por 900 cruzeiros.

Do quarto, a mãe gostava de jogar, pela tela, o resto da água com gás para o telhado, e eu achava legal porque era um ato ousado e não causava algum tipo de sujeira. Escutava o barulho da água sobre o telhado, como se ouvisse um sinal de liberdade, abençoada pelo prédio iluminado, que testemunhava nossa rotina na rua Galeno Revoredo.

O edifício parecia se erguer em disputa com o pinheiro. Este, companheiro enraizado, crescia um pouco a cada dia e nos acompanhou também, desde criança até o último dia, representando o nosso desejo de atingir o céu das conquistas, como na lenda de João e o Pé de Feijão. E aproveitava para pedir proteção, em nosso nome, para o firmamento. Nunca negada.

Centímetros quadrados que se acumularam em mim, naquela superfície de histórias a se multiplicarem até o infinito e ressurgirem a cada dia, de repente ou de propósito. Nada contém, mais do que aquela casa, um manancial de vivências tão grande em minha história.

O imóvel, agora, está de mudança. Para dentro da nossa alma, formada lá, entrelaçada naquele cenário. A obra grandiosa que se construirá no local, não substituirá a que foi construída para a família. A vida serve para isso. Ela sim é a maior obra. Nos ensina até nas despedidas necessárias. A cada instante, a cada mudança, com ela aprendemos que gratidão, memória, orgulho e amor, afinal, não cabem apenas em um endereço.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Aniversário

Envelhecer é deixar de saber que o tempo passa e começar a sentir que o tempo passa.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A gestação da Torá

À frente do portão de ferro, revestido de cor prateada, ao lado de uma fachada adornada por uma menorá (candelabro), o menino sentiu um sopro em seu ouvido. Ao redor, o alarido aumentava cada vez mais. Era o primeiro dia de aula, no colégio Bialik.

Chegou lá após ter despertado uma hora antes e, ainda atônito, ser preparado por sua mãe para essa nova tarefa.

Ela penteou seus cabelos lisos e dourados. Vestiu-o com cueca, calção azul escuro, camiseta branca, com a mesma menorá estampada, uma meia branca à altura da canela e um tênis escuro.

Depois de engolir um copo de café com leite, foi conduzido, de carro, pelo caminho que fez pela primeira de tantas vezes que viriam posteriormente.

Ia ouvindo o programa do Trabuco, com Vicente Leporace na Rádio Bandeirantes, ou o eterno jingle da Jovem Pan, às sete horas, "a cidade não desperta, apenas acerta a sua condição..."

Queria e não queria estar ali, ao lado da mãe, mas diante de tantas coisas desconhecidas, diante de tanto alarido, diante daquele portão.

Notou apenas que, em meio à balbúrdia, o sopro insistia em ressoar, como estivesse se dirigindo apenas a ele. Já tinha sentido aquele sopro alguma vez, só não sabia quando...

Então, aos poucos, ele se acostumou. Foi no embalo, entre trancos e barrancos, uma advertência aqui, outra recuperação ali, amizades importantes que o ajudaram a crescer. Tudo passou, virou saudade.

Só foi pensar melhor naquelas vivências, já adulto, após receber uma informação sagrada, dada por seu generoso analista. E encontrou alguma explicação sobre a indecisão naquele dia, diante do portão.

O livro Talmud conta que "um anjo ensina a Torá (livro sagrado judaico) completa a toda criança ainda no ventre materno; e uma luz oculta brilha sobre sua cabeça neste instante, permitindo-lhe ver de um lado a outro do mundo".

É assim. Enquanto a criança, em forma de embrião submerso, se desenvolve no ventre materno, viaja livremente por um universo amplo que lhe é soprado pelo anjo.

Vai boiando no líquido amniótico e fica sabendo da criação da terra, do mar, do sol, da lua, das sementes, das plantas, do gado, dos peixes... E que tudo era bom.

Em forma de recordação, o anjo lhe sopra a viagem de Abraão para Israel, a importância da perseverança e a luta pela saída do Egito.

A placenta é seu universo. É onde o pulsar do coração da mãe lhe passa confiança ritmada. E onde lhe é soprado, pelo tal anjo, que a revelação divina no Monte Sinai ocorreu diante de um povo descrente, enquanto relâmpagos explodiam milagres no manto celeste escurecido.


Já entre a 4ª e a 8ª semana, a revolução de seu desenvolvimento cerebral é alimentada pelas histórias da Cabala e pelas explicações profundas da relação do homem com Deus.

O tempo vai passado e o bebê vai, ele mesmo, se configurando em um milagre. Como um monte de células pode se tornar um concepto, superar conspirações biológicas, e se transformar em mãozinhas, pezinhos, estampando um rosto doce e inocente? A história do anjo, certamente, ajuda muito nesse processo, pelo que diz o Talmud.

Já com o pulmão formado, ele até consegue gargalhar em seu mundo, quando o mesmo sopro (aquele...) lhe contou as peripécias do Rei Davi e as extensões da Torá. Ou quando ficou sabendo dos mandamentos divinos, querendo sair para amar o próximo como a ele mesmo.

Neste momento, ele já sabe de cor - porque seu coração já palpita essas revelações - a maioria dos princípios. Entende que a ética deve prevalecer sobre a estética, como se mentalmente tivesse sobrevoado os rolos de pergaminho escritos e avistasse cada passagem lá do alto de sua precisa imaginação.

Há dias seus circuitos neurais se desenvolveram, tecendo seus neurônios com ideias e imagens resplandecentes: o mar se abrindo para a liberdade; o Kol Nidrei (reza em busca dos perdões pelos pecados humanos) sendo entoado em noite solene, em redutos simplórios de antigos vilarejos.

Nesta etapa ele também fica ciente de que precisará manter inabalável sua identidade diante das adversidades.

Quando ele começa a escutar vozes do exterior, o útero materno se mostra uma muralha a ser transposta. É o momento em que o bebê fica sabendo, pelo anjo, sobre a história de Josué e as trombetas em Jericó. Assim, a cada instante da gestação, ele vai assimilando uma infinidade de informações.

Já conhecedor da peregrinação do deserto, passa a valorizar as colheitas. E assimila a importância do perdão no mundo que está para conhecer. Só falta lhe tirarem de lá. Até já dá seus recados com chutinhos na barriga, avisando sua mãe que precisa sair. E que, obviamente, é apaixonado por futebol.

Mas quando o tiram, vem o inesperado. O pequeno sábio vê lhe escaparem todos os segredos da existência. Assim que nasce, se esquece de tudo que lhe foi contado. O Talmud diz que isso acontece mesmo. Quem sou eu? Onde estou? E vem o berreiro...

Com o garoto, também foi desta forma. Quando ele chegou à frente do portão naquele dia, estava mais calmo, mas ainda não sabia que muita coisa viria pela frente. Sua preocupação era o presente.

Surgiu o ímpeto de voltar para debaixo das cobertas. Não tinha jeito. Precisava reaprender tudo que havia esquecido.

Virou-se para o lado e viu futuros colegas com mochila em ritmo acelerado. Ouviu gritos dos professores chamando cada turma. Olhou para o céu, sentiu o brilho do sol e sorveu o ar matinal da cidade.

O sopro continuava lhe comunicando algo. E o "obrigou", finalmente, a entrar na escola. Logicamente, não foi o fim. É apenas a história de como toda criança, mesmo sem perceber, consegue dar o seu primeiro passo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ninguém dorme

A madrugada já estava terminando, mas os objetos continuavam a ser contornos esparsos no escuro: a cama, a cadeira ao lado, a prateleira de miniaturas. No silêncio entrecortado por raras buzinas e brecadas que vinham lá de baixo, as formas sugestivas se assemelhavam a nuvens que tentamos adivinhar o que representam.

Ao ir conferir como o menino estava em seu quarto, o pai percebeu que a criança já acordara. Olhava para a escuridão do teto, tentando espantar o susto com os ruídos que vinham do vizinho: uma moeda no chão ou uma descarga era motivo para ele desconfiar da presença do temido palhaço assassino ou de algum bandido que teria invadido o prédio em sua imaginação.

— E esse barulho papai?

— São os passos de alguém que acordou mais cedo. Vai ver daqui a pouco você, quando for até a perua, se encontre com ele e diga bom dia.

Com uma risada sincera e curta, ele mostrou que a ideia o aliviou. Pela fresta da janela, uma brisa perfumada e fresca inspirava pensamentos longínquos. O pai, então, resolveu desfilar seu manancial de ideias originais.

Enquanto vestia a criança, a fez gargalhar por causa das várias etiquetas da camisa nova do uniforme. Ia falando, com voz engraçada, cada vez que via uma delas.

— Nossa, essa etiqueta aqui, um milhão. Outra...nossa, vale muito essa camisa, um milhão. Mais outra, outro milhão de reais.

Nem parecia que o filho estava acordando cedo. O bom humor do pequeno resplandecia naquela conversa, ainda sob a penumbra da madrugada. Ria do fundo da alma, como diante de um palhaço (não assassino!) fazendo piruetas no picadeiro.

O pai ainda brincou e deixou as etiquetas grudadas no armário, falando que depois ia pegar para conferir se tinha pago aqueles todos milhões por aquela camisa tão valiosa.

Enquanto o menino ia ao banheiro, o pai foi até a janela do próprio quarto. Observou o horizonte ainda negro, com poucas luzes dos prédios acesas. Fazia tempo que não entrava em devaneio tão profundo, embebido pela madrugada.

Sentiu um enorme prazer ao ver a cidade ainda adormecida, pacata, reverenciando um lado humano tão oculto nas cicatrizes diárias que a correria do dia a dia faz no asfalto e nas almas.

Lembrou-se então da ária Nessun Dorma, de Puccini na obra Turandot, e logo chamou o filho, que estava obediente e inebriado com aquela atmosfera misteriosa de início de dia.

— Filho, vem cá. Ouça no meu celular essa ópera, chama Nessun Dorma. Quer dizer Ninguém Durma. Pega um momento como esse, de madrugada, quando um homem, o Calaf, é o único que sabe que será o escolhido pela rainha. A revelação será na manhã seguinte.

Já na sala, incrementada pela vista do terraço, ele colocou a música no YouTube. Num segundo, a voz forte e encantadora, vinda do peito de Richard Tucker, preencheu o local. Depois envolveu todos os ambientes da casa de tal maneira que parecia alcançar o céu.

A música tocou também o menino. Junto com o pai, e em silêncio, foi vendo a manhã surgir colorida como se ela dançasse com aquela melodia. O gran finale era otimista e belo: "Vinceròòo! Vinceeeeeeeeeeeeròòòò....!"

Os barulhos iam aumentando na rua. Davam a impressão de que todos os insones da cidade se levantaram para o batente, em busca de alguma revelação. E que ninguém dormiu justamente devido ao sedutor convite à reflexão que a madrugada e seus fantasmas apresentam.

Apenas o pai teve a possibilidade de ir finalmente atrás de um cochilo, após deixar o filho na porta da perua, voltando para a cama por mais meia hora de sono. Quando saiu, apressado, para ir pegar o metrô, esqueceu das etiquetinhas grudadas no armário.

O filho, ao voltar, no fim do integral, as percebeu lá. E sentiu a luta do pai, que chegaria tarde, naquelas palavras que valorizavam a camiseta, a vida, a preocupação com a família, a insônia de um dia sonhar em ter, senão um milhão, pelos menos o suficiente para pagar o aluguel com tranquilidade.

Conseguiu intuir o motivo de o pai repetir, em tom de gozação, sobre aquele milhão tão engraçado. Intuiu mesmo sem saber muito bem o porquê. São as sábias conclusões de criança: a beleza da vida é que ela não existe sem dias de insônia. E apenas sussurrou baixinho, para si:

— Esse cara é mesmo uma figura...

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Cético

Um autor escrevia tanto sobre amor e morte, de forma cética e superficial, que passava a impressão de que ele não sabia o que era amar e nem amava o que era viver.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Respostas

A pior resposta nem sempre é o não, mas a não-resposta.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Peretz, a escola que uniu dois mundos

Por Eugenio Goussinsky
Desde que havia deixado o colégio I.L Peretz em 1974, aos cinco anos, eu nunca mais tinha entrado lá até o ano de 2007. Ou melhor: nunca entrara nessas unidades, já que fui aluno na época em que a escola ficava na Avenida Brasil, num espaço ajardinado rodeado por baixas cercas com placas de madeira.
Na minha mente de criança do Bialik, para onde me mudei, havia uma espécie de muro entre as duas instituições. Os mensageiros dessa outra realidade, para mim, eram os próprios alunos, amigos meus da Hebraica. Eles me passavam a impressão relativa aos seus universos, com olhares e um jeito de ver as coisas talvez de uma maneira mais prática.
Quantas vezes não juntamos nossos mundos em jogos na antiga quadra dos fundos do clube, percebendo que, por trás das "diferenças" escolares, batiam os corações de crianças ávidas em encontrar seus lugares? Fosse jogando futebol no campeonato, em que certa vez usamos a mesma camisa listrada do Santos, ou em qualquer outra atividade que compartilhávamos.
Nos cruzávamos em bar mitzvot, festas de primos, em ocasiões nas quais eu me aproximava de desvendar o mistério. Via cada um desses membros de outro colégio em suas intimidades. Diria que vestidos à paisana.
E no rastro desse enigma, descobri que a figura de Peretz, acima de tudo, era a de um humanista. Percebi isso no dia que em que pisei lá novamente. Um humanista, seja o poeta Bialik ou o escritor Peretz, une mundos. Como ocorreu comigo. O muro sumiu, como um encanto que permite enxergar exatamente como era o jardim do vizinho.
Adulto, revivi sensações de meus tempos de escola, ao levar meus filhos, Raul, o mais novo, e Diogo, o mais velho, de minha esposa, para lá. Enfrentávamos, ao som da Rádio Disney, o trânsito da Domingos de Morais até chegar ao portão de aço azul dos prédios da Madre Cabrini.
Os carros enfileirados, um pressionando o outro, esperavam as crianças com cara de sono se espalharem pelas calçadas rumo à entrada, preenchendo a rua de uma pressa viva.
Eu via a movimentação e, ao mesmo tempo, a interligava ao horizonte à frente, com a pracinha da Bíblia atraindo revoadas de pássaros, enquanto a manhã se espreitava pelas nuvens e pelos prédios da redondeza.
Depois, eu prosseguia o trajeto até a Rua Estado de Israel. Deixava o mais novo na entrada enfeitada por algumas plantas. Só saía assim que ele batia a mão para cumprimentar o Paulão, em um tranquilizador estalido de boas-vindas.
Muitas vezes eu fazia o trajeto de táxi com eles. E voltava a pé até o metrô Vila Mariana, pelas ruas bucólicas da região; o bosque dentro da escola; o jardim da Sena Madureira; as árvores e as casas geminadas; a banca e armazéns que dão à Capitão Macedo e à Coronel Lisboa ares interioranos.
Quando o Raul ainda frequentava o prédio do Vermelhinho, na Educação Infantil, eu o levava de mãos dadas.Subíamos as escadas, contemplando os trabalhinhos na parede, após passarmos pelo saguão geralmente enfeitado e pelos dois aquários na lateral que dava para o pátio. Então o deixava na classe, após cumprimentar a morá e receber às vezes uma reprimenda: "ele já está grandinho, pode vir sozinho".
Mas era prazeroso vê-lo subir sorridente e cativante, como se manteve até o último dia, quando, lá na quadra do Azulzinho, abraçando-o junto a mim, olhamos os balões soltos pelos pais, professores e alunos irem se diluindo pelo céu. Até não mais se encontrarem.
Não consigo mais visualizar as feições do Raulzinho dos primeiros anos da escola. Só me lembro da sensação de eu também estar voltando no tempo, ao sentir novamente o ambiente escolar acolhedor, que ajudava a me fortalecer para enfrentar a minha realidade de adulto.
Até parecia estranho eu ficar um tempinho sentado lá na entrada. Nunca faltou aquele café quentinho da garrafa térmica e as bolachas para complementarem o café da manhã. Ficava alguns minutos sorvendo aquele clima de encanto e espanto, de gestos que as crianças eternizam pela vida em seus corações, como os que vivenciei em meus tempos de menino.
Como me esquecer de quando todos acenamos com uma bandeirinha, para o Emerson Fittipaldi, vindo em um carro de bombeiros quando chegou ao Brasil, após ser campeão mundial em 1974?
Depois veio o Bialik. Para mim um foi a continuidade do outro. Uma fusão que no meu íntimo já havia sido concluída desde que o Diogo subiu aquelas escadas do Azulzinho.
Ele chegou sem conhecer ninguém. E logo misturou - aos corredores, às classes, às quadras, às rampas em zigue-zague, às salas de espera, às salas das coordenadoras - todas as mudanças de seu corpo e de seu rosto.
A mistura foi até a despedida, na adolescência, e seu 9.8 na recuperação de Geometria, quando comemorou, com seus mesmos cabelos lisos e castanhos, mas já com sua voz em transição e uma turma de amigos que cresceram como num passe de mágica.
Vou me lembrar sempre dos eventos entre pais e filhos no salão lá de cima ou na antiga sinagoga. E das danças no final, meio desajeitadas, lá na entrada. Da venda de uniformes no amplo porão, ao lado do almoxarifado e da piscina coberta, onde nascia a engrenagem da da escola.
Vou me lembrar das feiras de ciências com um toldo armado no pátio, em que no fundo havia um balcão com voluntários servindo salgados e outras guloseimas. Nessas ocasiões, era comum a correria das crianças pelas classes, esbanjando curiosidade em ver como era a escola fora do dia de aula.
Vou me lembrar da minha alegria, e do alívio, após cada reunião com as professoras, quando prevaleciam as boas notícias, cujo lado positivo era enfatizado sem que a realidade fosse perdida de vista.
Vou me lembrar dos rostos de cada pai e mãe, muitos dos quais reencontrei após o hiato da infância, já com seus filhos, dos quais também vou me lembrar.
Vou me lembrar do carinho das professoras, coordenadoras, diretores, funcionários, cada um ao seu estilo, sempre com uma dedicação terna e serena.
Vou me lembrar do parquinho, dos jabutis da horta do pátio, testemunhando em seus ritmos lentos a velocidade frenética das crianças se desenvolvendo em alarido.
Vou me lembrar do Raul olhando para trás, antes de entrar na escola para os desafios de um novo dia. E do meu olhar de incentivo, dizendo "mete a cara, filhão".
Vou me lembrar das músicas que marcavam nossas idas, da Rihanna, da Sia, da Kate Perry, do Jota Quest e clássicos dos anos 80.
Vou me lembrar de quando eu esperava o Raul na saída, do lado de dentro, observando a árvore ao lado do muro balançar no ritmo do vento e da vida. E cumprimentando seus amiguinhos que vinham, correndo desde a rampa, me perguntar quanto foi o jogo do Corinthians. O porteiro, pelo microfone, já começava a chamar um por um.
Vou me lembrar dos balões da despedida, como pessoas, separarem seus caminhos no alto. Mas com a diferença que elas, as pessoas, terão para sempre o poder de se reencontrar a qualquer momento. Sempre que puderem. Sempre que quiserem. Quando se lembrarem.
Vou me lembrar, mesmo que esse Peretz das minhas descrições tenha acabado ontem. Um outro, certamente, vai continuar em mim amanhã. Porque desde hoje estará correndo na alma de meus filhos.
E agora, vou encaixando uma emoção aqui, outra ali. Gratidão, afeto, saudade e a necessária esperança estão encontrando gradativamente os seus lugares. Tenho certeza de que, como sempre fiz em minha vida, vou dar um jeito. Já sei até qual a melhor maneira. Vou me lembrar.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Frase

O professor sabia muito, era inteligente, bom em tudo
Exímio orador, compreensivo, de invejável conteúdo
Versado na origem da vida, conhecia religião e biosfera
Entendia o que vinha oculto, de tanto que era culto
Só não sabia explicar uma coisa, ao ouvir a velha frase
Dinheiro não é o mais importante, vale mais a profundidade
Por que me pagam tão pouco, se só falam da minha qualidade?

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Realizações

A infância serve para criarmos nossos sonhos. A maturidade, para tentar realizá-los.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Ilusões

Ele manda uma carta reclamando em público e depois fala que não busca rompimento.
Ele deixa vazar um áudio falando em assumir o lugar do outro e depois fala que era um ensaio para uma peça de teatro.
Já no lugar do outro, ele forma uma equipe só com vozeirão, terno, gravata e barba, mas fala que não tem nada contra aquela que gera os filhos.
Um dos seus projetos tira da escola o esporte e a arte, mas ele fala que admira a sensibilidade humana.
Ele gasta dinheiro em jantares de gala para pedir que gastem menos com as pessoas e fala que valoriza a saúde e a educação.
Ele escreve "Labaredas de fogo" e "lábios rubros" e fala que faz poesia.
Ele pensa que não engana os outros, enganando a si mesmo e não percebe que está se dando um golpe.

Quadra

Ela parecia um organismo à parte na escola. Mas não era. Aquela quadra, lá no fundo, era um local onde pairavam os desejos de herói das crianças que corriam por sua superfície. Nos recreios, era um cenário de sonhos.

Os meninos costumavam tomar conta do espaço. Corriam em alarido dentro de times que chegavam a ter trinta jogadores cada. E, da confusão repentina, de repente surgia a bola e ela era chutada por um predestinado que comemorava a sorte de ser o contemplado com um gol.

As meninas só podiam usá-la mais tranquilamente na Educação Física delas,  que afastava aquele avassalador trovejar de  passos dos garotos em direção ao seu templo sagrado.

Era quando, regidas pela morá (professora) Rose, as minhas escolhidas  desfilavam, para mim, seus ares de musas inspiradoras, com saques por baixo e olhares de soslaio.

O local era coberto, na parte de trás do Colégio Bialik. Ficava logo depois de um pequeno pátio, meio escuro, entre a cantina e o pátio principal.

Ligava, como uma entrada de serviço, o setor do ginásio ao do pré-primário, por uma escada de ferro que mudava de direção.

Por suas paredes de cimento, pintadas de branco, ressoava um pouco da alma de cada um. Peculiar, a quadra tinha também a missão de ser uma pausa da tensão das aulas e ao mesmo tempo um espelho do que acontecia lá.

Quando eu tinha acabado de entrar na escola, ela me ajudou a conhecer meus novos amigos, apresentando de certa maneira o futebol para mim. Me interessei, fui ver o jogo do Corinthians contra o Fluminense em 1976, com o saudoso Capita em campo, e me apaixonei para sempre.

Enquanto corria por sua superfície de concreto, toda pintada de um verde gasto, via as marca das áreas, do meio-campo e das laterais como se fossem riscadas a giz. E sua superfície verde escura, gasta, era como uma lousa de ensinamento para mim.

Nela, eram reveladas minhas esperanças em driblar. E minhas inseguranças ao errar, competindo com meus amigos nesta fase de aprendizado. Lá, por mais de 10 anos, conheci muitas lições sobre a identidade humana, inclusive a minha. Tal oráculo apontava momentos de mágoa, de graça, de altruísmo de um passe ou do egoísmo da reclamação.

Era preciso ser forte para vencer naquela quadra: e vencer, no caso, era conhecer a própria essência, independentemente dos gols sofridos ou das discussões da infância.

E o esporte foi se tornando tão importante que, a cada dia, a aula de Educação Física era a mais esperada. E quando o professor Abelardo, um uruguaio de olhar sério e cabelos enrolados, que educava com poucas palavras, e depois do professor Ricardo, o típico boa gente, diziam que iria ter futebol, então...

E quando me sentia um pouco isolado e já cansado de ter de seguir regras e aguentar a rotina imposta desde cedo, que somos obrigados a seguir, ousava entrar sozinho na quadra. Geralmente, todos já tinham ido embora.

Sentava em um canto e só ficava escutando aquele silêncio de fundo de mar. Também andava pelas linhas, observava cada ângulo adormecido, lembrando-me de como há instantes o agito preenchia aquelas entranhas agora vazias.

Escutava apenas os sons lá de fora. Buzinadas de carro, brecadas, um grito de uma criança, o ritmo pulsante do dia chegavam um tanto abafados. Protegidos.  Até a luz do sol podia ser vista por frestas. Que também deixavam passar as gotas de chuva. E a cada gesto meu, ela respondia. Pisava mais forte, o som aumentava.

Se eu sussurrava, ouvia sua resposta imediata ecoar, generosa, alcançando e ampliando minha voz. Refletindo com transparência a minha, a nossa, realidade solitária.

Se gritasse, ela acolhia o berro e ia diminuindo os ecos até eles cessarem, contidos como círculos em um lago ou um soluçar que se rende ao alívio. Ela era bondosa e implacável. Quando adulto, a revi de passagem e fiquei impressionado com suas dimensões, tão menores do que imaginava. E mais uma vez ela me apontou uma verdade: a infância passara.

No fundo, em nossas conversas daqueles tempos sem palavras, ela filtrava tudo para mim e dizia: "Olha, a vida lá fora continua, só lhe resta entrar no jogo e fazer a sua parte. Simbolizo o palco dos homens. Quando precisar, estarei aqui, pode se sentar e descansar no meu silêncio." A quadra da escola já não existe mais, no concreto. Mas o seu conselho, ecoa em mim até hoje.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Rina

Meu pai me levava todos os dias para a escola. Íamos de carro, passando por ruas arborizadas, com algumas casas imponentes, ao estilo inglês, outras mais simples, ajardinadas, mas sempre com uma identidade que dava beleza ao trajeto. Era uma preparação bucólica para as aulas.
Ao chegar, lá estava a morá (em hebraico, professora) Rina, a coordenadora. Já andava pela rampa coberta, que ligava a entrada ao pátio, ladeada de um belo mosaico colorido de pedras, com uma imagem dos Macabeus. Ficava por lá para organizar as filas dos alunos no hino. Iniciava a rotina bem antes das 7h10, quando o sinal estridente batia.
Às vezes a rigidez de seu grito agudo, com timbre do leste europeu, ressoava pelo pátio. Eu muitas vezes era o alvo. Sempre com brincadeirinhas para preencher algum temor diante das obrigações de um aluno.
Havia também as broncas durante os ensaios para o seder de Pessach, lá no salão do Colégio Bialik, embaixo da sede administrativa. O nome Bialik era uma homenagem a um importante poeta judeu do leste europeu no século XIX.
No dia-a-dia, era intrigante descer aquelas escadas do salão, passar por uma cortina e adentrar naquele local meio escondido, amadeirado, com um amplo palco ao fundo. Muitas vezes, no recreio, jogávamos futebol de meia naquele piso liso de tábuas.
Na parede ao lado da escada de entrada do salão ficava uma portinha que dava para o refeitório. Era possível também entrar pela escada, pelo lado da área administrativa. Naquele refeitório de azulejos brancos, funcionárias como a Ana, de óculos e cabelos ondulados, e a Conça, senhora negra, volumosa e muito simpática, serviam as crianças.
A garotada, em balbúrdia, sempre aprontava alguma: uma guerra de comida que sujava as paredes, para desespero justificado delas, ou a bagunça nas longas mesas perfiladas.
Nos ensaios de Pessach, a morá Rina separava os grupos. Comandava os preparativos para a cerimônia que contaria com a presença dos pais, em noite especiais. Todos os alunos, em cada nível respectivo de ensino, tinham o direito de participar.
Permaneciam, entre cochichos e risadinhas, sentados diante de amplas mesas espalhadas pelo salão, com pratinhos preenchidos com ingredientes tipo matzá e copinhos de suco de uva no lugar do vinho. Cada um era incluído. Nem que fosse com uma pequena frase.
Ninguém compreendia bem tamanha dedicação. Muitos até se queixavam do jeito um pouco bravo dela. Sem se darem conta da responsabilidade que ela atribuía a si mesma. Queria passar uma mensagem judaica e educativa para um punhado de alunos ainda em busca de referências, no processo de crescimento.
A passagem que mais a emocionava, e que tinha a ver com seus objetivos renascidos, era quando alguém recitava o poema iniciado com "Bem aventurada seja a chispa, que ardeu e acendeu labaredas"...Todo aquele ritual era algo que ela prezava, um sentido comunitário cuja importância conheceu em seus tempos difíceis da Romênia, onde nasceu.
Outro momento que a tocava eram as aulas de Shirim (músicas), ministradas por seu filho, o dócil moré Felipe, com um acordeão. Durante o coro de crianças cantando composições judaicas, os olhos azuis da morá Rina brilhavam um pouco mais. E contrastavam com seus cabelos lisos e ruivos.
Ela se sentia plena, como se estivesse desfazendo naquele colégio o novelo de seu passado de perseguições e tudo que muitos judeus conhecem em suas famílias.
Ficaria linhas e linhas contando episódios que vivenciei com a morá Rina. O dia em que ela chorou por eu ter brincado, involuntariamente, sobre a peça de teatro que montávamos...O momento em que ela chorou quando cantei em meu Bar-Mitzvá. O resultado seria o mesmo.
Triste ou feliz, séria ou alegre, brava ou calma, o seu rio de sentimentos canalizava sempre para a minha convicção de que ela amava o que fazia e os seus alunos. E sempre que estava comigo deixava claro que, naquele momento, aquele menino rebelde e sensível era para ela o mais importante.
Atuou lá por mais de 30 anos. Como qualquer professor, pouco falava de si. Os alunos, em suas funções naturais, mal queriam saber. Tinham outras preocupações ou afazeres.  Ela sabia. E atendia também com métodos intuitivos.
Recebia todos em sua salinha no primeiro andar do prédio principal. Eram como visitas quase familiares. Ouvia sorridente a correria pelas escadas para depois, disfarçando com estilo durão, sair pela porta reclamando do alarido em excesso.
Mesmo quando mudou a diretoria, e ela acabou encostada em um cantinho, o jeito de falar, as passadas firmes pelos corredores, que não escondiam ternura, eram uma marca da escola.
Até que as duas - a morá e depois a escola - se foram. Nem despedida houve. Nenhuma palavra, nenhum adeus. Tudo se diluiu pelos novos desafios, rotina, formatura, faculdade, carreira...distanciamento.
Um dia, porém, eu quis conferir se tinham ido mesmo, passados trinta anos. Eram 7h10 da manhã quando refiz aquele trajeto, pelas casas bonitas, lembrando das conversas com meu pai. Ao chegar, depois de um trânsito bem mais pesado, não havia mais nada daquele tempo lá.
O terreno da escola fora vendido para um empreendimento imobiliário de luxo. Onde ficava o salão, tinha uma piscina. A rampa lateral deu lugar a um canteiro de palmeiras. O mosaico de Macabeus ruiu para a colocação de um muro bege. O refeitório abrigava a garagem.
Mas posso até dizer que, entre o canto dos passarinhos e o barulho da fonte de água da entrada, ouvi aquele sotaque. Olhei com a esperança de ver algo da antiga construção. Uma lâmpada incandescente, um distintivo do velho candelabro (símbolo do colégio), uma cadeira fora de época, uma lousa desbotada ao lado de uma mureta...Ou um fio de cabelo ruivo adormecido na calçada.
Não. Vi apenas alguns degraus de mármore. Eles terminavam em uma ampla e impessoal portaria, vigiada por três seguranças engravatados. Sei lá. Meio frustrado, meio saciado, resolvi acelerar o carro. Como fez o tempo em relação a mim, ao meu pai, à poesia do nome, aos jogos no salão, aos ensaios, ao Bialik.
Só deixei em meu rastro as palavras que escrevo agora. São a canção que fiz para a morá Rina. Além da gratidão, elas, são pelo menos, o meu consolo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Lunático

Quem não acredita no que digo, espere um pouco, sente, cante comigo.
Quem não acredita no que falo, resista à tentação  poderosa de achar o fim no intervalo.
Quem não acredita no que vejo, espere para ver muito além do seu ou do meu desejo.
Quem não acredita no que escuto, ouça o som interior pulsando em lugar do mundo fajuto.
Quem não acredita no que penso, deixe de pensar somente no padrão imposto do consenso.
Quem não acredita no que escrevo, destrua meus textos, me aponte com o dedo em riste o que lhe devo.
Quem não acredita no que sonho, crie seu horizonte, rebata com amor os versos que componho.
Quem não acredita no que acredito, perdoe minha ousadia, me diga seu adeus, esqueça o que eu digo, o que falo, o que vejo, o que escuto, o que penso, o que escrevo, o que sonho, o que acredito. Deixe tudo apenas para mim. E eu, a contragosto, o evito.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Enganos

Muitos enganam por pensarem demais no ouro. E se enganam por pensarem menos no outro.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Constatação

Ser amigo não necessariamente significa ter amigos.

Contradição

Ele era pobre. No entanto, tudo que dizia valia ouro.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Mutantes Dois

Tudo muda nesta vida,
O botão que vira flor
O choro que cessa cansado
O desprezo que vira clamor
A noite polvilhada de estrelas
Que acorda com o sol na janela
A tentar com atraso entretê-las
A boneca que já não tem graça
O luto se tornando lembrança
Dizendo como o tempo passa
A barba da outrora criança
O fim de semana que chega
A bela morena que dança
O título um dia impossível
A amizade levada com o vento
O homem frio e insensível
O brega antes de ser novidade
A espera que nunca termina
A ânsia da mocidade
A dor do fim de um romance
O sonho do sono no leito
Acenando com outra chance
O instante já sendo o futuro
Ajudando a curar a ferida
Do outro lado de um muro
O sibilar de uma chicotada
A fórmula do esquecimento
No longo trajeto na estrada
A palavra que é penetrante
Procurando no vago universo
O sorriso em um semblante
O silêncio de uma praça vazia
A insistência do milionário
Que nunca se satisfazia
Um arco-íris no horizonte
Unindo lados opostos
Fazendo do céu uma ponte
O rufar de um longínquo tambor
Na selva de pedra do mundo
Pedindo um pouco de amor
Tudo muda nesta vida
Uma multidão enfurecida
Máscaras que escondem rostos
O homem e sua medida
Tudo muda nesta vida
Somente uma coisa não
É o correr do tempo profundo
Soprando o carinho do mestre
Pelo menino a driblar o mundo
Nas mudanças da eternidade
Tudo que aconteceu, você verá
O que aconteceu, aconteceu
E para sempre acontecerá

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Imutável

Tudo muda nesta vida. A única coisa que não muda é o que aconteceu, você verá. O que aconteceu, aconteceu. E sempre acontecerá.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Dupla

Na escola, um dos momentos mais reconfortantes era o recreio. Ouvir o sinal e correr pelas escadas amplas do antigo prédio do Colégio Bialik simbolizava um alívio da pressão de estudar, do peso da responsabilidade. Bem que a professora Marlene um dia comentou com minha mãe, quando me viu aproveitar o último restinho do jogo na quadra coberta, lá nos fundos: "Nessa idade, um minuto vale ouro". Sempre encarei desta maneira. A espera ansiosa pelo fim da aula longa se transformava em um universo de oportunidades no instante do minuto livre, que me ensinava ainda mais do que algumas orientações dos professores. E me levava a crescer um tantinho por meio dos meus sonhos. Naqueles recreios libertos de um olhar adulto, me deparava com minhas observações infantis. Nelas, escondendo minha timidez em piadinhas com os colegas, sempre tive um certo medo do Décio e do Fabinho. Além da questão deles serem mais velhos, jogavam muito bem futebol. E quando digo jogavam bem, não é a frase vulgar dita a qualquer menino mais habilidoso. Eles para mim pareciam abençoados por uma força maior, que os movimentava em malabarismos dentro das quatro linhas. O Fabinho era um ano mais velho do que eu. E o Décio, dois. Intimidava-me o ar um tanto convencido que eles passavam, confundindo-o com minha própria insegurança de não me dar conta de que eu podia, de alguma maneira, fazer o que eles faziam. Uma vez, no campinho do jardim do Leco, primo do Décio, dei uns dois cortes nele, me senti um pouco capaz e logo sumi. Ele não. Ironizando adversidades, Décio se impunha com sua canhota mirabolante. Era algo inato. Seus movimentos com a esquerda fluíam e culminavam com um chute certeiro, que só ele sabia dar: seco, seguro, geométrico. Sua categoria já era um prolongamento do corpo. Já se misturava ao rosto de menino, um tanto magro e sardento, com cabelos levemente longos. Ele até andava um pouco na ponta dos pés para expressar sua altivez. O Fabinho, então, era pura habilidade. Jogava como se brincasse consigo mesmo, em um diálogo com sua inspiração. Desenterrava dribles incríveis com uma segurança que nem parecia ser de criança. E dessa conversa rápida, silenciosa, extraía jogadas que emergiam surpreendentes de seu íntimo, em nuances de ilusão de ótica ou truque de magia. Ele driblava nossos olhares marcando gols impressionantes pelo clube A Hebraica, com quem jogava também com o Décio e, lá, completava o trio com o ótimo ala Celsinho, hoje coordenador da equipe de futsal em que meu filho joga. Se dizem que Messi deixa a bola grudada no pé, Fabinho já fazia isso. Piadista e explosivo, se impunha diante dos fixos, como ágil pivô, barganhando com seu corpo robusto, de estatura média, e transformando a cara de menino, com olhinhos escuros, no rosto de um pequeno desbravador. Os lábios grossos, pele morena e o cabelo curto, com franjas, completavam a imagem que tanto respeito despertava nos adversários. Aquele físico tão único, conhecido em todo o meio do futsal, escondia segredos da bola, fazendo-a atender seus pedidos repentinos sem que precisasse dizer uma palavra. Passei a infância observando Décio e Fabinho jogarem, nos muros protetores da escola e dentro da muralha que ficavam minhas fragilidades. Vivia sentado na tribuna de honra de minha admiração muda. Que guardava cada lance, para sempre. Era como se eles atuassem por mim, demonstrassem, com suas personalidades fortes e seus estilos únicos, aquilo que eu gostaria - e até podia - de fazer, mas não fazia. Hoje, como futebolista frustrado, eu me reputo um Paulo Henrique Ganso que não deu certo. Um talentoso que só descobriu o talento quando teve tempo de se lembrar. Não digo que eu seria como o Décio ou o Fabinho, mas poderia fazer da minha maneira algo tão bom quanto o que eles fizeram com a deles. Eles também, vai saber o porquê, não se tornaram jogadores. Se não me tornei, aprimorei o meu amor pelo jogo com a ajuda involuntária dos dois. Aquelas jogadas do Décio e do Fabinho carregavam o encanto de uma época. Craques consagrados, como Zico ou Sócrates, não costumavam virar de letra uma bola para o outro lado da quadra como o Fabinho fez um dia. E nem Rivellino dominava sempre com a técnica e batia todas com tanta arte como o Décio fazia. Éder era fichinha perto dele. Tal qual na frase de Aldous Huxley, tudo isso me abria as portas da percepção. Ajudou-me a desenvolver minha criatividade, baseada na importância do instante, na plástica de um único toque, no detalhe que compõe a saga de uma partida, de uma vida. Na gota de talento que alimenta o orgulho e perdura pelo infinito. Assim, sempre me ative ao lance fabuloso que não percebo outros perceberem. Um toque de costas despretensioso, no meio de campo, por cima do corpo, para mim amplia horizontes. Muitos podem até achar que o jogador fez péssima partida, eu não. Por isso, em cada drible, em cada cruzamento preciso, cada tentativa ousada, minha paixão à flor da pele não admite que falem que o brasileiro já não cria. Cresci com essas vivências incrustadas, admirando o belo, retratado na ação daquelas duas figuras fundamentais da minha infância. Certamente, se mantêm entre as melhores recordações daqueles tempos, cheios de incertezas e temores. Nossa diferença de idade, inclusive, já não pesa tanto e serve para diluir o medo. Percebi essa cumplicidade quando vi uma foto do Décio, atualmente, dominando uma bola com a coxa. O Facebook também tem coisas boas. No homem já perto dos 50, me veio à mente aquele garoto, que não virou profissional - passou a trabalhar com eles como empresário - com o mesmo zelo pela técnica. Os dois foram para outras áreas porque também tinham outras habilidades. Se o deslumbramento tomou outros caminhos, estes não foram capazes de apagar tudo aquilo. Aliás, nada é. O mundo gira, as coisas passam, mas o inato nunca deixará de se manifestar, seja em um olhar, seja em uma pelada que rega a saudade, seja simplesmente na recordação diante de uma quadra de futsal. A parte invejosa do mundo é incapaz de jogar na lama todos os diamantes mais valiosos. Muitos sobram, sempre. Tornei-me um lapidador destes diamantes, não levando tão a sério as críticas amargas a este ou aquele bom jogador; a fúria contra o bom homem que cometeu uma gafe; a surdez diante de um poema profundo ou a cegueira que não vê o brilho fulgurante da intuição. Tento apenas compreender quando se esquecem do mais valioso da seresta. Na feiúra de uma cidade, a beleza do pôr do sol também emerge de seus arranha-céus. E se o cantor de restaurante cantar com arte e leveza, aplaudo, tentando compensar a sua solidão. Aqueles dois meninos fazem parte desse legado. Sei que os que só acusam ou se calam não tiveram o meu privilégio. Eles não viram Décio e Fabinho.