terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Peretz, a escola que uniu dois mundos

Por Eugenio Goussinsky
Desde que havia deixado o colégio I.L Peretz em 1974, aos cinco anos, eu nunca mais tinha entrado lá até o ano de 2007. Ou melhor: nunca entrara nessas unidades, já que fui aluno na época em que a escola ficava na Avenida Brasil, num espaço ajardinado rodeado por baixas cercas com placas de madeira.
Na minha mente de criança do Bialik, para onde me mudei, havia uma espécie de muro entre as duas instituições. Os mensageiros dessa outra realidade, para mim, eram os próprios alunos, amigos meus da Hebraica. Eles me passavam a impressão relativa aos seus universos, com olhares e um jeito de ver as coisas talvez de uma maneira mais prática.
Quantas vezes não juntamos nossos mundos em jogos na antiga quadra dos fundos do clube, percebendo que, por trás das "diferenças" escolares, batiam os corações de crianças ávidas em encontrar seus lugares? Fosse jogando futebol no campeonato, em que certa vez usamos a mesma camisa listrada do Santos, ou em qualquer outra atividade que compartilhávamos.
Nos cruzávamos em bar mitzvot, festas de primos, em ocasiões nas quais eu me aproximava de desvendar o mistério. Via cada um desses membros de outro colégio em suas intimidades. Diria que vestidos à paisana.
E no rastro desse enigma, descobri que a figura de Peretz, acima de tudo, era a de um humanista. Percebi isso no dia que em que pisei lá novamente. Um humanista, seja o poeta Bialik ou o escritor Peretz, une mundos. Como ocorreu comigo. O muro sumiu, como um encanto que permite enxergar exatamente como era o jardim do vizinho.
Adulto, revivi sensações de meus tempos de escola, ao levar meus filhos, Raul, o mais novo, e Diogo, o mais velho, de minha esposa, para lá. Enfrentávamos, ao som da Rádio Disney, o trânsito da Domingos de Morais até chegar ao portão de aço azul dos prédios da Madre Cabrini.
Os carros enfileirados, um pressionando o outro, esperavam as crianças com cara de sono se espalharem pelas calçadas rumo à entrada, preenchendo a rua de uma pressa viva.
Eu via a movimentação e, ao mesmo tempo, a interligava ao horizonte à frente, com a pracinha da Bíblia atraindo revoadas de pássaros, enquanto a manhã se espreitava pelas nuvens e pelos prédios da redondeza.
Depois, eu prosseguia o trajeto até a Rua Estado de Israel. Deixava o mais novo na entrada enfeitada por algumas plantas. Só saía assim que ele batia a mão para cumprimentar o Paulão, em um tranquilizador estalido de boas-vindas.
Muitas vezes eu fazia o trajeto de táxi com eles. E voltava a pé até o metrô Vila Mariana, pelas ruas bucólicas da região; o bosque dentro da escola; o jardim da Sena Madureira; as árvores e as casas geminadas; a banca e armazéns que dão à Capitão Macedo e à Coronel Lisboa ares interioranos.
Quando o Raul ainda frequentava o prédio do Vermelhinho, na Educação Infantil, eu o levava de mãos dadas.Subíamos as escadas, contemplando os trabalhinhos na parede, após passarmos pelo saguão geralmente enfeitado e pelos dois aquários na lateral que dava para o pátio. Então o deixava na classe, após cumprimentar a morá e receber às vezes uma reprimenda: "ele já está grandinho, pode vir sozinho".
Mas era prazeroso vê-lo subir sorridente e cativante, como se manteve até o último dia, quando, lá na quadra do Azulzinho, abraçando-o junto a mim, olhamos os balões soltos pelos pais, professores e alunos irem se diluindo pelo céu. Até não mais se encontrarem.
Não consigo mais visualizar as feições do Raulzinho dos primeiros anos da escola. Só me lembro da sensação de eu também estar voltando no tempo, ao sentir novamente o ambiente escolar acolhedor, que ajudava a me fortalecer para enfrentar a minha realidade de adulto.
Até parecia estranho eu ficar um tempinho sentado lá na entrada. Nunca faltou aquele café quentinho da garrafa térmica e as bolachas para complementarem o café da manhã. Ficava alguns minutos sorvendo aquele clima de encanto e espanto, de gestos que as crianças eternizam pela vida em seus corações, como os que vivenciei em meus tempos de menino.
Como me esquecer de quando todos acenamos com uma bandeirinha, para o Emerson Fittipaldi, vindo em um carro de bombeiros quando chegou ao Brasil, após ser campeão mundial em 1974?
Depois veio o Bialik. Para mim um foi a continuidade do outro. Uma fusão que no meu íntimo já havia sido concluída desde que o Diogo subiu aquelas escadas do Azulzinho.
Ele chegou sem conhecer ninguém. E logo misturou - aos corredores, às classes, às quadras, às rampas em zigue-zague, às salas de espera, às salas das coordenadoras - todas as mudanças de seu corpo e de seu rosto.
A mistura foi até a despedida, na adolescência, e seu 9.8 na recuperação de Geometria, quando comemorou, com seus mesmos cabelos lisos e castanhos, mas já com sua voz em transição e uma turma de amigos que cresceram como num passe de mágica.
Vou me lembrar sempre dos eventos entre pais e filhos no salão lá de cima ou na antiga sinagoga. E das danças no final, meio desajeitadas, lá na entrada. Da venda de uniformes no amplo porão, ao lado do almoxarifado e da piscina coberta, onde nascia a engrenagem da da escola.
Vou me lembrar das feiras de ciências com um toldo armado no pátio, em que no fundo havia um balcão com voluntários servindo salgados e outras guloseimas. Nessas ocasiões, era comum a correria das crianças pelas classes, esbanjando curiosidade em ver como era a escola fora do dia de aula.
Vou me lembrar da minha alegria, e do alívio, após cada reunião com as professoras, quando prevaleciam as boas notícias, cujo lado positivo era enfatizado sem que a realidade fosse perdida de vista.
Vou me lembrar dos rostos de cada pai e mãe, muitos dos quais reencontrei após o hiato da infância, já com seus filhos, dos quais também vou me lembrar.
Vou me lembrar do carinho das professoras, coordenadoras, diretores, funcionários, cada um ao seu estilo, sempre com uma dedicação terna e serena.
Vou me lembrar do parquinho, dos jabutis da horta do pátio, testemunhando em seus ritmos lentos a velocidade frenética das crianças se desenvolvendo em alarido.
Vou me lembrar do Raul olhando para trás, antes de entrar na escola para os desafios de um novo dia. E do meu olhar de incentivo, dizendo "mete a cara, filhão".
Vou me lembrar das músicas que marcavam nossas idas, da Rihanna, da Sia, da Kate Perry, do Jota Quest e clássicos dos anos 80.
Vou me lembrar de quando eu esperava o Raul na saída, do lado de dentro, observando a árvore ao lado do muro balançar no ritmo do vento e da vida. E cumprimentando seus amiguinhos que vinham, correndo desde a rampa, me perguntar quanto foi o jogo do Corinthians. O porteiro, pelo microfone, já começava a chamar um por um.
Vou me lembrar dos balões da despedida, como pessoas, separarem seus caminhos no alto. Mas com a diferença que elas, as pessoas, terão para sempre o poder de se reencontrar a qualquer momento. Sempre que puderem. Sempre que quiserem. Quando se lembrarem.
Vou me lembrar, mesmo que esse Peretz das minhas descrições tenha acabado ontem. Um outro, certamente, vai continuar em mim amanhã. Porque desde hoje estará correndo na alma de meus filhos.
E agora, vou encaixando uma emoção aqui, outra ali. Gratidão, afeto, saudade e a necessária esperança estão encontrando gradativamente os seus lugares. Tenho certeza de que, como sempre fiz em minha vida, vou dar um jeito. Já sei até qual a melhor maneira. Vou me lembrar.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Frase

O professor sabia muito, era inteligente, bom em tudo
Exímio orador, compreensivo, de invejável conteúdo
Versado na origem da vida, conhecia religião e biosfera
Entendia o que vinha oculto, de tanto que era culto
Só não sabia explicar uma coisa, ao ouvir a velha frase
Dinheiro não é o mais importante, vale mais a profundidade
Por que me pagam tão pouco, se só falam da minha qualidade?

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Realizações

A infância serve para criarmos nossos sonhos. A maturidade, para tentar realizá-los.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Ilusões

Ele manda uma carta reclamando em público e depois fala que não busca rompimento.
Ele deixa vazar um áudio falando em assumir o lugar do outro e depois fala que era um ensaio para uma peça de teatro.
Já no lugar do outro, ele forma uma equipe só com vozeirão, terno, gravata e barba, mas fala que não tem nada contra aquela que gera os filhos.
Um dos seus projetos tira da escola o esporte e a arte, mas ele fala que admira a sensibilidade humana.
Ele gasta dinheiro em jantares de gala para pedir que gastem menos com as pessoas e fala que valoriza a saúde e a educação.
Ele escreve "Labaredas de fogo" e "lábios rubros" e fala que faz poesia.
Ele pensa que não engana os outros, enganando a si mesmo e não percebe que está se dando um golpe.

Quadra

Ela parecia um organismo à parte na escola. Mas não era. Aquela quadra, lá no fundo, era um local onde pairavam os desejos de herói das crianças que corriam por sua superfície. Nos recreios, era um cenário de sonhos.

Os meninos costumavam tomar conta do espaço. Corriam em alarido dentro de times que chegavam a ter trinta jogadores cada. E, da confusão repentina, de repente surgia a bola e ela era chutada por um predestinado que comemorava a sorte de ser o contemplado com um gol.

As meninas só podiam usá-la mais tranquilamente na Educação Física delas,  que afastava aquele avassalador trovejar de  passos dos garotos em direção ao seu templo sagrado.

Era quando, regidas pela morá (professora) Rose, as minhas escolhidas  desfilavam, para mim, seus ares de musas inspiradoras, com saques por baixo e olhares de soslaio.

O local era coberto, na parte de trás do Colégio Bialik. Ficava logo depois de um pequeno pátio, meio escuro, entre a cantina e o pátio principal.

Ligava, como uma entrada de serviço, o setor do ginásio ao do pré-primário, por uma escada de ferro que mudava de direção.

Por suas paredes de cimento, pintadas de branco, ressoava um pouco da alma de cada um. Peculiar, a quadra tinha também a missão de ser uma pausa da tensão das aulas e ao mesmo tempo um espelho do que acontecia lá.

Quando eu tinha acabado de entrar na escola, ela me ajudou a conhecer meus novos amigos, apresentando de certa maneira o futebol para mim. Me interessei, fui ver o jogo do Corinthians contra o Fluminense em 1976, com o saudoso Capita em campo, e me apaixonei para sempre.

Enquanto corria por sua superfície de concreto, toda pintada de um verde gasto, via as marca das áreas, do meio-campo e das laterais como se fossem riscadas a giz. E sua superfície verde escura, gasta, era como uma lousa de ensinamento para mim.

Nela, eram reveladas minhas esperanças em driblar. E minhas inseguranças ao errar, competindo com meus amigos nesta fase de aprendizado. Lá, por mais de 10 anos, conheci muitas lições sobre a identidade humana, inclusive a minha. Tal oráculo apontava momentos de mágoa, de graça, de altruísmo de um passe ou do egoísmo da reclamação.

Era preciso ser forte para vencer naquela quadra: e vencer, no caso, era conhecer a própria essência, independentemente dos gols sofridos ou das discussões da infância.

E o esporte foi se tornando tão importante que, a cada dia, a aula de Educação Física era a mais esperada. E quando o professor Abelardo, um uruguaio de olhar sério e cabelos enrolados, que educava com poucas palavras, e depois do professor Ricardo, o típico boa gente, diziam que iria ter futebol, então...

E quando me sentia um pouco isolado e já cansado de ter de seguir regras e aguentar a rotina imposta desde cedo, que somos obrigados a seguir, ousava entrar sozinho na quadra. Geralmente, todos já tinham ido embora.

Sentava em um canto e só ficava escutando aquele silêncio de fundo de mar. Também andava pelas linhas, observava cada ângulo adormecido, lembrando-me de como há instantes o agito preenchia aquelas entranhas agora vazias.

Escutava apenas os sons lá de fora. Buzinadas de carro, brecadas, um grito de uma criança, o ritmo pulsante do dia chegavam um tanto abafados. Protegidos.  Até a luz do sol podia ser vista por frestas. Que também deixavam passar as gotas de chuva. E a cada gesto meu, ela respondia. Pisava mais forte, o som aumentava.

Se eu sussurrava, ouvia sua resposta imediata ecoar, generosa, alcançando e ampliando minha voz. Refletindo com transparência a minha, a nossa, realidade solitária.

Se gritasse, ela acolhia o berro e ia diminuindo os ecos até eles cessarem, contidos como círculos em um lago ou um soluçar que se rende ao alívio. Ela era bondosa e implacável. Quando adulto, a revi de passagem e fiquei impressionado com suas dimensões, tão menores do que imaginava. E mais uma vez ela me apontou uma verdade: a infância passara.

No fundo, em nossas conversas daqueles tempos sem palavras, ela filtrava tudo para mim e dizia: "Olha, a vida lá fora continua, só lhe resta entrar no jogo e fazer a sua parte. Simbolizo o palco dos homens. Quando precisar, estarei aqui, pode se sentar e descansar no meu silêncio." A quadra da escola já não existe mais, no concreto. Mas o seu conselho, ecoa em mim até hoje.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Rina

Meu pai me levava todos os dias para a escola. Íamos de carro, passando por ruas arborizadas, com algumas casas imponentes, ao estilo inglês, outras mais simples, ajardinadas, mas sempre com uma identidade que dava beleza ao trajeto. Era uma preparação bucólica para as aulas.
Ao chegar, lá estava a morá (em hebraico, professora) Rina, a coordenadora. Já andava pela rampa coberta, que ligava a entrada ao pátio, ladeada de um belo mosaico colorido de pedras, com uma imagem dos Macabeus. Ficava por lá para organizar as filas dos alunos no hino. Iniciava a rotina bem antes das 7h10, quando o sinal estridente batia.
Às vezes a rigidez de seu grito agudo, com timbre do leste europeu, ressoava pelo pátio. Eu muitas vezes era o alvo. Sempre com brincadeirinhas para preencher algum temor diante das obrigações de um aluno.
Havia também as broncas durante os ensaios para o seder de Pessach, lá no salão do Colégio Bialik, embaixo da sede administrativa. O nome Bialik era uma homenagem a um importante poeta judeu do leste europeu no século XIX.
No dia-a-dia, era intrigante descer aquelas escadas do salão, passar por uma cortina e adentrar naquele local meio escondido, amadeirado, com um amplo palco ao fundo. Muitas vezes, no recreio, jogávamos futebol de meia naquele piso liso de tábuas.
Na parede ao lado da escada de entrada do salão ficava uma portinha que dava para o refeitório. Era possível também entrar pela escada, pelo lado da área administrativa. Naquele refeitório de azulejos brancos, funcionárias como a Ana, de óculos e cabelos ondulados, e a Conça, senhora negra, volumosa e muito simpática, serviam as crianças.
A garotada, em balbúrdia, sempre aprontava alguma: uma guerra de comida que sujava as paredes, para desespero justificado delas, ou a bagunça nas longas mesas perfiladas.
Nos ensaios de Pessach, a morá Rina separava os grupos. Comandava os preparativos para a cerimônia que contaria com a presença dos pais, em noite especiais. Todos os alunos, em cada nível respectivo de ensino, tinham o direito de participar.
Permaneciam, entre cochichos e risadinhas, sentados diante de amplas mesas espalhadas pelo salão, com pratinhos preenchidos com ingredientes tipo matzá e copinhos de suco de uva no lugar do vinho. Cada um era incluído. Nem que fosse com uma pequena frase.
Ninguém compreendia bem tamanha dedicação. Muitos até se queixavam do jeito um pouco bravo dela. Sem se darem conta da responsabilidade que ela atribuía a si mesma. Queria passar uma mensagem judaica e educativa para um punhado de alunos ainda em busca de referências, no processo de crescimento.
A passagem que mais a emocionava, e que tinha a ver com seus objetivos renascidos, era quando alguém recitava o poema iniciado com "Bem aventurada seja a chispa, que ardeu e acendeu labaredas"...Todo aquele ritual era algo que ela prezava, um sentido comunitário cuja importância conheceu em seus tempos difíceis da Romênia, onde nasceu.
Outro momento que a tocava eram as aulas de Shirim (músicas), ministradas por seu filho, o dócil moré Felipe, com um acordeão. Durante o coro de crianças cantando composições judaicas, os olhos azuis da morá Rina brilhavam um pouco mais. E contrastavam com seus cabelos lisos e ruivos.
Ela se sentia plena, como se estivesse desfazendo naquele colégio o novelo de seu passado de perseguições e tudo que muitos judeus conhecem em suas famílias.
Ficaria linhas e linhas contando episódios que vivenciei com a morá Rina. O dia em que ela chorou por eu ter brincado, involuntariamente, sobre a peça de teatro que montávamos...O momento em que ela chorou quando cantei em meu Bar-Mitzvá. O resultado seria o mesmo.
Triste ou feliz, séria ou alegre, brava ou calma, o seu rio de sentimentos canalizava sempre para a minha convicção de que ela amava o que fazia e os seus alunos. E sempre que estava comigo deixava claro que, naquele momento, aquele menino rebelde e sensível era para ela o mais importante.
Atuou lá por mais de 30 anos. Como qualquer professor, pouco falava de si. Os alunos, em suas funções naturais, mal queriam saber. Tinham outras preocupações ou afazeres.  Ela sabia. E atendia também com métodos intuitivos.
Recebia todos em sua salinha no primeiro andar do prédio principal. Eram como visitas quase familiares. Ouvia sorridente a correria pelas escadas para depois, disfarçando com estilo durão, sair pela porta reclamando do alarido em excesso.
Mesmo quando mudou a diretoria, e ela acabou encostada em um cantinho, o jeito de falar, as passadas firmes pelos corredores, que não escondiam ternura, eram uma marca da escola.
Até que as duas - a morá e depois a escola - se foram. Nem despedida houve. Nenhuma palavra, nenhum adeus. Tudo se diluiu pelos novos desafios, rotina, formatura, faculdade, carreira...distanciamento.
Um dia, porém, eu quis conferir se tinham ido mesmo, passados trinta anos. Eram 7h10 da manhã quando refiz aquele trajeto, pelas casas bonitas, lembrando das conversas com meu pai. Ao chegar, depois de um trânsito bem mais pesado, não havia mais nada daquele tempo lá.
O terreno da escola fora vendido para um empreendimento imobiliário de luxo. Onde ficava o salão, tinha uma piscina. A rampa lateral deu lugar a um canteiro de palmeiras. O mosaico de Macabeus ruiu para a colocação de um muro bege. O refeitório abrigava a garagem.
Mas posso até dizer que, entre o canto dos passarinhos e o barulho da fonte de água da entrada, ouvi aquele sotaque. Olhei com a esperança de ver algo da antiga construção. Uma lâmpada incandescente, um distintivo do velho candelabro (símbolo do colégio), uma cadeira fora de época, uma lousa desbotada ao lado de uma mureta...Ou um fio de cabelo ruivo adormecido na calçada.
Não. Vi apenas alguns degraus de mármore. Eles terminavam em uma ampla e impessoal portaria, vigiada por três seguranças engravatados. Sei lá. Meio frustrado, meio saciado, resolvi acelerar o carro. Como fez o tempo em relação a mim, ao meu pai, à poesia do nome, aos jogos no salão, aos ensaios, ao Bialik.
Só deixei em meu rastro as palavras que escrevo agora. São a canção que fiz para a morá Rina. Além da gratidão, elas, são pelo menos, o meu consolo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Lunático

Quem não acredita no que digo, espere um pouco, sente, cante comigo.
Quem não acredita no que falo, resista à tentação  poderosa de achar o fim no intervalo.
Quem não acredita no que vejo, espere para ver muito além do seu ou do meu desejo.
Quem não acredita no que escuto, ouça o som interior pulsando em lugar do mundo fajuto.
Quem não acredita no que penso, deixe de pensar somente no padrão imposto do consenso.
Quem não acredita no que escrevo, destrua meus textos, me aponte com o dedo em riste o que lhe devo.
Quem não acredita no que sonho, crie seu horizonte, rebata com amor os versos que componho.
Quem não acredita no que acredito, perdoe minha ousadia, me diga seu adeus, esqueça o que eu digo, o que falo, o que vejo, o que escuto, o que penso, o que escrevo, o que sonho, o que acredito. Deixe tudo apenas para mim. E eu, a contragosto, o evito.